Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Parábola
do palácio (Jorge Luís
Borges)
Naquele dia, o Imperador Amarelo
mostrou o seu palácio ao poeta. Foram deixando para trás, num longo
desfile, os primeiros terraços ocidentais que, como degraus de um quase
inabarcável anfiteatro, descem até a um paraíso ou jardim cujos
espelhos de metal e cujas intrincadas cercas de zimbro prefiguravam já o
labirinto. Alegremente nele se deixaram perder, a princípio como se
condescendessem com um jogo e depois não sem inquietação, porque
as suas rectas avenidas apresentavam uma curvatura muito suave mas contínua
e secretamente eram círculos. Por volta da meia-noite, a
observação dos planetas e o oportuno sacrifício de uma tartaruga
permitiram-lhes libertar-se da região que parecia enfeitiçada, mas
não da sensação de se encontrarem perdidos, que os acompanhou
até ao fim. Percorreram depois antecâmaras e pátios e bibliotecas
e uma sala hexagonal com uma clepsidra, e uma manhã, do alto de uma torre,
divisaram um homem de pedra, que logo perderam de vista para sempre. Muitos
resplandecentes rios atravessaram em canoas de sândalo, ou um único
rio muitas vezes. O séquito imperial passava e a gente prosternava-se, mas
um dia arribaram a uma ilha onde alguém não se prosternou, por
não ter visto nunca o Filho do Céu, e o verdugo teve de o decapitar.
Negras cabeleiras e negras danças e complicadas máscaras de oiro viram
com indiferença os seus olhos; o real confundia-se com o sonhado, ou
melhor, o real era uma das configurações do sonho. Parecia
impossível que a terra fosse outra coisa que não jardins, águas,
arquitecturas e formas de esplendor. De cem em cem passos uma torre cortava o
ar; para os olhos a cor era idêntica, mas a primeira de todas era amarela e
a última escarlate, tão delicadas eram as gradações e
tão comprida era a série.
Foi ao
pé da penúltima torre que o poeta (como que alheado dos
espectáculos que constituíam uma maravilha para todos ) recitou a
breve composição que hoje vinculamos indissoluvelmente ao seu nome e
que, segundo repetem os historiadores mais elegantes, lhe proporcionou a
imortalidade e a morte, O texto perde-se; há quem pretenda que constava de
um verso; outros, de uma só palavra. O que é certo, o que é
incrível é que no poema estava inteiro e minucioso o palácio
enorme, com cada ilustre porcelana e cada desenho em cada porcelana e as
penumbras e as luzes dos crepúsculos e cada instante desditoso ou feliz das
gloriosas dinastias de mortais, de deuses e de dragões que nele habitaram
desde o interminável passado. Todos ficaram calados, mas o Imperador
exclamou: Arrebataste-me o palácio. E a espada de ferro do verdugo segou a
vida do poeta.
Outros referem a
história de outra maneira. No mundo não pode haver duas coisas iguais;
bastou (dizem-nos) que o poeta pronunciasse o poema para que desaparecesse o
palácio, como que abolido e fulminado pela última sílaba. Tais
lendas, claro está, não passam de ficções literárias. O
poeta era escravo do imperador e morreu como tal; a sua composição
caiu no esquecimento porque merecia o esquecimento e os seus descendentes
procuram ainda — e não a hão-de encontrar — a palavra do
universo.
Castles
In The Air (Don McLean)
And if she asks
you why, you can tell her that I told you
That I'm tired of castles in the air.
I've got a dream I want the world to share
And castle walls just lead me to despair.
Hills of forest green where the
mountains touch the sky, A dream come true,
I'll live there till I die. I'm asking you to
say my last goodbye. The love we knew ain't
worth another try.
Save me from all the
trouble and the pain. I know I'm weak, but I
can't face that girl again. Tell her the
reasons why I can't remain, Perhaps she'll
understand if you tell it to her plain.
But how can words express the feel of
sunlight in the morning, In the hills, away
from city strife. I need a country woman for
my wife; I'm city born, but I love the country
life.
For I will not be part of her
cocktail generation: Partners waltz, devoid of
all romance. The music plays and everyone must
dance. I'm bowing out. I need a second chance.
Save me from all the trouble and the
pain. I know I'm weak, but I can't face that
girl again. Tell her the reasons why I can't
remain, Perhaps she'll understand if you tell
it to her plain.
And if she asks you
why, you can tell her that I told you That I'm
tired of castles in the air. I've got a dream
I want the world to share And castle walls
just lead me to
despair.
Mateus,
XXV, 30 (Jorge Luís Borges)
A
primeira ponte de Constitución e a meus
pés O fragor de comboios que teciam
labirintos de ferro. E de súbito foi o
Juízo Final. Do invisível horizonte E
do mais íntimo do ser, uma voz
infinita Disse estas coisas (estas coisas,
não estas palavras, Que são a minha
pobre tradução temporal de uma só
palavra): — Estrelas, pão,
bibliotecas orientais e ocidentais, Naipes,
tabuleiros de xadrez, galerias, clarabóias e
caves, Um corpo humano para andar pela
terra, Unhas que crescem na noite, na
morte, Sombra que esquece, atarefados espelhos
que multiplicam, Declives da música, a mais
dócil das formas do tempo, Fronteiras do
Brasil e do Uruguai, cavalos e manhãs, Um
peso de bronze e um exemplar da Saga de
Grettir, Álgebra e fogo, a carga de
Junín no teu sangue, Dias mais populosos
que Balzac, o olor da madressilva, Amor e
véspera de amor, recordações
intoleráveis, O sono como um tesouro
enterrado, o liberal acaso E a memória, que
o homem não olha sem vertigem, Tudo isso te
foi dado, e também O antigo alimento dos
heróis: A falsidade e a derrota e a
humilhação Em vão te
prodigalizámos o oceano, Em vão o sol,
que os maravilhados olhos de Whitman
contemplaram; Malbarataste os anos e
malbarataram-te, E não escreveste ainda o
poema.
Poema
da farra (Fausto Bordalo Dias)
Quando li
Jubiabá me cri Antônio
Balduíno. Meu Primo, que nunca o
leu ficou Zeca
Camarão.
Eh
Zeca!
Vamos
os dois numa chunga Vamos farrar toda a
noite Vamos levar duas
moças para a praia da
Rotunda! Zeca me ensina o
caminho: Sou Antônio
Balduíno.
E
fomos farrar por aí, Camarão na minha
frente, Nem verdiano se
mete: Na frente Zé
Camarão, Balduíno vai no
trás.
Que
moça levou meu primo! Vai remexendo no
samba que nem a negra
Rosenda; Eu praqui olhando
só!
Que
moça que ele levou! Cabrita que vira os
olhos. Meu Primo, rei do
musseque: Eu praqui olhando
só!
Meu
primo tá segredando: Nossa Senhora da
Ilha ou que outra
feiticeira? A moça o
acompanhando.
Zé
Camarão a levou: E eu para aqui a
secar. E eu para aqui a
secar.
Composição
escrita num exemplar da ‘Gesta de Beowulf” (Jorge Luís
Borges)
Pergunto a mim próprio que
razões Me movem a estudar sem uma
esperança De precisão, enquanto a
noite avança, A língua desses
ásperos saxões. Já gasta pelos
anos a memória Deixa cair a em vão
repetida Palavra e é assim que a minha
vida Tece e destece sua exausta
história. Será (disse-me então)
que de algum modo Secreto e suficiente a alma
sabe Que é imortal e que o seu vasto e
grave Círculo abarca tudo e pode
tudo. Para além deste cuidado e deste
verso Espera-me inesgotável o
universo.
Universe
(Slade)
I was coming home, I was all
alone In a place so cold I don't
feel I was there for years, so afraid of
fears I was lost and I was the
curse Oh won't you be my
universe
Oh
yeah
I can hear the sound, I can hear it
loud Of the beat before time was
dawned Through the fire and rain I can feel
your pain
Won't you be the last like the
first Oh won't you be my
universe
How much have I
traveled How much have I
seen Is this reality or a broken dream,
Ohhh
Break
Through
raging storm won't you keep me warm I'm the
hunger, I am the thirst Oh won't you be my
universe
Ninguém
pode escrever um livro. Para Que um livro seja
verdadeiramente, Requerem-se a aurora e o
poente, Séculos, armas, mar que une e
separa.
Com
amizade: Davy Spillane, Tangerine Dream, Kirsty Hawkshaw, Celtas Cortos, Don
McLean, Fausto Bordalo Dias, Slade, Jorge Luís Borges e
José-António
Moreira.
Sejam felizes!,
pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos
próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem
capazes!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'