Sons da Escrita 225





Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.



O décimo soneto do português errante (Manuel Alegre)

Contra a usura e o juro contra a renda
contra um tempo de ter mais do que ser
contra a ordem fundada em compra e venda
contra a vida que mói até doer

contra a força que oprime — aí eu canto.
E onde amor se procura e não se encontra
onde a vida se mede a tanto e tanto
onde a mentira impera — aí sou contra.

E por isso incomodo e sou mal visto.
Que se o tempo é de grades eu resisto
e quando alguns se calam não me calo.

Eu sou o renitente o inconformado.
Por isso me deitaram mau olhado
e por isso persisto e canto e falo.





Era uma vez um cantor maldito (Fausto)

(texto não disponível)



A segunda canção com lágrimas (Manuel Alegre)

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebraram-se nas veias os relógios onde
os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas
vinte e cinco viagens para sempre adiadas.
Meu amigo quebrou-se como se fosse de vidro.
Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem.





A segunda canção com lágrimas (Carlos Mendes)

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebraram-se nas veias os relógios onde
os ponteiros marcavam vinte e cinco anos.

Vinte e cinco navios vinte e cinco mapas
vinte e cinco viagens para sempre adiadas.
Meu amigo quebrou-se como se fosse de vidro.
Ficaram vinte e cinco pedaços de um homem



Post-scriptum (Manuel Alegre)

Sobre esta página escrevo o teu nome
que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome
de muitos nomes feito
água e fogo, lenha, vento
Primavera, pátria, exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto
mais do que nome, navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo
este nome rosa e cardo
por quem livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o teu nome
LIBERDADE!





Liberdade (Sérgio Godinho)

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir.





Solidão é companheira
e de senhor são seus modos.
Rei do céu de todos
e de chão nenhum.

À sombra de uma azinheira
há sempre sombra para mais um.



Com amizade: Davy Spillane, Andy Summers, Eric Clapton, Máire Breatnach, Fausto, Carlos Mendes, Sérgio Godinho, Manuel Alegre e José-António Moreira

Sejam felizes!, pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem capazes!

And in the end
the love you'll take
is equal to the love you make

Posted: ter - maio 26, 2009 at 10:58 PM          


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