music@improv: JORGE LIMA BARRETO
arte:
joana de
deus music@improvestéticas
da nova
improvisaçãoINTRÓITO/
IMPROMPTUA antropologia da
improvisação musical situa a sua origem em várias
frentesdeterminadas pela evolução
do hominídeo para o Homem. E a Música se
fezcarne.A
improvisação, ou seja o acto estético e espontâneo que
advém daconsciência das formas e
do movimento, dos valores sonoros e dos
ritmos,consiste, segundo Leroi-Gouran, in:
"le geste e la parole", na
possibilidadefísica de organizar
sonoridades e gestos expressivos; tais sons,
assiminventados pelo homo ludens de
Huizinga, estariam na própria origem
eidentificação do gesto
artístico e musical; a improvisação musical
erasubstância exaltante do
mágico-ritual.Os improvisos são
operações periódicas, hábitos tradicionais e
nãogenéticos; o genético
é o pré-especializado pela espécie e o hereditário é
osanguíneo transmitido de pais a
filhos, a gestalt da cultura
presente,explicando ambas as
circunstâncias a transmissão do conhecimento e o
surtode um personagem singular com
aptidões natas muito particulares, que é
omúsico; a imbricação de
fórmulas orais e gestuais, os recitativos
rítmicosdo orador improvisador,
construções/ instruções, acções
transitórias,eupraxis, alinhavadas por
ideogramas ao serviço da aprendizagem e
daconservação de segredos do
métier do músico; no Paleolítico a caverna era
uminstrumento pelos seus ecos,
reverberações,
ressoamentos.Joga-se em cada uma das
células sociais da etnia, em cadeias
operatórias,blocos de gestos
demonstrativos e comentários orais, culminando na
suarepresentação simbólica ou
escrita.A civilização de estilo
escrito tendeu progressivamente a impor-se
comoúnica, obnubilando os abismos
subterrâneos da Humanidade e a sua
inventiomusical.Passaram-se
milhares e milhares de anos e a criação musical era
significantedestes pressupostos
antropológicos e culturais, detendo a improvisação
olugar mais distinto na realização
musical, o cadinho das tecnologias
etécnicas instrumentais e vocais,
consolidação geográfica e
civilizacional.Em alegada
reacção ao absolutismo teórico hiper-racional da escrita
musicaleuropeia, no mais elevado epigonismo,
e ao seu ecumenismo totalitário e
demassas da música comercial, na
década de 1950 surgiria um fluxo
deimprovisações musicais,
também em variegadas frentes, mormente de
caracternacional ou regional mas,
fundamentalmente como fenomenologia
urbana;diríamos mesmo ser uma arte
musical definida na e pela cidade.
Rapidamente,nesses anos, a verve criativa da
improvisação ganharia a
proporçãoplanetária e
pôde a partir daí ser taxada como um movimento artístico
degrande autonomia.
Ao musicólogo interessam todas as
espécies de música existentes
(oral,escrita, cibernética…) e
tudo o que possa esclarecer o contexto humano
emque essas músicas se
situam.Aventou-se então o ramo
distintivo da "musicologia da nova
improvisação",cujo objecto é
a concepção individual e súbita de estruturas
ordenadas,implementação de
processos imediatistas, outras oportunidades para
apercepção.
Neste ensaio musicológico e
sinóptico, dado a seu objecto, iremos
citarnomes, que são afinal alguns
epónimos da nova improvisação; dado o
tónusdesta arte tão subjectiva,
procurou-se muito custosamente evitar repetir
ospersonagens do
argumento.A bibliografia é um
sumo relativo à nova música improvisada, sendo
aquicitadas algumas obras literárias
apenas quando pontuais e definitivas
numaqualquer ilação; segundo o
academismo fica bem remeter a todo o
momentoqualquer congeminação para
outrem, subjugando o texto ao tricot
daretrospecção; esta metodologia
calcificada cauciona aparentemente
oinvestigador pseudo-científico, que
recorre a uma conspícua urdidura
depensamentos alheios, impossibilitando a
originalidade e o imaginário.O objecto
deste ensaio é novo e sincrónico; no recenseamento
epistemológicopode ser considerada a
leitura dum livro, dum capítulo, dum parágrafo,
dumaopinião proverbial; dum arrufo
jornalístico; asserções que circulam no
mundomusicológico e latamente no
ensaístico; aquilo que na sua generalidade
nosdá uma ideia ou oferece uma
observação passim; consulta fugaz anotada
decapa de disco, revista, fotocópia
quase anónima que nos chega às
mãos;observação de algum
programa na TV, ou de qualquer video; o fortuito
e-mail;a dica de amigo e/ou connoisseur;
mais importante ainda: algo que algumdestes
virtuosos da improvisação nos disse em encontro pessoal e
mágico;principalmente a
auto-reflexão sobre o próprio trabalho; deleite com
umpoema; por isso, e dado o isomorfismo da
improvisação o ensaio do futurovai
remeter o leitor para o arquivo de computador ou à
enciclopédiainformática; a
musicografia está a fundir-se na galáxia multimedia. Hoje
háa NET que substitui a
informação impressa com entradas completas e
complexassobre os mais diversos assuntos e
nomeações - por outro lado, são
quaseinexistentes as bibliografia,
discografia, filmografia e
videografia,inclinadas monograficamente para
a improvisação musical. Apesar de
tudorecenseou-se uma vultuosa e
caleidoscópica bibliografia que emoldura todo
oensaio e será da maior utilidade para
quem queira sondar os
infinitosmistérios da nova
improvisação musical.Abordei
em todos os meus livros o tema da improvisação, especialmente
em"Revolução do Jazz", 1972;
"Jazz-Off ",1974; "Musa Lusa", 1997;
"JazzArte2", 2001. E, duma maneira
purgatória, editei "O Siamês
TelefaxStradivarius", 1997, como um
conjunto absoluto de citações.Em
1995 editei o livro "Nova Música Viva", específico, onde fazia
umlevantamento histórico e
estético daquilo que apelaria Nova
MúsicaImprovisada, o termo mais
cómodo - nomenclatura, estilo, género,
tecnologia,técnica, considerandos da
discografia, fenomenologias
interartísticas,perversões
metodológicas, correlações e obras decorrentes - dez
anosvolvidos e alguma coisa
mudou.Neste escopo procuramos levantar uma
(in)certa estética da nova
músicaimprovisada; uma opinião, no
sentido filosófico de doxa, revelação do
modode existência do objecto sonoro
improvisado, servindo de arauto dos
seuscriadores.Prévost
proferiu uma asserção fundamental: "quando o músico parte para
aimprovisação, ele não parte
do nada, mas do silêncio".O mais
correcto método de análise da improvisação está na
filosofia daintuição do instante
de Gaston Bachelard; cada momento improvisado é um
novosaber irredutível ao que o precede,
na sua potencialidade fascinante fazeclodir
os desejos inconscientes; para Bachelard os instrumentos
seriamteorias materializadas; a
improvisação é primeiramente um acto artesanal
quedevolve à razão o seu caracter
artístico genuíno.A
substância improvisada só pode ser narrada, contada,
descritametaforicamente, uma vez que, dado o
abandono do dogma, não há
qualquerponto de referência
sistematizado, ou gramática definitiva,
quaisquerortodoxia e autoridade; como na
acepção kantiana do a posteriori,
categoriaque classifica os conhecimentos
através das sensações os quais não
podempretender ser universalmente
válidos – apenas nos apercebemos de
rasgos,fissuras, lapsos entre unidades
semiológicas que entram subitamente
nosnossos ouvidos.
Por isso, John Cage dizia que aquilo que o
desgostava na improvisação era
adependência a sentimentos e ideias,
apesar de considerar factor positivodesta o
permitir descobertas fora dos discursos conhecidos. P.
Boulezconcordava com Cage e, acrescentava
que sendo a improvisação desprovida
daobjectividade dos esquemas convencionais
ela se tornava demasiadopersonalizada,
arbitrariamente subjugada à cultura e ao temperamento
doartista.
A grande maioria dos compositores
venerou a improvisação, pelo menos
nomomento em que estavam a compor,
improvisando.O músico improvisa aquilo
que, em princípio, apenas ele mesmo
consideraestética e tecnicamente
adequado, fora da legislação e do julgamento
prévio.Ancestralmente a
improvisação, para além de um ritual, era uma religião,
naacepção de G. Bataille em
"Erotismo e Religião".O vestígio
platónico está na anamnésia, estratos de recordações do
que foiaprendido, tocado ou vivido, e da
demiurgia, onde o músico é o construtor
domundo, associa o caos original e o
cosmo.Tudo o que se pode dizer sobre a
improvisação não tem rigorosa
cauçãomatemática, opostamente
ao estudo de uma aplicação harmónica dentro de
umregime tonal, ou de uma série, ou de
um projecto espectral, etc…; como
nãose trata propriamente duma tipologia
musical singularizada, podemos apelar
avários conhecimentos científicos
auxiliares para qualificar a
acçãoimprovisada, e é o que
iremos fazer; o improviso musical é abrangido
peloconceito aristotélico de
enteléquia, que vai da possibilidade à energia e
aorealismo; também a
improvisação é a atenção flutuante e resulta de
umametodologia empírica pela
observação da técnica e pelos
experimentossensitivos, i.e., confirma o
aforismo lockeano "nada está no intelecto
quenão tenha passado pelos
sentidos".Especialmente evocaremos
critérios das Ciências Humanas, já que
ciênciaspositivas, (e.g. a
álgebra, a física acústica, a geometria, e.a.)
apenaspodem ser adjudicadas de modo
improcedente; somos levados a admitir
oerróneo e o contraditório, como
na observação psicanalítica de
umapatologia. Cage asseverou: "a minha
intenção é acabar com
qualquerintenção"; é apenas a
vontade e o desejo do prazer que induz o gesto
dacriação
improvisatória.A improvisação
é uma invenção hic et nunc, onde o humor, nas suas
variantesradicais, classifica uma
técnica muito especial de
trabalho.Há valores
intrínsecos derivados de várias formulações teóricas
(e.g.melodia, métrica, estrutura
harmónica, homologias e simetrias
texturais,repetições,
vínculos tímbricos, escalas vagamente aproximadas
dasterminologias europeia ou etno,
etc…); mas pouco se pode dizer
naperspectiva da técnica senão
formular-se o comentário leviano (e.g. S.
Lacyrecorre a fluxos repetitivos no sax
soprano), ou um enfoque biográfico
(e.g.H. Bennink tocou com Cecil Taylor em
Julho de 1988, para gravar "Spots,Circles
and Fantasy"); o caso dos currículos dos improvisadores tece
umarede inesgotável de
correalizações, parcerias, cumplicidades –
podemosdetectar evolução
técnica (e.g. o refinamento do sopro contínuo em
EvanParker); a inconstância ou o
desequilíbrio qualitativo da proposta
(e.g.Fred Frith; H. Kaiser); vidas assoladas
por roturas, mudanças de
valoresmusicais ou político/
ideológicos, hibridações estilísticas e
tecnológicasque podem dominar fases
distintas no devir profissional do músico;
questõesa tratar uma a uma e por cada
improvisador, etc…A
hermenêutica musical a que recorremos tenta explicar a nova
improvisaçãonos seus laços
com a História, a Cultura e o vivido pelo ser
humano.Claro que se impõe uma
diferenciação fractal entre a improvisação
livrecontemporânea e o Jazz - mesmo
sucedâneos jazzísticos, com enredos
temáticosisométricos e
folclorizantes geralmente investidos no conceito de
enunciadotemático, estilo apostrofado
pelo neo-modalismo e patrocinado por
inúmeraseditoras multinacionais; agora,
alguns músicos amadores de fraca
convicçãono valor autónomo da
improvisação falam da "música" deles como
"Jazzcontemporâneo", para saltarem para
os pódios do Jazz; ou
referem-nalapidarmente como
"improvisação em tempo real"; claro que o termo
"temporeal" é apodíctico da
improvisação e, surgiu recentemente nos meios
dainformática significando
intervenção directa e sincrónica na acção
musical.Vamos por de lado, e por
agora, as questões interarte; há
dificuldadesincontornáveis na recolha
sistematizada de obras para poesia (e.g. a
artepermutacional de P. De Vree que concebeu
"Fylkingen" para poesia e
músicaexperimental in loco); teatro
musical (e.g. "blitz" de M. Duchamp);
dança(e.g. J. Surman e B. Phillips
improvisando com a dançarina Carolyn Carson
em"trio"); cinema (e.g. MEV para "Zabrinsky
Point" de M. Antonioni ); vídeo(e.g. D.
Tudor para "rainforest"); improvisos polivalentes de
música,performarte e interarte (e.g. J.
Beuys, J. Dubuffet, N. Schoeffer;
HermanNitsch de "komposition fur orgel",
e.a.); normalmente estas
hibridaçõesartísticas com a
música improvisada são de caracter pragmático
evinculativo, previsto para as
adequação e funcionalização, as quais
sonegama liberdade ao músico
improvisador. Serão inspirações para um outro
estudodicotómico ou respeitante a
pluralidades entre diversas artes, caso
dasituação multimedia, a qual pode
reunir no mesmo trabalho metatextual, avideo
art, o diaporama, a luminotecnia, a computer music, o disco, o
rádio,a gravador,
etc...HISTORIOLOGEMASNuma
brevíssima observação da antropologia cultural da música
improvisadapodemos afirmar que desde os
primórdios, a maioria quase absoluta
dasmúsicas do mundo, são de
caracter improvisado; nessas
improvisaçõescolectivas ou
individuais, cimenta-se uma gramática ou um idioma que,
portradição oral, se transmite de
geração a geração, com notáveis
diferençasestéticas que marcam
geograficamente cada cultura, muitas vezes
transmudadaou aglutinada pelos movimentos
políticos das civilizações.No
paradoxo de B. Croce, in: la critica, toda a História é
contemporânea, jáque ela existe
apenas pela permanência dos seus
vestígios.A etnomusicologia, por seu
turno, classificou os mais exóticos e
diversostipos de improvisação
(e.g. na Índia privilegia-se o ritmo e o movimento,
osciclos de fluxos improvisados; no
gamelão (orquestra indonésia)
resplandecemos vectores da
improvisação por secções e solistas; em Moçambique, os
Chopisubstantificam fórmulas
polirrítmicas, e.a. ad infinitum).Desde
a invenção da escrita sempre houve uma simbologia musical
designativade uma acção e sobre
suportes os mais heterogéneos e bizarros
(e.g.assírios, egípcios, vedas,
hebreus, gregos, romanos, hindus,
árabes,esquimós, ameríndios,
papuas, e.a.).Na Idade Média
europeia e, consolidando-se no renascimento, a escrita,
aprincípio neumática, depois
eternizando o regime modal bitonal,
vingouhegemonicamente - consagrando uma
organologia perene, átrio para
agramatologia musical historicamente a mais
importante, ao nível
político-cultural, imperialista,
colonialista, globalizador - conquistaria quase
todaa musicografia polular e
classicista.O canto melismático
litúrgico considerava múltiplos planos improvisados;
apolifonia dos séculos XV e XVI
integrava harmonias primárias
ex-improviso;Giovani Gabrielli nas suas
sonatas e canzonas explicitava certas notas
eritmos mas deixava ao cuidado dos solistas
a volúpia das velocidades e
asdinâmicas; no século XVII, o
contraponto poderia ser resultado de
frasesimprovisadas; no barroco, a
ornamentação (passagens, coloratura)
eravulgarmente improvisada; os grandes
solistas do maneirismo mostravam ahabilidade
manual e a invenção temática durante as
improvisações;Frescobaldi nas suas
improvisações em órgão desconstruía tocatas e,
Corelliimprovisava esotericamente sobre
cadenzas; a tocata, o ricercar, a fantasiae
a fuga são formas que dão ênfase à improvisação,
especialmente para órgão(e.g.
Bach, Haendel, Buxtehude) e depois para piano (e.g. Mozart
eBeethoven).No
século XIX os grandes organistas exibiam-se em monumentais
improvisaçõesromânticas
(e.g., Mendelsohn, C. Frank, onde a cadenza clássica chega
aperder a estrutura formal para dar lugar a
texturas, massas sonorasabstractas); Chopin,
Liszt ou Paganini praticavam uma
improvisaçãocodificada que ia do
tonalismo e, subito, se desmarcava na
livreatonalidade. Debussy considerava a
improvisação como a indefinição da
bruma,da nuvem, da maré, ou da
luminosidade fosforescente. A
cadênciavulgarizou-se nas orquestras
clássicas como um segmento improvisada por
umsolista, normalmente no fim de um
trecho.A densidade ultracromática dos
compositores românticos e depois a
permutaçãoextremamente rígida
do dodecafonismo expurgavam qualquer veleidade
doimprovisador.
No início do século XX
espoletaram movimentos poliartísticos como
ofuturismo (e.g. L. Russolo e a teoria do
ruído estético e da anti-música),
odadaísmo, o construtivismo, que
marcariam profundamente a actuação
domúsico- performer; após a II
Grande Guerra, prevaleceram o
serialismointegral, o espectralismo, e
outros movimentos ou géneros pós-
serialistas,para- científicos, onde se
procurava dominar todo o acontecimento
sonoro;aí, a improvisação foi
desconsiderada.As escolas da
música contemporânea americana ( e.g. C. Wolf, G. Crumb,
HenryCowell, J. Cage; Morton Feldman
prescrevia algumas notas mas deixava aolivre
arbítrio do intérprete muitos acontecimentos; etc…) não
foramfavoráveis à
improvisação porém, abriram horizontes ao aleatório e
aoindeterminismo, ao ruído e ao acaso,
ao personagem do músico maldito
erebelde, que escapa aos pragmatismo e
hierarquia e, ao paradigmatecnocrático
da música electroacústica.Como
vimos, desde 1950, e como fenómeno cosmopolita (e.g. as metrópoles
deLondres, Nova Iorque, Chicago, Los
Angeles, Paris, Berlim, Roma,
Tóquio,Moscovo, e.a.), gerou-se novo
tipo de discurso baseada no conceito
deimprovisação total, modelos
elementares, solicitações verbais, notações
maisou menos pessoais, tempos
subjectivos.O Jazz é a principal
fonte da nova música improvisada e testamentou
umapanóplia discursiva e técnica
sobredeterminante.A nova
improvisação como que re- imagina uma arqueologia da História
doJazz.No
Jazz clássico estabeleceram-se inúmeros clichés da
improvisação: desde osblues e as
suas dissonâncias específicas e de caracter emocional (e.g.
JohnLee Hooker); rede parafrástica na
fórmula do tema e variação (e.g.
LouisArmstrong); em 1948 Coleman Hawkins
gravou o avatar da improvisação, o
solo"picasso" em sax tenor sem
acompanhamento; o Jazz moderno, nos meados
doséculo passado, assenta numa
estrutura harmónica periclitante, sobre
umagrelha de acordes (e.g. Charlie Parker,
D. Gillespie, Th. Monk); nos músicose
teóricos do Jazz dito progressive ou third stream, que coleccionava
eestudava improvisações mistas
classicistas e jazzísticas (e.g. G.
Schuller,Ran Blake, J. Giuffre, John Lewis,
Don Ellis, e.a.); no modalismo que
sedesinteressava do centro tonal nos termos
de tónica e dominante e pretendiaoutras
escalas (e.g. Bill Evans, Gil Evans, Miles Davis, G. Russell,
C.Mingus, e.a.) e, no último quartel,
numa liberdade generalizada em todos
osparâmetros com o free jazz (e.g.
"Ascention" de John Coltrane, paraorquestra,
um monumento apocalíptico da improvisação, e, "Free Jazz"
deOrnette Coleman, para quarteto duplo,
propondo a teoria
harmolódicafundamentada na
dissolução do aspecto cromático). Foram seminais
asorquestras de Sun Ra, expoente do
jazz-happening, e a Jazz ComposersOrchestra
Association, ecologias caóticas de M. Mantler para
ossolos-manifestos dos militantes do free.
Os rituais afro-americanos do ArtEnsemble of
Chicago são arquétipos da nova improvisação.. A
estética dogrito nos saxofonistas A.
Ayler, F. Wright, J. Coltrane, David Murray,
F.Lowe, J. Moondoc, J. Zorn, K. Vandermark,
suscitaram concepções cardinais.
Oprojecto cataclísmico do baterista
Sunny Murray vive no inconsciente detodos os
percussionistas ulteriores. As execuções de Cecil
Taylor,construtivistas, atléticas,
sismográficas, são o topo da arte do Jazz e
dasua libertação para o
desconhecido, para a improvisação que se aparta
detodos os saberes conservatoriais e viaja
para horizontes inóspitos.As
orquestras de Jazz distinguem-se dos colectivos de
improvisadoresradicais pela
subjugação daquelas ao arranjo e à pauta; o improvisador
totalnão recopia os solos ou sequer os
sabe de cor, a substância
improvisadasurge da conexão com o
material imediatamente explícito e renega
odoutrinário. Genealogias dos
rhythm-and-blues e do funky, o jazz rock
oufusão, propunham escalas modais e um
fogo de artifício de improvisos
numconcurso de velocidade ou malabarismos de
acordes na corda bamba de ritmospropulsivos
(e.g. grupos de H. Hancock, C. Corea, Mahavishnu,
e.a.).É pertinente ainda o uso do
termo "jazz-off", que inventei em 1974,
parasignificar, no nosso caso, discursos
organizados de elementos semióticos
doJazz (e.g. fraseado, timbre, tessitura,
expressão, swing,
e.a.),descontextualizando-os num átimo
de regimes de textura, agógica ou
dinãmica.O jazz off, na sua vertente da
improvisação aberta, hipertrofiou
osparâmetros da música
clássica contemporânea ou avant
garde.Experimentalismo e/ou jazz off,
sobretudo peripécias na vida de
músicosprofissionais que enalteceram a
improvisação ao participarem em eventos
semfronteiras teorizadas, revolucionando o
status musical; dos finais da décadade
1960 aos nossos dias, afirmou-se uma elite de
improvisadores,independentemente de todos
eles terem sido ou serem executantes
ouintérpretes ou compositores de obras
enquadradas em qualquer ortodoxia
eclassificadas em tipologias, géneros,
linguagens: (e.g. nos sopros depalheta e/ou
de madeira: S. Lacy, um oráculo retrospectivo, E. Dean,
tambémteórico da
improvisação, A. Skidmore, M. Osborne, F. Jeanneau,
consagradoanalista, H. Bluiett, T. Coe, S.
Potts, N. Rothenberg, W. Fuchs, A. Harth,D.
Lazro, M.Pitz, L. Sclavis, M, Ehrlich, P. Vysniauskas, J. Purcell,
T.Chapin, J. Chance, T. Hodgkinson, este
insinuante esteta, E. Friedlander,
G.Trovesi, G. Frode, W.S. Ware, C. Gayle, J.
Butcher. J. Raskin, B. Ackley, L.Ochs, F.
Gjerstad, V. Golia, W. Puschnig, F. Corneloup, D. Collins,
A.Willers, R. Mahall, T. Chant …; nos
sopros de embocadura e/ou metais:
A.Mangelsdorff, um veterano, R. Malfati, R.
Anderson, G. Christman, Y. Robert,K. Konig,
S. Tramontana, N. Wogram, trombone… e, na família do
trompete:Miles Davis, Leo Smith, B. Vitet,
E. Rava, J. Berrocal, P. Minafra,Toshinori
Kondo, Markus Stockhausen, David Douglas, K. Wheeler, …;
ospianistas e/ou teclistas, Lowell Davidson,
Sun Ra, I. Schweitzer, AnthonyDavis, D.
Zeitlin, Y. Yamashita, U. Gumpert, M. Theurer, M. Shipp,
J.Futerman, M. Crispell, V. Ganelin, P.
Karayorgis, S. Battaglia. A. Kaufman,B.
Artaud, …; os contrabaixistas G. Peacock, J.-F. Jenny-Clark,
B.Neidlinger, J.J. Avenel, S. Swallow, J.
Dyani, M. Dresser, J. Takuma, G.Cohen, Kent
Carter, B. Laswell, William Parker, M. van R. Altena,
JohnEdwards, P. Kowald, D. Holland, B.
Chevillon, J. Linberg, J. Fonda, K.Ideki, M.
Vatcher, R. Donati, C. Tchamitchian, M. Sperry, …; F. Van
Hove,órgão; L. R. Jenkins, D.
Pifarely, J. Rose, Mark Feldman, A. Maurer,
P.Giger, Billy Bang, violino; T. Cora, T.
Honsinger, violoncelo; osguitarristas Syd
Barrett, J. McLaughlin, R. Lussier, T. Rypdal, R. Quine,
M.Ducret; R. Galiano, acordeão;
e.a.).O caso da percussão, pela
própria natureza agógica relativa ao
Jazz,oferece-nos um painel fabuloso de
praticantes numa área
liminar;especialmente os bateristas (e.g. A.
Cyrille, Rashied Ali, P. Lovens,pioneiro do
movimento, B. Altschull, J. Stevens, Stu Martin, Dennis
Charles,A. Centazzo, G. Sommer, A. Romano,
V. Tasarov, J. de Johnette, ThurmanBaker, P.
Motian, Ch. Cutler, C. Vander, E. Vesala, S. A. Johansson,
P.Lytton, Mark Sanders, P. Erskine, S.
Bennett, B. Bruford, G. Hemingway, J.Baron,
B. Previte, Jim Black, S. Noble, T. Tonani, P. Murphy, F. Maras,
G.Robair, e.a.)e percussionistas de lamela
(e.g. A. Grillo. G. Burton, G.Hampel, B.
Carrott, Bill Ware, e.a.).Em boa verdade,
embora continuassem a pisar subrepeticiamente os
mesmosproscénios, os novos
improvisadores (os mais notórios eram
geralmenteex-free jazz, heróis do jazz
off) procuraram impor-se num mundo diferente
eà parte do Jazz.
Na década de1960 e ulteriormente,
o movimento Fluxus fazia apelo
àimprovisação com materiais
inusitados, formou e influenciou uma estirpe
deimprovisadores ligados ao conceito
multimedia (e.g. N.J. Paik, V. Vostell,J.
Beuys, Zaj, M. Snow, M. Eastley, e.a.); e o happenning, proposto por
A.Kaprow, surgiu como uma figura de
actividade artística colectiva
exaltanteda espontaneidade
musical.Podemos muito vagamente distinguir
os domínios das diferentes
propostasvanguardistas: "experimental" -
não sabemos o que vamos fazer e ainda
menoso que vamos ouvir; o "happening"-
mecanismo de comunicação de
simpatiaactiva; o "aleatório" ou
música do acaso - campos hipotéticos de
iniciativaintencional, como lançar os
dados ou ler a sorte no I Ching;
a"improvisação" – acto de
memória manipulada; meio da psicanálise porque,
naconclusão lacaniana, tem raízes
no inconsciente; a
"indeterminação"-composição
cuja execução nunca pode ser única; é o conceito de "obra
aberta"de U. Eco, "as obras deixarão de
ser fins em si mesmas para serem
janelasabertas para o mundo"; a "música
intuitiva" - cujo pretexto suscita
odomínio da intuição e causa
trocas recíprocas; a "música conceptual",
avançao primado da ideia sobre a
matéria sonora.A performarte
(i.e. performance art), assumiu a música como um dos
seuselementos artísticos e, o performer
no decorrer da actuação acumula
muitasvezes a função de
músico improvisador; a música improvisada não é
pré-composta, dispensa a partitura,
é vagamente conduzida por
regrasestritamente originais do artista, sem
ponto de partida definido, exceptotalvez na
escolha do material ou da instrumentação, opção não
rarorespeitante à noção de
objecto sonoro ou ready made; podendo
utilizargadgets, parafernália
doméstica, objectos naturais, botânicos ou
minerais,líquidos, gasosos,
luminescentes, aparelhagem industrial mecânica
oueléctrica,
etc…Nos anos 1970 surgiram
grupos seminais cuja linguagem improvisacional
vigoraainda no século XXI (e.g. The New
Music Ensemble; o Sonic Arts Group, quetinha
entre outros membros G. Mumma, A. Lucier, R. Ashley, D. Behrman);
oGruppo Nuova Consonanza (com F.
Evangelisti, M. Bertoncini, E. Macchi,
E.Morricone, W. Branchi, este autor de
partituras gráficas aptas para
oimproviso); o Musica Elettronica Viva (com
A. Curran, R. Teitelbaum, F.Rzewsky, e.a.,
que praticava a electronic live com sintetizador
Moog,brainwave, drones, simulacros de ritual
Gagaku, etc…); o ImprovisationChamber
Ensemble do mentor Lukas Foss pretendia fazer desaparecer
aidentidade do instrumento; o conjunto
Gentle Fire de Hugh Davies, recorrendoà
montagem de esculturas sonoras, feed back e distorção permanentes; os
TajMahal Travellers, em Tóquio, com T.
Kosuji, R. Kyoke, usando
instrumentosorientais e técnicas
electromagnéticas; e.a.Sucedem-se
girândolas técnicas como a da multifonia (soprar e cantar
emsimultâneo, explorando os sons
harmónicos), a subversão tonal, o
vibratoexpressivo, fricção nas
cordas, uma variedade espectral
circense,coordenações
dinâmicas inventadas in loco,
etc…Na música
contemporânea, na sua vertente experimentalista, perpetrada
noscursos de Darmstadt, ou na música de
John Cage, valoriza-se
aindeterminação, o conceptual e o
aleatório; em duas obras de K.
Stockhausen,"aus den sieben tagen" e
"prozession" enuncia-se, respectivamente,
umprocesso, o modus faciendi,
relações entre mais e menos
intensidade,estabelecem-se mnemónicas;
e fornecem-se instruções poéticas como "não
penseem nada"; em "Ceylon", Stockhausen
define o ritual da música
electroniclive; John Tilbury, pianista
versátil, é a favor da invenção no momento;
ogrupo AMM, com Prévost; Tilbury;
Hobbs; Rowe, que colocava desde
entãoobjectos na mesa em
hibridações
electroacústicas.O AMM, grupo
matricial, incluía o noise generator, objectos, rádio, e.a.,
eprofere um movimento extremamente discreto
de texturas improvisadas,aparentemente
estáticas; o trio Iskra 1903, fundado em 1970 por D.
Bailey,B. Guy e P. Rutherford, foi
determinante do expressionismo
abstraccionista.O trio do pianista Howard
Riley, desconstrução e gestualismo,
apelomultitemático, com o baterista
Tony Oxley num estilo fragmentário, e
BarryGuy, epónimo da abertura
tímbrica no contrabaixo, pontilístico, com
recursoao ring modulator; Gest, proto
música multimedia; afirma-se a
improvisaçãocomo reinvento do eu
(e.g. o pianista Misha Mengelberg).Surgiram
as teorias anarquizantes de C. Cardew que desafiavam a
autocraciado compositor e rejeitavam a
distinção entre o amador e o profissional
–desta postura iriam surgir
divergentes e grandes compositores
ecompositores/ intérpretes como M.
Portal, clarinete; C. Roque-
Alsina,electronics, H. Holliger (oboé);
U. Holliger (harpa); C. Caskel, J.-P.Drouet,
S. Yamashta, S. Fink (percussão),
e.a.Os minimalistas Terry Riley e La
Monte Young criam várias situações para
aimprovisação, especialmente "In
C" de Riley sobre um tapete repetitivo.Riley
é igualmente um epítome da improvisação minimal repetitiva
em piano eteclados. Os enunciados da
música minimal repetitiva foram pão para a
bocade uma plêiade de improvisadores,
tidos como pósminimalistas.Frank
Zappa, guitarrista e orquestrador, devotou-se em algumas das
suasproliferas e inigualáveis
actividades, a vários aspectos da
improvisação,sobretudo pelo
levantamento histórico de fórmulas para o improviso
epropondo outras pistas aos executantes
(e.g. experimentos iniciáticos com
B.Gardner, Don Preston, B. Neildlinger; "the
torture never stops" de "Stagevol. 5" e
"shut up’n play yer guitar", e.a.); a sua concepção
improvisatóriareflectiu-se
especialmente no Captain Beefheart e, dissimuladamente,
emHenry
Cow.O solo improvisado é o brasão
do rock clássico e do progressive,
comsucedâneos no heavy metal, mas
considerando essas
explanaçõesespectaculares
principalmente da parte dos solistas de guitarra
electrica,submetidas a conspectos
harmónicos lapidares e ritmos
bináriosestabilizados.
No rock a contar desde os finais da
década de 1960, também podemos
citarrasgos de solipsismo lunático
(e.g. Neil Young em "trans";
certossituacionismos de J. Lennon/ Plastic
Ono Band, e.a.). Sob a égide da popart
de A. Warhol criaram-se algumas obras de teor
improvisatório,abstractas,
experimentalistas (e.g. "sister ray" dos Velvet Underground,
umempreendimento de John Cale; "metal
machine" de Lou Reed; atitudes
comprojecção no art rock de
Throbbing Gristle; Gist; Sonic Youth em "day
dreamnation", e.a.). No kraut rock ou rock
alemão, desenharam-se grandespaisagens
improvisadas sobre fluxos monótonos e maquínicos, num princípio
dehipnose do ritmo contínuo (e.g. K.
Schultze, E. Froese, K. Schnitzler,
M.Gottsching, e.a.).
Depois, desde os anos 1980, com o
sistema midi e a digitalização, a
novaimprovisação
estilhaçou-se num âmbito pósmoderno com
divagaçõespoliscópicas,
amálgama e concocção de delírios líricos, de variegados
estiloe
género.Constelação de
propostas de certo modo aberrativas donde sairiam
osmovimentos insulares e progressistas da
nova música improvisada e daelectronic
live. Convocação exógena de
matérias sonoras ou de natureza artística diversa,
oexperimentalismo foi a única via
verdadeiramente revolucionária na
históriade todas as músicas de
hoje.Em 1983 o Bow Gamelan Ensemble recorria
a explosivos, gás, lâmpadas,
numrevivalismo futurista. O OMCI,
acrónimo de Organico Musica
CreativaImprovvisata propõe jogos de
transgressão com o sintagmas do free.
Génerosetnomusicais como o raga
indiano, o maqam árabe, o radif do Irão, dão
lugarprimordial à
improvisação e são dissimuladamente incluídos nos
repertóriosda improvisação
dita world music (e.g. Pandit Tran Nath, voz, um mentor
dominimalismo; Don Cherry, sopros; C.
Walcott, sitar; L. Shankar, violino;
S.Dempster, S. Turre, Graig Harris,
didgeridoo; Nana Vasconcelos, berimbau;Sri
Chinmoy, piano; Keiko Abe, marimba; M. Yokoyama, T. Makoto,
shakuhashi;Mishihiro Sato, shamisen,
orquestração; B. Larner, M. Masahoka, koto;
R.Abou-Kalil, cordofones árabes; K.
EL´Zabar, percussões; Alice
Coltane,harpa, teclados,
orquestração, e.a.).O
espiritualismo inspirador de improvisações ritualÌsticas (e.g.
SofiaGubaidulina, também excelsa
improvisadora), a nova
simplicidade,concentração mental
sobre o uno, escrita automática e/ou repentina
herdadadas ideias surrealistas (e.g. W.
Rhim, o correr da escrita, despojada
dapromiscuidade vernácula), a escola
da música espectral, corrente
cujomaterial parte exclusivamente das
propriedades acústicas dos sons (e.g.
G.Grisey, T. Murail, M. Levinas, H. Dufourt)
- projectam-se nos simulacros damúsica
improvisada a mais actual.Retalhos, frases
soltas, tempo sincopado…marcam na alvorada do séc. XXI
umatendência revivalista do free jazz
criando um confusionismo próprio
dapósmodernidade; e alguns dos grandes
improvisadores tornam-se famosos eemparelham
com os nomes mais sonantes da interpretação clássica (e.g.
oexcelso encontro multicultural de Y.
Menuhin & Ravi Shankar, que declina
oimprovisado, acumulando a dupla
função subconsciente de intérprete
eexecutante e aproxima os léxicos
etnográficos).improv . musa
lusa Num pequeno parêntesis
e depois de confirmarmos a desterritorialização e
otransnacionalismo da nova música
improvisada, podemos - apenas
pelareferência ao passaporte - declinar
alguns nomes nacionais, tendo sempre emconta
que a capilaridade estilística e o intercâmbio, são apanágio
destaarte musical.
Podemos, por ordem cronológica e desde
os finais da década de 1960,
alinharalgumas figuras relevantes da
música portuguesa, artistas com
carreirascomprometidas no projecto da
improvisação contemporânea; todos foram
decerta maneira polinstrumentistas (e.g.
sopro, corda, percussão, vocalismo;ou
com inclinações electroacústicas, concretistas e,
recentemente,informáticas);
auto-produtores e engenheiros do seu próprio
som;relacionaram improvisação
musical com interacções artísticas e
tecnológicas.Os mais importantes
improvisadores portugueses são aqueles que
conhecerammais
internacionalizações, em interacções qualitativas e
quantitativas eparticiparam em
realizações de decisão e intervenção originais
comocompositores/intérpretes, mesmo em
criações inéditas e consideradas
pelaHistória da Música
Contemporânea (e.g. C. Zíngaro, violino,
arranjo,electronics, computação,
primus inter pares; J. Lima Barreto,
piano,teclados, electronics; Plexus; Anar
Band; C. Bexegas, flauta,
electronics;Telectu; M. Azguime,
percussão, electronics, computação; V. Rua,
guitarra,arranjo, computação,
electronics; N. Rebelo, guitarra, electronics;
R.Toral, guitarra, electronics,
computação; e.a.)Podemos levantar
en passant outras significativas figuras
solísticas,grupais, incidências
organigramaticais e técnicas: (e.g. Sei
Miguel,trompete, arranjo; Zé Oliveira,
traps; D.W. Art; António
Duarte,electronics; Moeda Noise; Miso
Ensemble; Zé Ernesto Rodrigues, viola;
P.Curado, sopros; R. Amado, sopros; L.
Desirat, bateria; D. Maranha,heterofones;
Osso Exótico; Vidya Ensemble; B. Pedroso, M. Franco,
bateria;M. Mota, guitarra, fingerpicking;
Rute Praça, violoncelo; Vitriol;
JoãoPaulo, piano; G. Falcão,
guitarra; Kromlecs; Tozé Ferreira, E. Buchinho,
P.Raposo, Carlos Santos, Nuno Tudela,
Vítor Joaquim, André Gonçalves,
oprojecto Granular, acções em
electronics, video, interacção, tempo
real,live processing, computação
e/ou lap top; etc…).Num caracter
idiomático da música popular portuguesa o guitarrista
CarlosParedes é facile princeps da
improvisação, à qual se dedicou
generosamente.Soslaiemos algumas
discursividades improvisadas por intérpretes
classicistas(e.g. João Pedro Oliveira,
órgão; A. Victorino D´Almeida, piano;
PedroCarneiro, percussão, e.a.);
devaneios de conspícua qualidade pop;
ouimprovisadores parajazzísticos em
interlúdios de improvisação total, do
soloao pequeno conjunto, aquando declinaram
momentaneamente a ortodoxia do Jazz,i.e. os
que viveram em profundidade a ousadia do discurso sem restrições
emsituação de registo
fonográfico ou em concerto no âmbito da
improvisação(e.g. os
contrabaixistas Jean Saheb Sarbib, Zé Eduardo, C. Barretto,
C.Bica; os sopradores Rão Kyao, Carlos
Martins, L. Filipe; o pianista A.
PinhoVargas; a vocalista Maria João; os
guitarristas J. Peixoto, Paulo C.Martins; os
bateristas/ percussionistas M. Barreiros, A. Salero,
J.Salgueiro,
e.a.).Houve e há inúmeros
textos avulsos sobre a matéria em
publicaçõesperiódicos,
revistas, catálogos, livros; esboça-se um círculo de
editorasdiscográficas dedicadas à
especialidade e, organizaram-se festivais
oueventos de grande nível
internacional, exclusivamente dedicados à
novaimprovisação, os quais
estimularam esta liberdade estética dos
músicosportugueses.Não
devemos descuidar as acções interartísticas constantes do
vademecum daimprovisação musical -
esta seita sempre foi resgatada por outras
artes(e.g. dança, teatro,
vídeoarte, performarte, cinema, instalação,
escultura,ambiências e outras
funcionalizações por qualquer motivo cultural;
houvepoliartistas arroláveis que
apostaram como protagonistas de
músicaimprovisada); consideremos aqui a
categoria do "não-músico" como um
assumidoestigma futurista (e.g. Ernesto de
Sousa, Puzzle, A. Palolo, C. Capdeville,L.
Bragança Gil, Projecto /Progestos, A. Olaio, P. Tudela, J.E. da
Rocha,Paulo Eno, No Noise Reduction, J. P.
Feliciano, J. Fiadeiro, R. Bertholo,Adriana
Sá, e.a.). Alguns poetas e declamadores líricos e /ou
concretistastrabalharam em
interacção coma improvisação musical; (e.g. E.M. Melo
eCastro, João Perry, Eugénio de
Andrade, A. Bual, Ana Hatherly,
e.a.).De qualquer maneira está
criado um círculo artístico de músicos
emusicógrafos devotados à
improvisação.(IN)
DEFINIÇÕESQuer escrita
quer não, a música é uma arte concebida no
momento.O étimo
"improvisação" provém latim "improviso", qualquer coisa de
súbito eimprevisto, logo de
inaudito.A definição de pintura
não pode reduzir o campo visual ao quadro, ou a
demúsica restringi-la a uma forma
sonata - existem muitas outras maneiras
depintar e tocar, outros suportes fora da
moldura ou do ditame da pauta.Há
duas espécies de improvisação: uma, ligada a linguagens
musicaisestabelecidas e, a outra, que é
o objecto deste estudo, fugindo
aopreconceito e aos discursos formal e
previamente reconhecidos. Oimprovisador ouve
a melodia interiormente e simultaneamente transfere-a
paraos dedos ou a
boca.Ser bom improvisador é
incompatível com o facto de saber como se faz;
pelasua libertinagem o executante não
pode ter a ideia de como realmente
deveproceder. Que fique bem assente que hoje
já não é possível conceber
umaestética normativa e sentenciosa. No
provérbio de Cage "a Arte não é sobre
oestar certo".
Por outro lado não há
significado sem regras; vem a propósito o regime
da"improvisação estruturada", a
qual não se confunde com qualquer
improvisaçãosubsumida por sintaxe,
gramática ou linguagem musicais autorizadas
peloacademismo… aliás, para I.
Stravinsky, a composição seria uma
improvisaçãoselectiva.
A forma cristaliza e delimita; interpretar
consiste afinal em reinterpretaruma leitura,
é um acto repetitivo do executante; contrariamente,
aimprovisação só existe
quando o músico toca; é a inovação semiológica
quepor um método de tentativas e erros,
articula signos até ao momento
daexperimentação alheios ao
discurso musical instituído.A nova
improvisação dispensa o cânone, as obras pragmatizadas que
são bitolade outras; o seu estilo
performativo só pode ser apreendido pela imitação
eoralidade, rejeitando a fixação
escrita (e.g. J. Hendrix). Na
bricolage,corolário da livre
improvisação, combinam-se resíduos, vive-se
aplasticidade do momento e a
instabilidade.A música
improvisada é diferente da música que inclui improvisações;
toma olugar do idioma e dos seus estilos
idiossincráticos; prodígio da
capacidadelógica a mais imediata,
durante a improvisação o criador experimenta
amúsica pela primeira vez e
possivelmente a última; "a música foi para o
ar,nunca mais se vai poder apanhá-la",
declamava Eric Dolphy referindo
aimprovisação.
A nova improvisação envolve uma
liberdade quase total durante a
execução,dentro de certos
parâmetros engendrados pelo compositor/ intérprete; na
suavia recriativa, sugere técnicas e
intenções baseadas na experiência
anterior(treinos, ensaios, tentativas,
correcções) consolidando uma espécie
deestilo muito
pessoal.O experimentalismo conduz
à megalomania, vive subterraneamente nos
espíritosmais ousados e transgressores,
sem prescrições, sem truques mágicos; a
novamúsica improvisada não é
apenas mais uma espécie de música, mas,
"umamaneira de fazer música" (e.g.
há uma alegoria de Boris Vian em "a
espumados dias" que é o piano-cocktail,
onde cada nota ou acorde providencia
umabebida capitosa; uma legião de
pianistas usa todo o corpo do
piano;prepara-o intrometendo surdinas e
objectos sortidos nas cordas
ouarremessando-os; tantalisa as cordas como
topologias ou itinerários para
osimprovisos em raspagens, glissandos,
punctus da percussão, no sentido em
queR. Barthes falava do erotismo da
intermitência, algo apelativo pela
suavivacidade e se mostra dissimuladamente
elevando-nos à ubris, ao excesso,
àexaltação; executa um jogo
mirabolante com os pedais ou electrifica o
pianode diversas maneiras; (e.g. M.
Levaillant, também teórico e
historiógrafopioneiro, F. Tusques; G.
Gaslini, teórico da "música total"; C.M.
Palestine;S. Finnerud; B. Greene, cujo
ensaio baptizou a new thing; D. Maroney;
G.Monahan; Jon Jang; Andrea Neumann;
e.a.).O epítome da nova
improvisação consiste numa série de escolhas
extremamentepersonalizadas, cadinho de
egofuturismos, polémicas inflamadas,
manifestosde dimensão irracional,
fragmentação subcultural, significação imaginária
einformalizante, actividade de
estruturação e desconstrução apostadas
nodevir, sem significados fixos e
exclusivos; a experimentação vive
doespontâneo e só é
expontâneo aquilo que não emana duma coacção
interiorizadae que tem a sua própria
poesia; a conivência total do músico executante e
dacriação sonora é
explosão da vivência do prazer, inflexão expressiva;
comona "Carta Roubada" de E. Poe, o
escondido está à mostra.A
acção musical improvisada é a volúpia de um tornado, o
espreguiçar da ondado mar, radar de
morcego, risco de voo no céu azul, descoberta de Sedna,
oplanetóide oculto do Sistema
Solar.O discurso é
auto-erótico no solo e alo-erótico nos conjuntos dialogal
ecolectivo. Não raro a
improvisação descamba para o cenário
metaforicamentesexual, como na "Filosofia de
Alcova" de Sade: as alegorias do solo e
amasturbação, do duo e o desflorar
da virgindade, do trio e a mènage à
trois,do quarteto e a troca de pares (dito
"swing" em erotologia), até à orgia
noensemble e à bacanal na
orquestra.O experimentalismo na sua
situação musical pósmoderna é a poética da
puraintuição; verdade subjectiva,
atenção fractal ao concreto
maisinsignificante - método das nossas
ciências contemporâneas.Arte da
combinação e da síntese, inspiração que é um
caudal de fluxos dasmúsicas do mundo -
o experimental acaba com a soberania das categorias
poisque é indiferença e
non-sense.Stravinsky era fervoroso adepto da
improvisação na seguinte condição:
"élindo quando se podem tocar pequenas
melodias no teclado - principalmente seelas
surgem espontaneamente do próprio piano, é o júbilo…levados
peloprazer, subitamente ultrapassamos um
obstáculo desconhecido e isso fecunda
onosso poder
criativo".Do ponto de vista linguístico
a improvisação é alofonética, uma
variaçãolabiríntica a partir
duma posição específica; do grão da voz ao
isomorfismotecnomorfológico (e.g.
instrumental, emocional, metatextual,
e.a.).As técnicas instrumentais
são arredias, separadas da convenção,
desviadaspara outros propósitos e, logo
recorrendo a outros meios - os padrões
daestética corriqueira e
convencionalizada não se adequam à compreensão,
emuito menos ao julgamento da técnica
improvisacional.A improvisação
é um teatro da vida, música da
eutopia.IDIOMAS &
IDIOLETOSA Música
organiza-se como uma linguagem, é um sistema de
estruturassolidárias,
coordenação regular, substantificação combinatória;
pelasintaxe, associação de
unidades, estabelece-se uma entidade formal que
possapermitir o sentido expressivo na
composição clássica e nos estereótipos
damúsica popular. Por seu turno o
idioma é uma linguagem peculiar de um
povo,classe, comunidade ou mesmo
positivamente duma pessoa, é a
característicaestilística musical
(e.g. o Jazz, o zydeco, o klezmer, o barroco, a
minimalrepetitiva, e.a.); considerado um
idioma singular, o idioleto é a
expressãoestritamente individual,
identificador como as impressões digitais, é
umaidiossincrasia, o comportamento
específico de um indivíduo
autoreferencial(e.g. os estilos
pianísticos de A. Kontarsky ou de M. Pollini, que
destacama sua personalidade em cada
interpretação, mesmo executando o mesmo
trechocomposicional, que os distingue de
outros executantes homólogos, e.a.);
umapeculiaridade pessoal, afinal, a
tipicidade da
improvisação.Em
psicanálise o meu idioleto é o meu controle total duma língua;
satisfaçãodo desejo privado,
probabilidade subjectiva e personalista,
operaçãopsicomórfica.Aqui
podemos ponderar uma questão controversa: a improvisação não
é umidioma como será a música
clássica impressionista ou a música palaciana
doIraque, antes uma concocção
idiomática, painel de idioletos - a variação e
amultiplicidade tornam insusceptível
qualquer classificação
idiomáticaunívoca; assim, a nova
música improvisada não é um idioma, um estilo,
umaescola, uma corrente; quanto muito é
movimento musical descontínuo efractal,
com diferenciadas frentes idioletais.O
idioleto é uma função esquizóide, impõe o seu selo a
toda asintomatologia, exibe um código
privado e independente de um só
locutor.Diríamos então que o
discurso da nova música improvisada é
idioletal.Recorrendo a meios
semiográficos insólitos (e.g. tablaturas,
colagens,prodígios do design,
projecção de diaporama, ecrã de computador, e.a.),
cadaimproviso é uma afirmação
do eu, hiperespecialização
não-condicionada,estranha
reivindicação do egotismo; os flautistas J. Newton e R.
Dickdiferem num glorioso solipsismo, embora
ambos trabalhem em campos similaresda
improvisação livre, porque cada um tem a sua directiva
cultural.Lamartine: "as minhas ideias pensam
por mim".De notar que o autodidatismo ou o
estudo avulso e deliberado são
condiçõesnormais do tirocínio
do improvisador.O improvisador
respeita a lei à medida que a vai
promulgando.A improvisação conduz
do sonho à acção, é um fenómeno afectivo,
psicodramapessoal: climaxes, claustro de
sonhos, imagem do tempo que
passa,miscelânea, zona errónea,
interlúdio de eros, sossego intranquilo;
catarse,descarga de afectos
patogénicos; escalas fabricadas no
relacionamentoinesperado de unidades como
notas, frases, morfemas; variações de humor
quesignificam o entretenimento (e.g. o
vocalismo de Ph. Minton); a
extremaintrospecção (e.g. AMM,
Astreja); a fúria (e.g. "machine gun" de
P.Brotzman); a serenidade icónica (e.g.
solos de R. Fripp); o histriónico(e.g.
L. Coxill, C. Actis Dato, Gary Lucas, S. Beresford ); o
ritualnaturalístico (e.g. H. Paschoal),
etc…Citando o poeta Shelling, o
improviso é "uma infinidade consciente,
sínteseda natureza e da liberdade"; no
limite, é pela abolição da memória,
procuraanimada de resultados jamais
atingíveis; dispensa a angústia da influência
eda genealogia, o ditame autoritário e
conservatorial, é, para quemimprovisa,
um teatro do absurdo.Tudo se passa numa
associação criativa de ideias relampejantes,
catarse,descarga de afectos
patogénicos. A improvisação
do virtuoso cria modelos de procedimentos
comportamentais,depois imitados pelo
próprio ou por outrem- um hábito torna-se um
idioletorecalcitrante.
O cluster ou o ruído dependem do gosto
individual, só classificável
aposteriori como música - esquizofonia,
saturação de percepções (e.g. o
P.Metheny de "zero tolerance for silence";
S. Witwer, Thurston Moore, A.Lindsay,
Elliott Sharp, E. Chadbourne, J. O´Rourke, L. Ranaldo, M.
Ribot,renomados guitarristas de elucubrante
semiologia , e.a.).A biografia que procura
divulgar e organizar o historial da improvisação,
éo recurso trivial da crítica
jornalística e, para Paul Bley, a
biografia(dos improvisadores), é apenas
um self service de anedotas.Eis como
J. Pressing (no ensaio "improvisação: métodos e
modelos",Keyboard 10, 1980), considera a
improvisação à luz das ciências cognitivas
eno âmbito da fisiologia e da
neuropsicologia :a) complexos sinais
electromagnéticos; b) músculos, ossos,
tecidosconectivos que executam
sequências complexas de acções; c) o auditivo,
ovisual, o táctil, monitorizam
acções imediatas; d) a música improvisada
éinstrumental e/ou vocal; e) os sons
são colocados em representação
cognitivae reconhecidos como música; f)
input, órgãos dos sentidos, processamento
edecisão dos sistema nervoso central e,
output, sistema muscular e glandular,um
requisito complicado com os dois componentes perceptivo e motor; g)
aacção contínua predomina em
diversos aspectos seriados e motrizes
comoepítetos de valor prosódicos
que reflectem predilecções; h) o feedback
évital na improvisação para
corrigir erros e na adaptação
semi-subconscientedo papel dos erros -
percepção do movimento do gesto musical,
selecção,design e
execução; i) a memória subjectiva é uma impressão para
cada acçãodos improvisos; preciso
acto do desejo, vai até ao nível da consciência
queemerge explicitamente como se fosse
verbal; j) operação cognitiva em
temporeal e correcção dos erros,
realização táctil e sinestésica, laço entre
operformer e o
instrumento.Método de tentativa e
erro em altos contextos estruturais, a improvisação
éum veículo da expansão
consciente e toque de profundas sensações
individuaise grupais, conceito de
sincronicidade e introversão, cognição
intuitiva;para Bergson, a intuição
é um meio de atingir um contacto directo com
arealidade ordinária mascarada pelo
conhecimento humano; assim,
aimprovisação é arte da
intuição artesanal, parte do estado de tabula rasa;
omúsico improvisador é o
músico em si; improvisar é uma crença,
acredita-sena primeira vez.
A improvisação é
mnemotécnica, no sentido do adágio de D. Ellington,
é"sempre premeditada como um crime
perfeito".TEORIA &
PRAXISCompor é prever a
acção, improvisar é agir, jogar com vectores rítmicos
ouescalas, paradigmas da ilusão,
demonstração empírica, eco das
dimensõesfísicas do som;
tensão dinâmica, oposição, liberdade e controle;
segundoThelonious Monk, que lamentava ter
cometido erroneamente os mesmos
errosdeliberados, a improvisação
muitas vezes repetida acaba por se fixar;
aimprovisação total dá lugar
ao cliché e ao automatismo, onde apenas
aespontaneidade é a verdadeira
invenção; conceito de liberdade
individual,tempo deslocado por acidentes,
fugindo à tirania da arquitectura das
notaspara trabalhar o som em
si.Segundo D. S. Hofstadter em "metamagical
themas", de 1985, um erro clamorosopode
tornar-se no mais feliz desafio para o
imrovisador.Talvez uma das
noções sobreviventes da teoria académica, e das mais
válidaspara a improvisação,
seja a figura sintáxica do "rubato", que designa
ogesto livre, pondo de lado
indicações de tempo ou de compasso, e que
sedesenrola com plena liberdade de
sentimentos. Depois do improviso conceptual
do silêncio e da concomitante
ideologianiilista, a mais credível
teoria da improvisação, e a mais radical, é a
dosolo permanente na oscilação
contínuo/ descontínuo.Outra
teorização importante, que versa a duração das cada
improvisações,uma vez que, em
disco e correspondendo muitas vezes à cronometragem
doconcerto, são alcunhadas e
delimitadas, assumidas provisoriamente
comoobras; umas vezes reduzidas ao
instantâneo miniatural; outras no
tempoestereotipado da canção;
outras ainda prolongadas até dissertações
conformesà extrema duração do
CD; se com o LP o caso ficava pela hora, no CD
pelasduas horas, com o DVD o tempo é
ilimitado, editando quantos discos se
quisere a ser lidos ininterruptamente no
computador; ter a consciência
dalongevidade das execuções é
emblemático da genuína
improvisação.Tomemos o caso
da voz: o fenómeno vocal foi extremamente revolucionado
pelacomposição clássica
contemporânea, (e.g. L. Berio, G. Logothetis,
G.Apergis, P. Maxwell Davies, D. Smalley,
e.a.) apoiando-se em teorias
dalinguística e da fonética e,
isso reflectiu-se nos regimes da
novaimprovisação -jogos de
garganta, alternância de sons inspirados ou
expiradoscomo elementos os mais
vulgarizados; relato do sucesso da oralidade sobre
aescrita, a improvisação vocal
contemporânea prefere a desconstrução da
prosae a nova poesia (e.g. concreta,
gráfica, hi tec, info); o estilo em geral
épirotécnico, com tendência a
imitar qualquer instrumento, aspecto
retóricodo scat ou canto onomatopeico,
inflação de tiques operáticos -
trilo,gargarejo, gargalhada, choro, diafonia
de inspiração mongólica, abuso
dofalsete, vibrato excessivo; tessitura
urdida com voz engomada, falada,
quasefalada, sotto-voce; canto
silábico, melismático, de boca fechada;
murmúrio,grito lancinante,
oração evocatória, libido narcísica (e.g.
DemetrioStratos, o mais radical, Jeanne Lee,
June Tyson, J. Clayton, B. McFerrin, K.Krog,
M. Nichols, D. Galas, e.a.).Assim como a
coreografia contemporânea foi pondo de parte o étimo "ballet"
eavançou com "dança", também
a nova música improvisada pôs termo ao
vocábulo"cantor" e propôs o de
"vocalista".Derek Bailey tentara a sua
carreira como músico de jazz ao imitar
oguitarrista Oscar Moore do trio de Nat King
Cole, mas logo abandonou ointento por
considerar que estava num ocasião errada, num local errado e
numcontexto racial errado; aqui determinou
uma clivagem entre a improvisação
dojazz e o conceito de
improvisação contemporânea, procurando novos caminhos
eestabelecendo outros conceitos que o
levassem a uma boa improvisação
livre.A partitura, quando existe a priori,
é apenas um pequeno estímulo ou
umorganigrama vagamente planificador de
acções concretas.O
virtuosismo, a excelência artística, a completa licença criativa,
oencantamento imaginário, dependem de
protocolos sem elementos
sintácticos,como ritmo, fraseado,
swing, e.a.; a filosofia da linguagem ilumina
certasfacetas da improvisação;
segundo Wittgenstein, o instrumento musical
talcomo a fala, já possui uma
configuração linguística; na improvisação
ospróprios instrumentos prenunciam
gramáticas ou sintaxes; o improviso é
afragmentação de um todo
incompleto, colapso e reparação, discrepância e
sonscôncavos, derrocada das categorias
gramatológicas e lexicais –
escalasinusitadas, harmonias voláteis,
acordes súbitos sem norte,
vertigensmicrotonais, idiomas sobre o
abismo, géneros apócrifos;
actualizaçãoimediatista de
arranjos - o detalhe provém do refinamento da
técnicainstrumental; a verdadeira
improvisação é atemática e fora de um
quadrorítmico
isocrónico.O caso da just
intonation (e.g. LaMonte Young, H. Partch ou Terry
Riley),conhecida desde tempos remotos,
é baseada numa sequência de
intervaloscorrectamente organizados nas suas
frequências, derivada da série
deharmónicos, o que viria a ser
transposto para muitos programas
desintetizadores; o improvisador pode jogar
dentro dos limites dessa
afinaçãoespecífica, numa
miríade de escolhas.A
hibridação do pós-free jazz e do jazz off com nova
instrumentação eilações
fantasmáticas; circulação de energia intuitiva ou de
foroalegadamente telepático.
Semiologias do Jazz e/ou do barroco (e.g.
K.Jarrett em "Kohln Concert"), texturas
tímbricas agrestes em formasobsessivas
e idealizadas quantitativamente (e.g. as sinfonias de G.
Branca).Há uma etnomusicologia da
nossa própria cultura; a etnomusicologia não
falade "obras" mas de "peças"; não
há versão definitiva de um tema ou de
umacanção e hesita-se em falar de
"obra" fixada na pauta, unívoca, como
nosentido clássico; a ideia do
improvisador vai ao encontro de Morton
Feldmanao proclamar: "abaixo a obra-prima,
viva a Arte!"...Para melhor
entendermos o funcionamento dos media recorrentes, convém
revera participação de
automatismos, acústicos e, eléctricos analógicos
oudigitais, na improvisação e,
estabelecer uma primeira fase diacrónica,
aqual diz respeito à mecânica que
prescreve a maioria dos
instrumentosacústicos que existem nas
formações de música improvisada contemporânea;
osvirtuosos afirmam-se especialmente em
parafernálias da
organologiaoficializada ou na
exibição de protótipos acústicos ou
traficânciasinstrumentais, estipulando
técnicas tão soberbas quanto surpreendentes
(e.g.B. Turetzky e o contrabaixo; P.
Rutherford e o trombone; M. Svoboda e
oeufónio; Carol Emanuel e a harpa; G.
Mazzola ou R. Woodward e o piano; Uittie a
técnica dos dois arcos para solar no contrabaixo; de registar
algunsacidentes improvisados pelos quartetos
Arditti, Kronos, de cordas; ou Rova,de
saxofones; e.a.).Outrossim, podemos
considerar alguns tópicos que são síndromas da análise
daimprovisação (J.J. Nattiez,
passim): a) natureza do modelo ou o modo,
omaterial temático, a fórmula
melódico-rítmica, o esquema abstracto;
b)distinção entre
realização e modelo: se o músico está ou não consciente
domodelo, deliberação; c) a
memória de uma performance serve de modelo
aoutra, baseada em outras
improvisações; e) dimensão de work in progress,
jáque o que ouvimos não é o
processo mas o resultado de um
processo.O instrumentarium
acústico da nova improvisação tornou-se
conceptualmenteinfinito; foi desenvolvido
nas suas implementações técnicas, denotando
umnovo gesto teatral, não raro
posterior às composições heterodoxas de
K.Stockhausen, J. Cage, G. Scelsi, L. Nono,
M. Kagel, D. Schnebel, M. Ohana,L. Berio, G.
Ligeti, P. Boulez, H. Lachenman, H. Radulescu,
R.Haubenstock-Ramati, F. Dusapin, S.
Sciarrino até ao ultra- racionalismo
deFerneyhough - estes nomes são apenas
algumas pistas para uma
situaçãotécnica da
execução absolutamente inovadora e singular; a manipulação,
apostura instrumental, efeitos
exploratórios da mais diversa índole,
etc…A música clássica
de hoje, formalmente a mais rica, mais plena de
leis,ordens, antecipações
racionais, emocionalmente licenciou-se na
improvisaçãogeneralizadamente
abstracta, propondo ao nível sintáxico a abolição
doregime da "canção
temática", do tonalismo, e propôs o primado
daexperimentação, abrindo outros
horizontes (e.g. no órgão, J. Guillou ou
Z.Szathmary; entre uma aristocracia de
grandes intérpretes, os quaisinvestiram
em áreas de extrema complexidade
improvisacional).Outros grandes
intérpretes clássicos contemporâneos afirmaram a
suaidentidade na improvisação;
principalmente os mais distintos alcandoraram
emparalelo os cúmulos do culto;
acontece mesmo muitas vezes que interpretar
eimprovisar seja um empenhamento duplo dos
virtuosos (e.g. C. Berberian, voz; M.
Goldstein, P. Zukofsky, violino; F. Rzewsky,
L.Andriessen, teclados; Globokar, C.
Linberg, trombone; J. Impett, trompete;M.
Portal, sopros; J. Lèandre, Aladar Page, J.M. Rollez, contrabaixo;
S.Gazzeloni, A. Nicolet, P.-Y. Artaud,
flauta; H. Sparney, P. Meyer,clarinete; D.
Kientzy, saxofones; Lothar Faber, oboé; S. Palm,
violoncelo;as cravistas A. Vischer, E.
Choinacka, M. Porfido; J. Bream, L. Brower,
J.Williams, D. Tanenbaum, E. Fisk,
guitarra...).Criou-se uma espécie
de improvisação nómada, segmentária,
concretista,instável,
deambulatória, optativa, resultante do desafio insólito
propostono instrumento
artesanal.Vem a propósito a
construção de novos instrumentos (e.g. os
instrumentos"bruitistas", cujo resultado
sonoro é o ruído, nos intonarumori de
Russolo;os objectos sonoros de M. Kagel,
como o pan-xilo; aos instrumentos de vidrode
A. Lockwood e J.-C. Chapuis; os hidrofones de M. Eastley e R. Waters;
asinstrumentos de cerâmica de W.
Hortenstein ou de S. Rawcliffe; o órgão
defogo de M. Moglia; a percussão
scratch de P. Dadson; os paus-de-chuva de
B.Pollitt, o video octavox de Q. R. Ghazala,
a charada dos Sonic Youth,
etc…).Consideremos três tipos que
foram mais convenientes ao
discursoimprovisado: 1. melhoramento
adjunção, aperfeiçoamento de partes
deinstrumentos de série. (e.g. P.
Panuysen); 2. criação de um
instrumentoabsolutamente original ou
protótipo (e.g. esculturas manipuláveis de
I.Wada); 3. simbiose de instrumentos
industrializados e heterodoxiasartesanais
(e.g. como isomorfismo da BD de Buzzelli e o seu
heróivioloncelista Zil Zelub que se
desmembrava, está o daxofone de H.
Reichel,partes decepadas e reunidas num
corpo ambíguo).Muitos percussionistas
desmontam o corpo da bateria, constróem
instrumentosheteróclitos, incompletos,
ditos traps (e.g. M. Graves, B. Lubat, R.
Turner,P. Lovens, D. Moss, Cyro Baptista, M.
Cinelu, T. Gurtu, Le Quan Nihn; J.Gallivan;
Les Percussions de Strasbourg criaram o método percustra
queindiciava a improvisação;
e.a.)Outro fenómeno é o da
espacialização do som: ou seja, a fixação da
fontesonora localizada em determinada
cenografia natural (e.g. o caso
daacordeonista virtuosa Pauline Oliveros que
situava as suas
longasimprovisações em grutas,
junto a cascatas de água, etc…num aproveitamento
dareverberação e do eco)
.A ecopraxiologia estuda os lugares de
realização da música, e explica
umaimprovisação aberta nas ruas,
nos parques, nos terraços, nos lagos, fora
daclaustrofóbica sala de
concerto.De notar as improvisações
conceptualistas de M. Redolfi no
mundosubaquático. Há o espaço
determinado pela coreografia e pela
encenação,congeminado por
geometrias fractais com o corpo dos músicos e as
suasdeslocações espontâneas
(e.g. o paradigmático H. Bennink que percute
asparedes, o chão e volumes ou objectos
que se encontrem no espaço doconcerto;
o Kollektief de W. Breuker, uma das mais imaginativas
orquestrasde teatro musical e
improvisação, que percorre as ruas ou toca em
coretos;e.a.).
IMPROVCOLECTIVA
nova música improvisada, exonerada ex cathedra segundo o adágio
latino"verba volent scripta manent" (i.e.
"as palavras voam os escritos
ficam")recuperou a sua legítima voz com
o desaparecimento progressivo das escalasde
valores absolutos, que aspiravam à imortalidade, anunciou o triunfo
dosrelativismos, sem epitáfios ou
promessas de eternidade.O fenómeno
colectivo é aquele constituído por partes as quais exercem
mútuase fortes influências,
empatia decidida por fases de transição entre
ossolistas, que actuam no mesmo sentido
estético.O imperativo, o
conservatório, o academismo, tornou-se expressão, a
maisbrilhante, de ideias comuns;
opostamente, na improvisação dispersa-se
opulular de signos; condutas instrumentais e
vocais, construção a partir
dosobjectos e das acções sobre os
objectos; no seu devir, a
improvisaçãocolectiva joga na
alternância de exibições e nas fissuras brilhantes
dosraros e ocasionais
uníssonos.Com poucas
excepções, a nova música improvisada não versa o
mágico-ritual ouo religioso; é
pagã, agnóstica, mesmo iconoclasta, como se, numa
posturaamoral nietzscheana, estivesse para
além do bem e do mal. A
improvisaçãocolectiva segue os
desígnios de Eros de unir e
ligar.Tusques reputava a
improvisação não como uma ideologia estética mas como
um"comunismo intuitivo da
música".A nova música
improvisada, como é um assunto artístico-cultural,
dizrespeito à Paz; ao seu cariz
anarco-comunal denota a independência e
asubversão em relação a
organismos estéticos administrativos; é
obscuramentesonegada pela musoburocracia e
pelas informação e política
culturaldominantes, estas sim coniventes com
a globalização do poder, da guerra e
doterror.
A música experimental desautoriza o apodrecimento do consumo e o consumo
doapodrecimento, porque é uma
experiência da totalidade individual, é
aoriginal revelação do homem
trabalhador e participante da comunidade
social.O improvisado colectivo é
panfletário, afirma uma convicção estética
contrao tentacular da
industrialização da
música.Quando executada em duo ou
agrupamento, a improvisação é uma
associaçãocontrolada,
corolário da empatia, num status semelhante ao do
manifestopolítico; força produtiva
contestatária da divisão do trabalho, e
dassuperestruturas ideológicas ligadas
à política da música; nos
processoscriativos define-se como uma
espécie de luta social; aqui, o instante
existenuma forma dialogal, tecido conjuntivo
de uma intriga, nas
inter-relaçõesdesconhecidas e fora
das estratégias do controle corporativo, apologia
dotransnacionalismo e do radicalismo
expressivo do indivíduo e
dacolectividade militante (e.g. os fabulosos
agrupamentos de Miles Davis, aGalaxy Dream
Band de G. Hampel; T.O.K.; S.O.S.; as intricadas formações
deT. Watts, C. McGregor ou Django Bates;
Masada de J. Zorn; Mujician de K.Tippett;
Acoustics; Lounge Lizards de J. Lurie; Carbon de E. Sharp;
GrandLousadzak de C. Tchamitchian;
e.a.).Na improvisação
dialogal ou na colectiva há um apelo à união, no sentido
decriar um movimento e corresponsabilizar os
improvisadores de todos osquadrantes,
pródomo de qualquer assunto irreconciliável que está em marcha
ecom um caracter de choque, paradoxo da
rotura e da sintonia, num nível quevai
do inconsciente à utopia política concreta - para Cardew a
improvisaçãoseria então a
politização total.A
expressão colectiva levada ao conflito e ao paroxismo, pela
exasperação
darepresentação imediata (e.g. a
Creative Improvisation Orchestra, a
ItalianInstabile Orchestra,
e.a.).Na situação pósmoderna
a nova improvisação foi ficando, porém, refém
declichés e citações, sem o
fio condutor do discurso (o mesmo que acontecia
noneoclassicismo) - é uma pose
estrutural semelhante aos textos de James
Joyce(e.g. "Ulisses", pode ler-se do fim
para o princípio; passim; repetir-se
…).Sendo pela abolição do
conceito de líder, muitas vezes, num isomorfismo
damúsica clássica
contemporânea, pode até admitir-se a figura do regente
deorquestra (e.g. J. Zorn recupera a figura
teatral do "ponto" em "Cobra").A
orquestração, ou arranjo, é a estratégia da difusão
directa, mantém opapel euforizante do
chefe do grupo; há uma espécie de distribuição
depapéis como no teatro, instiga-se a
decisão genuína, processo de
acumulaçãode analogias numa
epifania do caos, da entropia e da
incompreensibilidade(e.g. Alan Silva e a sua
The Sound Visions Orchestra).Por vezes
e numa tendência multiculturalista, a improvisação suporta-se
quertécnica, quer estética, quer
instrumental ou vocalmente, em saberes
damúsicas do mundo, pelas
observação e o simulacro (e.g. tango, salsa,
funky,gospel, rumba, bossa nova, morna,
merengue, yodel…); harmonia que vem
denenhures, moléculas duma bruma sonora
que enevoam a circularidade, amontagem, ou a
colagem; a improvisação timbrada pelas músicas do mundo
éderivação e inflexão
morfológica.Acto lúdico cuja
matéria prima, votada ao regozijo e ao júbilo, são
asmúsicas ditas exóticas, expostas
sem o conhecimento dos elementos
própriosde significação e
articulação, aparência etnomusical apadrinhada,
adegradar-se na mixórdia atípica
do "fado japonês".Simultaneidade
de momentos divergentes, ductilidade de figuras
estranhasentre si e que se podem exibir como
similares, a premonição da
obraindefinida torna-se um organismo vivo;
ruínas das mais
tradicionaisocorrências, aprendizagem e
mestria, podendo basear-se o intercâmbio
emfórmulas trivializadas, em registos
estereotipados, aceitação de
formasstandard, especialmente na
concretização rítmica, de evidente inflexão
paraa isometria; critérios duma
mestiçagem estilística (e.g. rap, hip hop,
jazzmodal, concretismo, gaita celta,
etc…); na improvisação comercializada,
odinheiro será o primum mobile,
acção para satisfação instantânea, a qual
nãoescapa a um sentimentalismo
primitivo, em busca do ritual perdido,
surgedeformada pela
mercantilização mundial das culturas locais, numa acepção
de"turismo musical"; decisão
identificadora em conjuntos instrumentais,
desubjectividade pregnante, o feed back
opera entre os executantes, a partirou
não duma preparação ideal, num envolvimento de
discrepâncias,
distúrbios,heterarquia e
coalescência - meta-estilo, polimorfismo,
pulsãocolectivizante,
sublimação do recalcamento da relação amorosa,
discussãoalienada, cacofonia ou,
plenitude mística.A
supressão de imperativos da duração é adoptada pelos
parceiros, o jogo épartilhado numa
acção lúdica extemporânea; vingam as estratégias
demarginalização, da
comunicação abstracta, do auto-referencial (e.g.
acriação "afternoon of a georgia
faun", dirigida por Marion Brown, com
umnaipe de percussões, instrumentos
inventados, prefigura uma das amais
altasexpressões do jazz-off); o
envolvimento político- estético, sendo
umarquitexto, segrega atitudes de liberdade
como a da improvisação (e.g.
aCompany, laboratório experimental de
D. Bailey, que acolheu e acolhe umavariedade
inumerável de tendências da nova
improvisação).Para Mauricio
Kagel, na sua vituperação do institucionalismo
clássicovigente, as óperas e as
orquestras sinfónicas são entidades
museográficas,campos de
concentração culturais.O
experimental é uma vivência separada, abolição do
recalcamento e dacensura, já que o
discurso evita a arregimentação. Discurso sobre
aproibição, também
recuperação /contestação desta, separação da
culturamusical dominante. Culto
iniciático na sociedade de consumo, todo
oexperimental é subsumido pelo
interesse e pela crítica dos
aparelhosideológicos da Música,
torna-se música efectiva, manipulada,
dependente.Na sua tendência
solística é autoerótica; num convénio de
improvisadoresserá classificada de
aloerótica.O solilóquio, o
colóquio ou a conferência da improvisação, pode
seracidental, coincidente ou ocasional;
intertextualidade, articulação
desaberes; D. Bailey dizia preferir os solos
ou os grupos minúsculos aosensembles ou
grandes orquestras - referindo uma privilegiada capacidade
decondução no gesto de Butch
Morris ou no grafismo de A. Von
Schlippenbachpara a Globe Unity
Orchestra.Segundo Anthony Braxton a
improvisação exprime a criatividade do
mundo,política no seu sentido colectivo
e, pessoal como opinião do solista;
tem,assim, uma qualificação
histórica e cultural; é um veículo de
transformaçãosocial, um
empreendimento filosófico, elemento central e ritualístico, é
umaorientação epistemológica
alternativa no mundo da música
contemporâneaglobalizada.
A verdade do momento, distinta da desinspirada performance comercial,
brotada contestação, onde que cada
artista desafia o status, e o
improvisoapresenta, como a sucessiva
pincelada na tela do pintor, a definição da
suaidentidade musical; o improvisador
estabelece um laço na cadeia da
tradiçãoinstrumental acústica
e é participante e/ ou manipulador da
invençãotecnológica
acústica e
electroacústica.Sob
influência das filosofias pacifistas orientais como o Zen ou o
Ioga,surgiu uma plêiade de executantes
de uma espécie de música
ambiental,tendendo para o envolvimento
imaginário, por vezes alegadamente new age,
comas a suas improvisações
subliminares e anestesiantes (e.g. Brian
Eno).A música ambiental improvisada,
tem o sentido cósmico da criação original
demundos sonoros
envolventes.O experimental existe
antes de ser mercado - segundo G. Debord,
in:"Sociedade do Espectáculo", "o
imediatismo é de certo a mais
sumáriareivindicação, mas
também a mais radical", a que define os novos
músicoscomo construtores de
"situações a viver".A
notação é para o olho e não para o ouvido; a
improvisação,
primacialmenteauditiva, é o enlace do
Homem e da Natureza; elementos pessoais, matizes
ecampos hiper
subjectivos.A nova música improvisada
repõe a ilusão narcísica de Dorian Gray,
espelhomágico que retrata e reflecte a
beleza efémera.DA
NOIVA MECNICA À
ELECTROMUSAA
planificação tecnológica da música improvisada de hoje
resulta de diversostipos de
interacção instrumental e dos dispositivos sonoros, de
concepçãoexperimentalista;
junção do orgânico da improvisação corporal humana e
docorpo, sem órgãos e
afectividade, das máquinas
cibernéticas.A última fase
tecnológica da História da Música está ligada à
electricidade;toda a Música do
Séc. XX esteve comprometida coma tecnologia
eléctrica.A música passou por
vários processos no seu compromisso com a
electricidadee a invenção
científica de instrumentos; podemos marcar um itinerário
damúsica electroacústica:
microfone - altifalante - amplificador -
ondasMartenot (e.g. I. Loriot) - Theremin
(e.g. C. Rockmore, L. Lavina) -
máquinade ritmo - estúdio de
Colónia - sintetizador - workstation -
controladordigital - computador
portátil - grande máquina cibernética de estúdio
-satélite …ad
infinitum…O implemento
electroacústico movimenta a matéria sonora no espaço virtual
erelativisa-a no tempo real (e.g. delay,
eco, fuzz, rewind, loop, e tantasoutras
operações tecnológicas que participam da representação
multimedia). Ahiperespecialização
dos estúdios de gravação, fixos ou portáteis,
foisolícita para os improvisadores.
Muitos instrumentos típicos surgem
emversões electrificadas (e.g. a harpa
de Zeena Parkins ou Rodri Davies;
ovioloncelo de David Darling; o violino de
J.-L. Ponty; a guitarra &electronics
& objectos na cenografia de K. Rowe.;
e.a.).O intérprete da partitura
diz o que o outro (o compositor) quer,
naelectronic live improvisada o músico
executante tem uma vantagem muitoprivada,
como autor, ele diz apenas o que
quer.Há requisitos para as suas
elaborações discursivas, quer ao nível
dosoftware, fabrico de sons e programas ou
simples usufruto de presetsindustrializados,
(e existe mesmo uma literatura especial
paraimprovisadores); quer no âmbito do
hardware em que o artista cria
umaespécie de efeito orgânico na
instrumentação electrónica (e.g. Paul
Bley/Annette Peacock synthesiser Show) ou
cibernética (e.g. Phill Niblock,
ummentor da
ciber-improvisação)O caso da
textura tímbrica está não raro ligado à
singularidadeinstrumental, assim o uso de um
modelo de sintetizador da Yamaha
éimplicitamente distinto da Moog ou da
Roland e, seus resultados sonoros
sãoespantosamente diferentes e
identificáveis; o instrumento monofónico
permitea manipulação horizontal,
no polifónico abrangem-se campos
cromatizantes;importantes são as
diversas parafernálias como pitch-benders;
controladoresde sopro, percussão e
cordas; pedais de voltagem, etc...Devido às
múltiplasdistorções
eléctricas, o vocalista ou o instrumentista não necessita
tantoesforço físico, pela simples
utilização do micro e do
altifalante.Na electronic live aposta-se num
produto manufacturado no devir doimproviso;
comparando-a com a electrónica de estúdio e sem intérprete,
aimprovisação electronic live
é uma forma especiosa de artesanato, parte
doprincípio similar ao da sinopse da
encenação teatral.Claro
está que o nosso conhecimento da nova música improvisada provém
doconcerto, assistência ou
realização sincrónicas; mas
muitosignificativamente da audição
do documento discográfico; os sons são
fixadosno gravador durante a
composição e depois editados em disco; a
gravaçãomultipista permitiu a
criação de um espaço virtual e a estratificação
detakes por cada pista; o recurso ao remix,
posterior à gravação,
permiteformular outra sedimentação
estática, numa bitola
irrealista.graças ao disco, que
principalmente se refere ao aspecto sónico,
podemosavaliar os resultados e,
aproximadamente, o modus faciendi da
matériaimprovisada. assim a conhecemos
diacronicamente, o que é um paradoxo, já
queem qualquer mass media a música se
encontra fixada (e.g. gravador,
disco,vídeo, memória de
computador).Só a rádio e a TV e as
redes telemáticas como a NET, podem oferecer o
eventosonoro ou o espectáculo musical
em directo.O disco, que como medium
passaria a instrumento do DJ, a partir do reggae,
edo dub, tornou-se a extensão da
composição em lugar da partitura e,
éepigonal da globalização
mediológica (e.g. DJ Spooky; DJ Pogo; DJ
Logic;e.a.).
Hoje, uma música indiscreta correlativa
ao hip hop ou ao techno, sonoplastiada dance
culture, proclama-se "música electrónica", qualquer
coisaimprovisada com matérias sonoras
fixadas, exibindo muitas vezes o trivial
dacena tecnoinstrumental do pop rock e do
scratch; non nova sed nova;desprezando o
conceptivo compositor, o executante improvisa sobre
matériaspré- fixadas em
vários suportes: gira-discos, LP, CD, DVD; sector da
videoart, como o video clip; qualquer
software inadvertidamente disponível para
odesvio; edições
cleptofónicas, pirataria sónica sortida, e.a.; afinal é
umerro terminológico pusilânime,
mais uma apropriação lexical propagandista
damúsica de massas; alienação
sociopata, ideologia da
não-ideologia.Uma
investigação científica electroacústica e informática,
deu azo aoimaginário e à
invenção estética permanente e, às criações
sónicas/ musicaisdos grandes autores de
sínteses, (e.g. I. Hiller, Risset, K. Stockhausen,
E.Leip. R. Voss, J. Chowning, P. Barbaut,
Philipot/ Babbitt, M. Mathews, E.Heimert, B.
Parmegiani, T. Machover; o pósmodernismo da
ciber-praxisinformática de Jean
Schwartz, H. Bojé, P. Eotvos; e.a.); é necessário
osolfejo informático para aprender a
trabalhar como músico que
pretendaconsiderar o computador como
instrumento musical.Em 1971, na senda da
brain music, Pierre Henry improvisava
mentalmente,através das próprias
ondas cerebrais conectadas com transcritores,
otrabalho
"corticalart".Importante foi a inclusão
de solistas improvisadores nas suas
magnânimascomposições,
acústicas, electroacústicas e/ou cibernéticas, (e.g.
K.Penderecky, J. Appleton, & Don Cherry;
E. Schwartz & Marion Brown; G. Mumma,B.
Ashley & Bob James, P. Boulez & Michel Portal Unit, I. Mimaroglu &
oquinteto de F. Hubbard,
e.a.).Neste escopo referimos
sumariamente o efeito dos media na nova
músicaimprovisada à luz da
mediologia ou da teoria da comunicação; alguns
mediaaparecem na encenação sonora
das improvisações: o aparelho radiofónico
(e.g."contrapuntal radio" de G. Gould ); o
gira-discos (e.g. a corrente"plunderphonic"
liderada por J. Oswald, as acções de C. Marclay;
O.Yoshihide, M. Tetrand, Eric M., jogos com
CD de T. Spelios) e, o computador(e.g. A.
Braxton/ R. Teitelbaum em "open aspects"; a video art e
aextrapolação estética no
piano video de Blue Gene Tyranny; no trumpet
videode J. Hassell, ou no design sónico
de Paul de Marinis; na teoria da
"músicaexótica" de David Toop;
e.a.).Na Teoria da
Informação de A. Moles quanta mais probabilidade
maisinformação – as
execuções dos improvisadores virtuosos tendem
aopoli-semiótico da
representação imediata (e.g. a novaiorquina
ExperimentalIntermedia Foundation desde 1980
promove e divulga actuações e
teorizaçõese, expandiu-se pelo
mundo numa abertura pedagógica ímpar aos
maisextraordinários idioletos
multimedia).Os novos inventos
tecnológicos (e.g. a drum machine, o sequencer, o
ringmodulator, o sampler, o processador
ultra harmoniser, destacando o eventide,a
wavestation, e.a.), propiciam outros níveis lexicais e
estruturassintáxicas (e.g. o loop, o
dolby, o play-back, o reverb, e.a.).A
electronic live improvisada é uma música mista, algo ambíguo
entre os sonsinstrumentais e os artificiais
(e.g. W. Horvitz, J.W. Brennan,
MichaelSmith, D. Van Thiegen, L. Casserley,
e.a.), cânones do eco arcaico,
ondemesmo os ruídos são
apresentados como música (e.g. "as mãos" do
músicoandróide M.
Waisvitz).Reverificaram-se muitos valores da
nova improvisação, especialmente
pelaimplementação do disco (e.g.
D. Shea) e de parafernálias digitais (e.g.
ojogo excelso ao trombone & electronics
de G. Schiaffini; o
refinamentoelectrónico de W. Pratti; o
Electro-Acoustic Ensemble de Evan Parker; o
duoJ. Kuhn/ W. Quintus; a imagética de
Ph. Durrant, violino &
electronics;e.a.).
O sampler é o substituto digital
do gravador de bobine, espécie de
seringaque recolhe o sangue no êmbolo,
genoma proliferante; o sampler,
comotecnologia concretista de ponta, serve
para por à disposição todo
umuniverso de sons e segmentos musicais nele
armazenados e é recursotrivializado na
improvisação de música reapropriada (e.g. B.
Ostertag,Andrea Parkins,
e.a.).A prefiguração dos media
como instrumentos deve ser
consideradacomplementar, disco ou rádio
e, suplementar na dita "música assistida
porcomputador"; sinapses instrumentais (e.g.
o conjunto volúvel e multimediaMimeo,
conceito e direcção artística de K. Rowe, envolve
umaciberparafernália de concretismos,
sintetizadores, panóplia
electroacústica,tecnologias de ponta e
projecto sonoplástico).Não existe
o acto de pura improvisação com os media
instrumentalizadosmusicalmente; há
tão somente a possibilidade de coabitação dos vocalismos
edos instrumentos acústicos e
electroacústicos e, parafernália,
dispositivosou controladores
electrónicos analógicos e digitais (e.g. A. Elmer,
P.Rehberg, Ikue Mori, D. Fulton, N. Collins,
C. Fennesz, e.a.).Na sua
expressão digital, adjudicada ao computador, a improvisação
entrou noâmbito do imaginário
cyberpunk, e pulverizou-se na sua situação
pósmodernacom simulacros, jogos,
plágios, sobreposições, colagens, derivas e
outrasatitudes de instrumentistas ou
vocalistas que já não lidam com
partiturasescritas e impressas mas com o
próprio material sonoro criado
impromptu.O computador substitui o operador
musical humano, é por excelência
umaparato de planificação
tecnológica; estabelece conexões
entretecnopanóplias e instrumentos e,
programa relações sonoras
elementares.A memória computacional
consiste no arquivo de notas, silêncios,
ruídos,ritmos, madrigais, cantatas,
missas, sonatas, sinfonias, canções, e
depulverizados sintagmas musicais; trata-se
de um labirinto fonográfico tecidode
múltiplas direcções conceptuais e de inúmeras
substâncias sonoras.A
improvisação assistida por computador é uma work in progress que
marcafortemente as figuras inventadas pelo
executante e as transforma em temporeal
invocando o mito da sereia.Inicialmente
apelidava-se "groove" uma actividade improvisatória com
ocomputador assumido como instrumento: duma
parte o comando e a acção(teclas,
rato e ecrã do computador), da outra, autodeterminação e
controlo.Desenhando os sons ou
esculpindo-os, pode-se sucessivamente
modificá-los,deformar a sua imagem e
obter variedades acústicas
desconhecidas.Hoje popularizou-se o termo
"lap top" para designar uma atitude híbrida
doimprovisador e da sonoplastia do
computador, normalmente debilitada
pelodesconhecimento de operações
de síntese e de génese do som;
apropriando-sede programas prévios,
simulação de manobras
algorítmicas.A música
cinética evoluiu desde o posicionamento estético dos
altifalantes,à sua deslocação
algorítmica no espaço, determinada pelo computador,
criandouma realidade
virtual.Na nova música improvisada
é considerada a noção de espaço: a
fenomenologiasonora adequadamente dispersa,
o envolvimento conjecturado, a topologia
dosmúsicos; os espaços
sensíveis e os abstractos; a estruturação e cognição
dageografia dos sons, modelos de
configurações espaciais, a virtualidade
dosespaços sonoros, as
espacializações audiovisuais, a arquitectura sónica,
osespaços da imaginação
subjectiva do(s) músico(s) e do (s)
ouvinte(s)…O computador funciona de
maneira estatística, recodifica, armazena,
processae transmite o som digitalizado. As
máquinas calculadoras podem levar a
cabooperações qualificáveis
de mentais. Há um senão: o robot musical não
tememoções, nem sequer sonha,
desconhece a aventura e o amor.A computer
music é andróide, não é susceptível de ser executa
exclusivamentepor um músico,
corresponde grosso modo à união de duas inteligências,
anatural e
artificial.Todas as questões
extra-musicais como luminotecnia, video art,
instalação,performarte, são
epigonais da nova música improvisada, estão ligadas
aosituacionismo do espectáculo, da luz
estroboscópica ao raio laser ao
videowall do
megaconcerto.A improvisação
alterara-se substancialmente desde os anos 1950 na Rádio
deParis, com o projecto da "musique
concrète"; conheceu um
progressoimparável até à era
da telemática no último quartel do 2º milénio,
quecoloca a música na estética da
comunicação. A Telemática
situou a música em diversos espaços e tempos
sonoros,polissensoriais, interactivos
(rádio, exclusivamente sonora; TV,
queprivilegia a imagem sobre a música;
aparelhos ambulatórios,
génerowalkie-talkie, radio car,
rádio transístor, vídeo, satélite;
reprodutoresinteractivos, o CDI, o CDROM;
computador portátil; interacção e
participaçãocom a NET...); contra
o sentido da cultura de massas que reduz os
discursosà igualdade amorfa e, a
museomorfose do classicismo, a situação
pósmodernada música improvisada
propõe uma variante de protoformas, hibridez
estética,pastiche; heterogénea,
canibalisa todas as técnicas, é um
sintomaesquizóide.
Na sua situação
pósmoderna a improvisação electronic live, é
centáurica,feita de próteses,
abertura de opiniões, aceita a incompatibilidade, como
nojardim de pedras zen onde tudo é
relativo .Laboratório cultural,
investimento individual na experimentação, prática
deinsuspeitos modelos como
percepções e relações alternativas;
sendorizomórfica, a
improvisação empreende novos processos criativos de
produçãoe define assim a sua
situação pósmoderna.Com o
maior optimismo a pósmodernidade é um situacionismo crítico e
declariaudiência, associado às
viragens da dimensão estética da
improvisação.A Nova
Música Improvisada é, finalmente, uma questão de gosto, pelo
prazerde a tocar e a ouvir; para ser amada
pelo espírito
aberto.REFRÊNCIAS
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- Maio 8, 2004 at 08:02 PM
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