Category Image Aparências - 2º Dom Advento


Todos dizemos que a justiça é um dos valores de referência para as relações humanas. Quando pedimos a alguém para elaborar uma lista com os valores humanos mais importantes a justiça vem quase sempre em primeiro lugar, todos nós somos muito sensíveis à falta de justiça e gostamos que ela nos seja sempre favorável. E não falo da justiça dos tribunais, falo das nossas relações diárias com os que estão à nossa volta. Mas também nos damos conta de que a justiça é uma coisa muito complicada de praticar, porque muitas vezes tem um carácter muito subjectivo.

Isaías diz que o Messias não vem julgar segundo as aparências mas segundo a verdade da vida de cada um. É bem certo que o ditado diz: “quem vê caras não vê corações” mas tantas são as vezes em que as pessoas procuram construir as suas vidas com base em meras aparências, ou que procuram aparentar aquilo que não são para poderem ter mais sucesso, mais riqueza, mais poder.

E tantas são as vezes em que as pessoas são prejudicadas porque só temos em conta as aparências e também os nossos preconceitos em relação a certas atitudes ofendem a justiça porque não preservam a integridade da pessoa humana, têm em conta apenas um pormenor, que até pode ter pouca importância.

S. Paulo, escrevendo aos romanos, exortava-os a não olharem às aparências, a serem verdadeiros uns para com os outros a acolherem-se um aos outros como Cristo os tinha acolhido: dando-se todo, morrendo na cruz, fazendo o bem a todos os que encontrava.

João Baptista vai ainda mais longe nesta exortação a sermos justos: “Não penseis que basta dizer «Abraão é o nosso pai», pois vos digo que Deus pode fazer que destas pedras nasçam filhos de Abraão.” Não é pelo facto de sermos cristãos que somos melhores ou piores que os outros. Mas a responsabilidade é muito maior porque se Deus é justiça, nós, como filhos de Deus, temos de viver de acordo com esse projecto de Deus. Temos de ser coerentes e procurar viver com as pessoas que viv em ao nosso lado de uma forma honesta e justa.

Cada domingo temos de descobrir, por exemplo, porque é que vamos à missa, o que nos faz sair de casa na manhã de cada domingo. É por causa nas nossas próprias aparências, por causa daquilo que os outros possam dizer, para podermos ver os outros, ou é porque queremos celebrar a Fé em Jesus Cristo Salvador, a Fé da Igreja, Fé que temos dentro de cada um de nós.

E que Fé é esta que depende de factores externos como a simpatia dos que celebram connosco, da idade do presidente da celebração, da nossa disposição interior ou do nosso apetite, da forma com Deus responde aos nossos pedidos (que tantas vezes são verdadeiro negócios que pretendemos fazer com Deus)?

Não chega ter o nome inscrito no livro de registos de baptismo da paróquia, nem ter casado na Igreja, nem ter posto os filhos na catequese e aparecer lá para tirar fotografias na festa da primeira comunhão (o estatuto do “cristão não praticante” faz tanto sentido como um círculo quadrado); mas é preciso uma conversão séria, empenhada, nunca acabada ao “Reino” e aos seus valores e uma vida coerente com a fé que escolhemos quando fomos baptizados. O ser cristão já não se compadece com meras aparências, com uma mera circunstância sócio-cultural da nossa vida. Ser cristão não pode ser apenas uma aparência. Essa será a nossa perdição.


Entrada: terça-feira - 04 de dezembro, 2007 às 19:12