Duas entrevistas a Karlheinz Stockhausen: por Jorge Lima
Barreto
Karlheinz
Stockhausen
Apresentação
de
Stockhausen
Karlheinz
Stockhausen, nascido em 1926 é uma das maiores figuras da Cultura do
Século XX - artista visionário transformou toda paisagem da
música pós II Guerra - primeiro com o serialismo integral e o
indeterminismo e depois no meio concretista ( microfone ) e electrónico (
oscilador ) e misto, via banda magnética, dispensando a
instrumentação tradicional e o intérprete ; depois o fundador da
electronic live com executantes a manipular a parafernália
electroacústica e, finalmente na situação pósmoderna e multi
media de
Licht.
A
Revolução da Música nunca nele conheceu limites e podemos
observar no seu grandioso trabalho a necessidade de encontrar novas
fórmulas, outras propostas de expressão, construtivismo técnico e
tecnológico - noções de timbre, altura, duração e
intensidade foram ordenados por princípios lógicos em estruturas
temporais ( e.g.
Punkte
) e espaciais ( e.g.
Originale
) que relacionavam precocemente a filosofia das ciências cognitivas e a
teoria do caos com a Música.
Licht,
a multi-ópera ,composição majestosa, labiríntica, de
reprodução multimedia infinita - Metatexto que levanta os aspectos
estéticos e diacríticos da Música de Hoje, onde desfila a
memória de tudo o que se escreveu e realizou como Mito e o horizonte se
abre a uma cosmologia
delirante.
A obra
Licht
é construída desde há 25 anos como uma série de sete
cerimónias ;ciclo multimedia e interarte dedicado a cada dia da semana -
espiritualista, religioso, mitológico,
ecumenista.
Mas esta
monografia sobre música contemporânea em disco vem a propósito
duma atitude de determinada independência que o Grande Artista assumiu
desde os anos 1980 recorrendo à informatização e edição
dos seus trabalhos.
O
músico vive um contexto de liberdade familiar na aldeia de Kurten, num
paraíso real.
Aí
criou a Stockhausen-Verlag ( editora ) onde publica em exclusividade a sua vasta
produção discográfica, musicográfica e levanta um arquivo
universal da Música.
Stockhausen controla tudo como divindade e sumo-sacerdote da imagem do som-em-si
- Star
Stern
Fluxus
- desde o grafismo, o correio,
edição de partituras , a produção musical, a
gravação, a remistura, escolha de intérpretes e muitas vezes a
regência - os discos são luxuosos ,com um generoso booklet ilustrado
por fragmentos da partitura, fotos, esquemas, organigramas; a impressão
é de elevada qualidade incluindo pequenas-grandes surpresas plásticas
e sonoplásticas.
Stockhausen encarrega-se de todos os aspectos ; sónicos, visuais, teatrais
e tornou-se o seu exclusivo distribuidor
artístico.
Congeminou
instalações, desenhou indumentárias e cenários multimedia ,
coordenou acções de performarte, construiu instrumentos acústicos
e electrónicos, imaginou projectos de luminodinâmica…videasta,
realizador de cinema, coreógrafo, mimeógrafo, sound designer,
tonemeister - dirige o evento em tempo real e transforma-o num meio
cibernético.
Vejamos
algumas dessas criações no sentido de identificarmos ou deixarmos
pistas sobre a variedade das suas abordagens e
conceitos.
Kontakte,
Studie
I e
II
e, Gesang der
Junglinge são trabalhos
seminais de electrónica de estúdio, criados nos anos 50, sem
intérpretes ao vivo.
Kontakte
- trata-se duma obra de música electrónica pura onde se exploram
timbres inusitados, intervalos e velocidades particulares, pulsações
lídimas como considerandos duma nova percepção
musical.
Studie
II é um paradigma da
notação gráfica, um trabalho exultante sobre
dinâmicas.
Gesang der
Junglinge é nada mais nada
menos que a obra mais bela e decisiva da música electroacústica e
concreta, pondo termo às diferenças entre as duas estéticas -
nesta criação mista o mito bíblico de Daniel na fornalha - e o
canto dos jovens no Inferno - é magicamente revivido na voz etérea e
electronicamente trabalhada dum adolescente - nenhuma outra obra de
electrónica atingiu tal nível de lirismo e aura.
Para ficar
definitivamente seduzido pela música
electrónica…
Com
Telemusik o insigne autor
havia trabalhado na modulação de músicas populares de diversa
índole cultural e
planetária
;
Hymnen de 1966, fez de
Stockhausen o mais conhecido de todos os compositores de vanguarda - trata-se da
recolecção em banda magnética de vários hinos nacionais por
método de colagem - são divididos em religiões geográficas,
por oposições e encadeamentos estruturais - resultando um hino
transcendental, símbolo da união de todos os
povos.
Mantra
, de 1970, é o apogeu da
escrita pianística e
electroacústica.
Um
espanto de virtuosismo e subtileza para dois pianos e modulador em anel,
pretende-se como uma miniatura da grandeza cósmica, partindo duma unidade
melódica e dum conceito vibratório. É talvez a mais original de
todas as obras para piano do pós Guerra.
Recordo uma
execução ao vivo de
Mantra
pelos Kontarsky jubilada pela interpretação duma sonata de Schumann
escrita para um só pianista em que Alfons tocava com a mão esquerda e
Aloys com a direita ou
vice-versa.
Gruppen /
Carré
-
Formel
,
Trans
,
Stop
e
Mixtur
, Der
Jahreslauf , são trabalhos
ciclópicos de Stockhausen para orquestra e / ou misto de
electroacústica - mas as duas obras representadas no
angariariam o lugar cimeiro da
arte orquestral na música de
hoje.
Em
Gruppen,
de 1958, para 3 orquestras espacialemnte distribuídas à volta da
audiência, joga-se com blocos polifónicos em movimento permanente de
trocas tímbricas e contraponto textural.
Na escrita de
Carré
foi assistido por Cornelius Cardew em 1960 - um painel de quatro orquestras e
coros explorando sons de longa duração, reinventando os jardins
suspensos - a profundidade semântica transporta-nos ao mistério da
criação.
A
música para percussão conheceu um grau de complexidade e
notação radicalmente inovadoras na obra explosiva
Ziklus
- depois de
Ionisation
de Varése este é o maior marco da música do século XX para
percussão.
Tierkreis
( 1975, rev. 1983 ) é um fresco de 12 invenções
rítmico-melódicas para cada signo do Zodíaco -
Musik im
Bauch ( literalmente
“música no ventre ” ) foi escrito para 6 percussionistas e
caixas de música especialmente construídas ( também à venda
na Verlag-Stockhausen ) - interpretado pelas Percussões de Estrasburgo, o
encantamento ,o sonho , a pureza de
Tierkreis
tornam esta
composição, já interpretada em diferente tipo de
instrumentação, como um dos mais simples e belos - retomado no
tema-patcwork
Sirius
,obra teatral de 1977, para 4 solistas , a metanarrativa dividida em quatro
estações e idades da evolução humana; apresenta-se no
âmbito da parapsicologia considerada como uma ciência humana - ambas
as composições têm um manifesto caracter hipnótico.
Stockhausen
propôs o termo música intuitiva para delimitar acções
improvisadas e estabeleceu um repertório de experimentalismo acústico
e electroacústico e o conceito de música do momento - como
Prozession
e
Momente
, a majestosa tapeçaria de 15 livros com Textkomposition , ou seja ,
indicações literárias para a execução, de título
inesquecível e seminal para a nova música improvisada -
Aus Den Sieben
Tagen
.
Cage havia composto nos
anos 50 música para receptores de rádio ( radio music ) na
Imaginary Landscape no.
4 - mas Karlheinz reconsiderou
o aparelho de rádio como instrumento trabalhando em ondas curtas -
Pole
é carismática ; no entanto
Kurtzwellen
(,congeminada em 1968, pode ser considerada a mais importante invenção
de radio music ; para quatro solistas de electronic live cada um equipado com um
receptor de ondas curtas - a mesma sensação que ouvir dentro dum
rádio…este trabalho anuncia as grandes propostas para música
electrónica ao vivo - e.g.
Mikrophonie
ou
Ceylon
.
Os seus trabalhos
para voz são inumeráveis - e.g.
Inori
,
Am
Himmel Wandre
Ich ,
Choral
,
Atmen Gibt Das
Leben
, Unsichtbare
Chore ,
etc…
Stimmung
, de 1968, que conheceu uma versão pusilânime, foi editado numa
interpretação definitiva do Collegium Vocale Koln - o autor imagina um
novo ritual - os músicos estão sentados em círculo e trabalham
sobra notas fundamentais de séries harmónicas - a sua textura
oriental, mágica, rumor de abelhas, murmúrios, sopros, lapsos
fonéticos, concretizam a investigação linguística e
respiratória de Stockhausen - outra das suas criações mais
extravagantes, deliciosa energia estática, obra
imortal.
Poderiamos indicar muitos outros discos depois de iniciada a Meta Ópera
Licht
- e.g. excertos de música
para solo - e.g.
Amour
para flauta,
Harlekin para clarinete,
Zungenspitztantz,
para picolo,
Solo
para sintetizador, etc.- onde pontificam Suzanne Stephens, Kathinka Pasveer,
Marcus e Simon Stockhausen, Harald Bojé, e.a.
Consideramos, entre os
trabalhos autónomos, o
Helikopter
Streich
Quartett
de 1995, como uma das suas
propostas recentes mais originais - pelo conceito de “quarteto de
cordas”, adjudicado ao som dos helicópteros - cada um dos solistas do
Arditti String Quartet viaja num helicóptero e Karlheinz dirige o som na
terra ( mistura e engenharia ) - a escrita é de tal forma apurada que
nós gafanhotos viajamos ao lado-a-lado numa aventura musical aérea
fantástica.
primeira
entrevista
( 1987
)
Entramos
numa sala de ensaio da Fundação Gulbenkian. Um boneco antropomorfo em
tamanho natural filma silenciosamente o que se passa. Stephens e Khalinka
experimentam sequências instrumentais. Simon , filho de Stockhausen ,
controla um dos vários sintetizadores da sala. Dispositivos sonoros com
filtros, misturadores, moduladores estão pousados numa mesa.
Aí está sentado
um dos génios da música contemporânea: Karlheinz
Stockhausen.
- Quando
chega a um lugar, como agora a Lisboa, fica rodeado de um ambiente musical muito
restrito de cultura musical. Como é que contacta com outras artes, aspectos
culturais, ou mesmo civilizacionais,
autóctones?
- Logo que eu
chego a um lugar, trato de montar toda a minha aparelhagem, o que demora muito
tempo, preparo os meus concertos, estudo com os intérpretes,
aperfeiçoo os mínimos aspectos dessas composições e
congemino outras zonas de criatividade. Não tenho, portanto, nenhum tempo
para a vida mundana, ou para conhecer alguém fora do âmbito do meu
trabalho. Só quando tenho visitas ou encontros previamente estabelecidos
é que posso sair deste regime. Por exemplo, há um ano, na Índia,
em Calcutá, fui com os meus músicos ver um espectáculo de
dança e falei com muita gente
diferente.
- A sua
música edifica uma determinada Filosofia. Pode, tal como Wagner o fez, como
caracteriza a sua filosofia
musical?
- Bem, filosofia é
uma maneira de pensar. Ora, eu penso as minhas obras sempre de maneira
diferente. Ou seja, há várias filosofias da minha música. Mas a
música está para além da própria filosofia. A música
consiste em perceber as vibrações do som, é uma actividade
mental, mas também uma actuação física sensível, da
ordem do prazer. Fazer música está muito para lá do talento
intelectual, embora sempre o exija; em música pensa-se com o
corpo.
- A
divulgação e a explicação da sua música passa
obrigatoriamente por interpretações críticas e
musicológicas. Qual a relação entre a sua música e a
musicologia contemporânea?
- A
musicologia contemporânea é um reconhecimento do novo mundo dos sons,
do novo pensamento musical. Normalmente os musicólogos não ouvem
música. Mas precisam de a viver! A musicologia clássica, que domina em
todas as academias, apenas escreve sobre símbolos musicais, é uma
escrita sobre outra escrita. È preciso penetrar profundamente na
essência dos sons, nas situações da sua
criação.
- Mas, e
acerca da musicologia oficiosa que
referiu?
- A nova musicologia mudou de
aspecto. Agora fazem-se seminários sobre discursos vivos da minha
música perante intérpretes e compositores. Fala-se da
relação entre o público e a música, entre o compositor e o
intérprete, os novos sistemas de comunicação. Por exemplo, a
musicologia clássica fala do violino ou do oboé como sons já
perfeitamente conhecidos e reconhecíveis, mas os novos sons
electrónicos dos sintetizadores ou de instrumentos etnológicos
estabelecem relações novas. Não são descritíveis
,rejeitam a metáfora, não há palavras que as definam
imediatamente. É necessária uma nova metodologia, outras análises
verbais dos sons sinusoidais, outra literatura sobre o ritmo que passe as
métricas e os compassos e nos explique ritmos irregulares,
micro-intervalos, novas articulações
rítmicas.
Não há, nem nunca
houve, ‘ciências musicais’; há sim uma
explicação da música através de outras ciências (
mecânica, acústica, informática, história, fisiologia,
etc,...).
- Na nova
música, o intérprete move-se em concepções de perfomance,
teatro, posturas, manipulações instrumentais, estados específicos
especiais, ou mesmo dramáticos, criando uma nova mitologia
musical.
O que é o seu
teatro musical, como nesta composição Licht, na qual vem a trabalhar
há quinze anos e só acabará daqui a quinze anos, segundo afirmou
na sua conferência?
-
Não gosto da termo teatro musical; prefiro o meu ‘Música de
Cena’. Em Licht
todos os gestos, todos os movimentos, toda a
indumentária, todos os cenários são tratados artisticamente, com
específicas metodologias para cada obra e notações adequados.
Na música clássica ocidental, os
músicos escondem-se nos coros das igrejas, nos fossos das óperas, ou
aparecem como que fardados a interpretar um compositor. Agora, com o
tape,
os amplificadores, os altifalantes, a rádio, o vídeo, podemos criar
diversos espaços cénicos para os concertos.
Sendo que a actuação do
intérprete é coordenada tão artisticamente como a escrita
musical.
- Estamos dominados
pela mediatização da arte musical, veiculada como mercadoria musical e
alienação cultural. Referindo apenas o mais alto nível das suas
criações, que pensa do
jazz e
do
rock, bem como de novas músicas
alternativas?
- Quando eu era
teenager tocava à noite
jazz,
nos bares. Mas nunca contactei directamente com nenhum dos grandes músicos
de
jazz.
-
Nem Cecil Taylor ou Coltrane?
-
Não, nem Giuffre, nenhum deles. Refuto que alguém vá tocar uma
coisa, ou compor, para satisfação de um público determinado,
dentro de formas musicais etiquetadas ou catalogadas. Claro que tem de haver
música para diversas aplicações ou funções. Não se
vai dançar com Schoenberg... precisamos de toda a música, algo de
desconhecido que eleve o compositor e o auditório a um mundo maravilhoso. A
música deve ser livre: não é para servir propósitos
definidos (
como o músico que se autoproclama
jazzman
), como quem tem de guiar um carro pelo mesmo lado da estrada e a determinada
velocidade.
- E
o
rock, com as suas extraordinárias
tecnologias instrumentais e de
espectáculo?
- Em primeiro
lugar, e pelo que oiço na rádio, eles não podem compor, são
incapazes. Usam
clichés
já inventados pelos engenheiros de som. São extremamente superficiais.
São maneiristas, querem tocar mais alto, mais louco, mas são
terrivelmente primitivos. Analisando a sua música, as músicas de
Moçambique, Índia, mesmo as mais antigas, operam com ritmos que
são muito mais complexos do que os do
rock.
-
Por último, e não querendo mais interromper o seu valioso trabalho,
podíamos verificar que, na sua música, se constata uma
utilização supertecnológica, controlada por um enorme saber
científico.
Como vê
então as músicas tradicionais
planetárias?
- A meu ver, as
novas tecnologias permitem registar, combinar, reanimar, assimilar, as mais
variadas músicas tradicionais ( timbre, ritmo, texturas e as mais complexas
semiologias ).
Quanto às músicas
tradicionais, penso que há uma solução para todas elas. Deve-se
criar museus. Museus da música francesa impressionista, do teatro
Gagaku
japonês, museu Bach, Museu do
Jazz.
-
Museus imaginários com
intérpretes?
- Sim,
com intérpretes, arquivos, documentações as mais variadas, onde
são observadas, como quando alguém vai a um museu ver Rafael, todas as
músicas do mundo.
A
história clássica da música pensa que ela começou em Machaut
e acabou em mim. Mas é falso. É preciso ouvir Di Lasso, música
africana. Alguém fez um programa relacionando a minha música com a de
Heinrich Schultz. Eu… fiquei pasmado ao ouvir esse programa na rádio.
É que dentro de mim está Bach, está Schultz, e eu sou tocado em
todos os momentos por essa
música.
segunda
entrevista
(
1991)
- A sua obra
Licht,
que vem a compor desde 1977, e pela sua multiplicidade, tem algum fio condutor
na narrativa, tem o carácter épico de uma saga ou quais são as
suas estruturas narrativas?
- A
totalidade da obra que pretendo vir a acabar no início do Sec. XXI, é
constituída por sete óperas, correspondentes a cada dia da semana.
Não apenas sons, mas movimento e texto, e este texto descreve então os
diferentes significados de cada dia. Procura-se iluminar a vida espiritual da
cada dia. Tem um
significado geral de auto-educação;
uma reflexão sobre diversos elementos: em
Donnerstag
( Quinta-feira ) é a água; mas em
Montag
( Segunda-feira ) é a terra, conectada com a guerra, os conflitos, mas
também a paz, o Movimento na Espaço (direita, esquerda, frontal...), a
cor branca, a transparência, numa procura duma vida mais profunda que a
diária. É a vida dos seres orgânicos, os seus diferentes
estádios de crescimento, o nascimento, a mãe, a criança. Não
é apenas uma saga a inventar um passado, mas implica definições
musicais das mais variadas culturas deste planeta. Uma proposta de novas
acções musicais.
É uma
narrativa aberta e plurívoca, com múltiplos
sentidos.
- Qual a
presença na sua música cénica
da performance art
,no sentido d uma nova arte, como em
Joseph Beuys ou Nam June
Paik?
-
Trabalhei algum tempo com June Paik. A
peça
Montag,
para ser executada, pede dois
performers.
Para o Lucipólipo há duas pessoas envoltas em borracha e unidas ( um
é um cantor baixo e o outro é um actor ). Este é capaz de gritar
como uma rã ou saltar como uma coelho; No pólipo negro é essa a
caracteriologia que eu quero incluir. Outro exemplo é o da clarinetista
americana Suzanne Stephens, que eu considero a maior clarinetista do mundo, que
usa o corpo em
Arlekin
como é usado na
performance-art,
como na comedia
dell’arte. Também incluo a
performance
numa última parte de
Licht
; o
dançarino de sapateado ( tap
dancer ) que simultaneamente é um
trombonista virtuoso Já na obra
Vision,
incluo um pintor, um director de cena ;cada uma destas pessoas tem uma diferente
noção do espaço e do tempo.
A minha composição é uma obra aberta, assenta sobre áreas
múltiplas, é o novo aspecto da Arte. Assim, voltando à sua
pergunta, estas pessoas, os
performers,
materializam conceitos musicais, para além das academias. Nas academias
diz-se o que e como se deve fazer, exigem uma obediência estrita, limitam.
Com a
música/perfomance
temos outras formas de interpretação fora dos complexos cristalizados
na interpretação académica. Em todas as cidades e aldeias há
os loucos, pessoas que falam duma maneira estranha, criticam a maneira de ser
das pessoas ditas ‘normais’, inventam uma maneira original de estar
com o mundo. Seria necessário, e significado de liberdade, integrar esses
loucos, fazer da vida social um novo conceito de
teatro.
- Qual a
influência, para a sua concepção de Tempo Musical, das teorias
científicas do tempo, como as que têm surgido depois da teoria da
relatividade?
- Gostaria que visse
os meus livros de apontamentos. Estão cheios de recortes,
citações, reflexões sobre informações
cosmológicas, astronómicas, com referências aos ritmos dos
planetas, à periodicidade das explosões das galáxias ou aos
buracos negros. Hoje há uma informação infindável sobre
estes assuntos. Tenho uma imensa curiosidade por tudo o que se descobre no mundo
da Física. Penso nos sistemas planetários, nas vidas extraterrestres,
noutros seres que existem fora da nossa galáxia. Mas observo também o
tempo biológico. Na minha aldeia, eu vivo numa floresta e planto as flores,
os legumes, eu próprio. Acompanhei o crescimento de uma flor, um jacinto, e
assentei tantas fases da sua maravilhosa evolução, da música que
há nesse crescimento. Também a sobreposição de tempos, de
ritmos que existem em mundos paralelos.
Em
Licht
sobrepus ritmos
de
identidades ritmológicas completamente
diferentes. São percepções diferentes, também. É desta
minha atenção científica que construo as minhas
composições.
- A
sua obra Licht transcende o domínio da psicologia da música, para
abordar questões da parapsicologia, da astrologia, como a
percepção extra-sensorial, a
telepatia?
-
Em
Licht
há seres humanos em palco. São emanações de Michael, o
criador do universo; Eva é a recriação dos corpos; Lucífer o
antagonismo, situado noutro universo, sem evolução da
consciência, sem seres humanos, para lá do sofrimento e do medo. O
espírito puro. Michael, é o lado físico, como uma permanente
massagem. Em
Licht,
a música é experimentada pelo corpo, mas também é a
transcendência do homem, o seu criador parapsicológico. O
parapsiquíco é sempre algo mais, aquilo que pode experimentar o
maravilhoso da música. Já crianças em
Montag.
E essas crianças têm também habilidade, cantam numa
aspiração ao que é Essencial.
Licht
é outra concepção do homem, uma nova relação do
conhecimento e dos
sentidos.
- Não
referindo apenas os contextos da Música Concreta, em
Licht
há a utilização de sons naturais (como a água, o vento, os
pássaros, as baleias). Quais são os processos musicais de recolha
destes materiais?
-
No Século XX, pela primeira vez na
história, o homem pode gravar os sons da natureza e reproduzi-los. Por
exemplo, na minha obra
Sirius
encomendei exemplos de ventos gravados na Sibéria, no Sahara, na savana
africana, para assim escolher a melhor qualidade; na parte de
Sirius,
Libra, seleccionei o som de vento mais
apropriado. A minha noção de concretismo é assim hiper-realista,
como na pintura hiper-realista. Não apenas um só vento, mas vento
trabalhado em oito canais, um ultra-vento, o que jamais poderia acontecer na
natureza.
Quero integrar nas minhas
composições sons da natureza, mas combiná-los cientificamente com
sons artificiais. Esta é a arte de
compor.
-
Qual é a sua concepção
de música
mimética?
-
Há em
Montag,
na última cena, uma designação para
picollo,
voz e sons naturais de pássaros. Se retardar lentamente o som dos
pássaros obtido num sampler, esse som torna-se humanizado, como a voz das
crianças; mas se acelerar o
picollo
até desaparecer o sentido das notas musicais, obtem-se o som de
pássaros. Passa-se assim duma intrincada relação entre os sons
naturais e artificiais, para um novo mundo sonoro. Não se pode perceber
qual a verdadeira fonte de som.
Nas
músicas populares, muitos ritmos e sons relacionam-se com fenómenos
naturais, como os animais.
-
Tecnologias da sua
Música
Cénica, termo que julga mais
apropriado do que o Teatro Musical
...
-
Eu nunca compus sem abrir novas possibilidades
ao significado. Ainda recentemente, ao montar o segundo acto de
Montag,
queria alterar uma sequência
electrónica feita em sintetizador. O meu
filho Simon concebeu essa figura num computador e pudemos reproduzir exactamente
a mesma morfologia musical. Depois, através duma programação
sobre um ecrã terminal, e num só dia, fizemos todas as
alterações. Na Música de
Cena recolho amostras áudio (
samples
) como ruído, vozes, é como uma
pintura musical figurativa.
O uso do
computador é outro aspecto, sempre usei novos engenhos e novos dispositivos
na tecnologia de transformação do som, do microfone ao
computador.
-
Quais são os estudos de
música etnográfica que teve de fazer para a realização de
Licht?
-
Eu não estudo, não tenho mestres,
observo, estou presente, vivo e experimento. Fiquei como uma criança
quando, pela primeira vez, assisti a um espectáculo de teatro
Gagaku
no Japão.
Sirius
inspira-se na observação de rituais
no Bali. No Bali havia músicos que entravam em transe, numa verdadeira
atitude religiosa. A ópera europeia e as formas de culto religiosas
europeias estão mortas, já só se reproduzem os mesmos regimes de
actuação, já sem outro sentido, a repetição do mesmo.
Os faquires cortam-se e mutilam-se, pisam o fogo com os pés descalços,
sem um único lamento - é uma verdade profunda para eles. Um dia, no
Ceilão, vi um homem pendurado por ganchos, presos na pele das costas; e
só porque uma pinta de sangue apareceu num dos buracos da pele, prostou-se
com vergonha do facto ter acontecido. Na música não se deve tocar para
dar a impressão de estar a produzir música, como nesses
intérpretes académicos que por aí proliferam. Deve-se aprender
destes povos ( África, por exemplo, onde desafortunadamente os regimes
políticos estão a destruir todas as tradições ); deve-se
aprender com a autenticidade dos diversos conceitos que cada povo tem na
música.
-
Na última entrevista que nos
concedeu, em 1987, afirmou que a música de Schoenberg não era para
dançar. Há uma música sua feita para dançar, outra que
não é para dançar, ou seja, qual a situação da sua
música em relação à
dança?
- Em
Licht,
o piano é um instrumento, a voz é um instrumento, o corpo é um
instrumento. Há combinações instrumentais deste tipo com
predominâncias de cada realidade instrumental. Em
Examen,
o grupo está em primeiro lugar. Um dançarino anuncia um trompete pela
sua acção. Em
Vision,
os gestos são também os mais importantes. Em toda a música
ocidental (
ballet
), feita para a dança, planificaram-se formulas rítmicas e os
movimentos estão estipulados por convenções já
atávicas. A verdadeira estrutura da música está na
correlação de todos os gestos, não apenas dos que produzem
determinado som. Em
Vision
compus para todas as partes do corpo: cabeça, ombros, dedos, mãos,
pés, tronco. Em
Inori,
a notação musical consiste em fotos com diversas posições do
corpo sincronizadas escrupulosamente com o som. É uma gramática e uma
síntese de dança. Recorro também a movimentos específicos da
música. Às dinâmicas com o movimento do corpo. Assim as notas
são referidas no movimento vertical dos braços, são a parte
melódica, as dinâmicas são dadas pelo afastamento dos
braços.
Vision
tem um código numérico complexo. Os gestos são individualizados,
fazem parte da composição. Como nos exercícios de
Yoga.
É esta a minha
música/dança.
-
Uma última questão. Qual a
relação da sua música com os movimentos políticos, ou antes,
qual o significado político da sua
música?
- Tenho o conceito
político de Platão. Vivemos numa sociedade constituída por seres
humanos, mas também por seres organizados de determinada forma. De maneira
orgânica, com identidades precisas. Mais do que nunca, a música que eu
faço permite uma nova visão do mundo, de um possível entendimento
colectivo e individual, o que é desconhecido na vida política. As
pessoas que vejam Licht
receberão uma mensagem política,
através dum nível puramente musical. Quer Platão, quer Tomás
de Aquino sabiam da importância da Música na política. Por todo o
lado só ouvimos palavras ocas, a demagogia, a propaganda verbal, com os
slogans
do poder.
Shostakovitch, depois de ter
ouvido em Moscovo a parte inicial de
Licht
disse-me: ‘A sua música é a Paz, é a concertação
dos povos’.
Os partidos
políticos, a meu ver, deviam deixar de existir, dividem as pessoas e
guiam-nas para a luta ideológica. Todas as pessoas de classes, raças e
povos estão representadas na minha música. Há dias, eu votei por
carta na minha aldeia, com cujos habitantes estabeleço a mais cordial
relação.
Mas eu pergunto, porque
é que o meu voto tem o mesmo valor que o deles? Eles querem ter um carro,
fartarem-se de comer, menos trabalho e eu quero o contrário: não quero
um carro, quero comer frugalmente e sem carne, quero trabalhar mais. É
impossível, é ridículo, devia desaparecer a
Guerra.
N.B.:
ambas as video-entrevistas foram publicadas no Jornal de Letras, Lisboa (1987,
1991)
net@input
Posted: Sex - Novembro 21, 2003 at 05:24 PM