Category Image Dar a face?


O que é que distingue um cristão de outra pessoa qualquer? O que é que nos torna diferentes? Esta é pergunta que neste fim-de-semana fica a borbulhar na nossa cabeça.

Encontramos a resposta no Evangelho que lemos neste domingo, a continuação do texto lido na semana passada mas agora de uma forma mais prática.

Não basta dizer que os pobres são bem aventurados. Torna-se necessário dizer que para entrar no reino de Deus é necessário amar verdadeiramente aqueles que são homens como nós e que vivem ao nosso lado. E para os amar não é preciso que gostemos deles. São coisas muito diferentes. Cristo não nos pede que gostemos dos outros, que os toleremos, pede-nos que dêmos a outra face quando nos batem.

Esta é a verdadeira essência do cristianismo: dar-se todo ao outro, independentemente do seu valor, da forma como ele se comporta comigo. Porque Jesus é o novo Adão, com uma dimensão espiritual, como nos diz S. Paulo, na segunda leitura. Quem segue Jesus Cristo tem de ser diferente das outras pessoas, não se pode limitar a fazer aquilo que é normal.

É preciso ir para além disso, como foi David, que era perseguido por Saúl, que o desejava matar por inveja. Mas foi David que teve uma bela ocasião para o matar, e seria justo se o fizesse, no entanto o futuro rei de Israel sabia que Saúl era ungido por Deus, tinha sido escolhido por Ele para conduzir o povo. O único que tinha o poder para decidir se ele morria ou não era o próprio Deus que o tinha escolhido como Rei, porque “O Senhor retribuirá a cada um, na medida em que for justo e honesto.” Só Deus tem o direito de julgar. Os homens por mais importantes que sejam, por mais justos e rectos que sejam não se podem atribuir o direito de tirar ou dar a vida aos outros homens.

A propósito do referendo da semana passada, todos os analistas disseram que a derrota do NÃO foi uma derrota para a Igreja, que se empenhou numa causa perdida logo à partida. No entanto não perdemos. Porque fomos fiéis à nossa condição, porque defendemos a vida. Quem perdeu foi a civilização, porque nos aproximámos mais da barbárie que proclama a sobrevivência dos mais fortes à custa da morte dos mais fracos. Não podemos deixar que se instalem novas inquizições que nos catalogue como indesejáveis e nos impeça a participação na re(s)pública.

A vida não é algo que se possa manejar a bel-prazer. de tal modo que teve de ser o Filho de Deus a morrer para que nós vivêssemos, de forma diferente do passado. Tal como fomos imagem do Adão terreno, também devemos tornar-nos imagem do Adão celeste, o homem novo de que fala S. Paulo noutra passagem.

Este homem novo tem de fazer o que os outros não fazem. Isto implica fazer o bem àqueles que nos odeiam. Esta é a verdadeira loucura dos cristão e que as pessoas não entendem, mas é essa loucura que tem mantido viva a chama, que aumenta quando o ódio por nós é maior, porque o amor aumenta em proporção: vejamos a vitalidade que a Igreja tem nos países onde é perseguida e o marasmo em que permanece nas regiões onde é consensual. Olhemos para dentro das nossas comunidades e vamos amar as pessoas, mesmo que não sejamos amados. Porque o amor não busca recompensa. Isso é o que fazem todos os homens.


Entrada: domingo - 18 de fevereiro, 2007 às 19:21