Sons da Escrita 230



Jorge Luís Borges (1)
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Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.



Borges e eu (Jorge Luís Borges)

É ao outro, a Borges, que aconteceram as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto dos relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver no outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.





Me And My Shadow (Robbie Williams)

[spoken]
[Robbie: (american accent)] Johnny and Robbie
[Jonathon:] Youth why you talking like that were from Stoke!
[Robbie:] I dunno but I can't stop here pally

Like the wallpaper sticks to the wall
Like the seashore clings to the sea
Like you'll never get rid of your shadow
You'll never get rid of me

Let all the others fight and fuss
Whatever happens, we've got us.

(Me and my shadow)
Closer than pages that stick in a book
We're closer than ripples that play in a brook
(Strolling down the avenue)
Wherever you find him, you'll find me, just look
Closer than a miser or the bloodhounds to Liza

Me and my shadow
Closer than smog is to all of L.A.
Closer than Ricky to confessing he's gay??
Not a soul can bust this team in two
We stick together like glue

And when it's sleeping time
That's when we rise
We start to swing
Oh you think you're so jazz you
Our clocks don't chime
What a surprise
They ring-a-ding-a-ding-ding!
Happy New Year

(Me and my shadow)
And now to repeat what I said at the start
You'll need a large crowbar to break us apart
We're alone but far from blue

Before we get finished, we'll make the town roar
We'll hit a few late spots, and then a few more
We'll start out at Stringy's and maybe Groucho
Life is gonna be wow-wow-whee!
For my shadow and me!

[spoken]
Ho-hooo
[Jonathon:] Can we do that again?
[Robbie:] No, I'm too tired
[Jonathon:] Oh! Please Rob
[Robbie:] No, I'm swung out
[Jonathon:] Oh! C'mon! I'll give you some money
[Robbie:] I don't need money
[Jonathon:] What about a cup of tea?
[Robbie:] I'm not thirsty
[Jonathon:] I won't tell anybody you're gay.
[Both Laugh]

Before we get finished, we'll make the town roar
We'll hit all the late spots, and then a few more
We'll start out at Stringy's and maybe Groucho
Life is gonna be wow-wow-whee!
For my shadow and me!



Não sei se voltaremos num ciclo segundo (Jorge Luís Borges)

Não sei se voltaremos num ciclo segundo
Como voltam as cifras duma fracção periódica;
Sei porém que uma obscura rotação pitagórica
Noite a noite me deixa num lugar do mundo

Que é dos arrabaldes. Uma esquina remota
Que pode ser do norte, do sul ou do oeste,
Mas que sempre possui uma cerca celeste,
Uma figueira escura e uma senda tortuosa.

Aí está Buenos Aires. O tempo que aos homens
Traz o amor, o ouro, a mim apenas me deixa
Esta rosa apagada, esta inútil madeixa
De ruas que repetem os pretéritos nomes

Do meu sangue: Laprida, Cabrera, Soler, Suárez…
Nomes onde ecoam (já secretas) as alvoradas,
As repúblicas, os cavalos, as madrugadas,
As felizes vitórias, as mortes militares.

As praças agravadas pela noite sem dono
São os pátios profundos dum palácio baço
E as ruas unânimes que geram o espaço
São corredores de vago medo e de sono.

Volta a côncava noite que decifrou Anaxágoras;
Regressa à minha carne a eternidade constante
E a lembrança (o projecto?) dum poema incessante:
«Souberam-no os árduos alunos de Pitágoras…»





Return To Innocence (Enigma)

Love - Devotion
Feeling - Emotion

Don't be afraid to be weak
Don't be too proud to be strong
Just look into your heart my friend
That will be the return to yourself
The return to innocence

The return to innocence

If you want, then start to laugh
If you must, then start to cry
Be yourself don't hide
Just believe in destiny

Don't care what people say
Just follow your own way
Don't give up and lose the chance
To return to innocence

That's not the beginning of the end
That's the return to yourself
The return to innocence



Arte poética (Jorge Luís Borges)

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo.

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.





River Of No Return (Jeff Healey Band)

Well, you know you're gonna have to steal it,
if you want your cake and eat it, too
There is no one less believin',
than the guy who's been deceiving you

You got to pay the piper,
in the end you will be so much wiser
Got to use your best endeavor,
when you're kissing to be clever

'Cause it's a hard, hard lesson,
that you're gonna learn,
on the river of no return

You been burnin' all your bridges,
like a child with forty wishes,
on the river of no return

Well, you got your finger,
on the trigger,
it would help if you was-a bigger
Now, it's not easy, I know, it's not easy

'Cause it's a hard, hard lesson,
that you're gonna learn,
on the river of no return

Yes, you have done your share of cheatin',
now you're gonna have to take a beatin'
You been acting like a sucker
Now, you're gonna have to suffer, yeah

'Cause it's a hard, hard lesson,
that you're gonna learn,
on the river of no return

Say, say, say
It's a hard, hard, lesson,
that you're gonna learn,
on the river of no return

It's a one way to go,
it's on and on you go
on the river of no return.

Say it again!
It's a hard, hard lesson,
that you're gonna learn,
on the river of no return

Got swept out in the tide,
with no one on your side,
on the river of no return





Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.



Com amizade: Davy Spillane, Kitaro, Rob Costlow, Gomer Edwin Evans, Robbie Williams, Enigma, Jeff Healey Band, Jorge Luís Borges e José-António Moreira.

Sejam felizes!, pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem capazes!

And in the end
the love you'll take
is equal to the love you make

Posted: qua - junho 24, 2009 at 02:23 PM          


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