Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Dactilografia
(Álvaro de Campos)
Traço
sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o
plano, Firmo o projecto, aqui
isolado, Remoto até de quem
sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente
sinistro, O tic-tac estalado das máquinas
de escrever. Que náusea de
vida! Que abjecção esta
irregularidade! Que sono este ser
assim!
Outrora, quando fui outro, eram
castelos e cavaleiros (ilustrações,
talvez, de qualquer livro de
infância). Outrora, quando fui verdadeiro
ao meu sonho, Eram grandes paisagens do Norte,
explícitas de neve, Eram grandes palmares
do Sul, opulentos de
verdes. Outrora.
Ao
lado, acompanhamento banalmente sinistro. O
tic-tac estalado das máquinas de
escrever.
Temos todos duas
vidas: A verdadeira, que é a que sonhamos
na infância, E que continuamos sonhando,
adultos num substrato de névoa; A falsa,
que é a que vivemos em convivência com
outros, Que é a prática, a
útil, Aquela em que acabam por nos meter
num caixão.
Na outra não há
caixões, nem mortes, Há só
ilustrações de infância: Grandes
livros coloridos, para ver mas não
ler; Grandes páginas de cores para recordar
mais tarde. Na outra somos
nós, Na outra
vivemos; Nesta morremos, que é o que viver
quer dizer; Neste momento, pela náusea,
vivo na outra…
Mas ao lado,
acompanhamento banalmente sinistro, Ergue a voz
o tic-tac estalado das máquinas de
escrever.
Kiss
& tell (Bryan Ferry)
Ten cents a
dance It's the only price to
pay Why give ´em
more When it's only love for
sale? Adam and
Eve It's the oldest game in
town Just a one way
street To a faded
magazine Kiss and
tell Money talks - it never
lies Kiss and
tell Give and take - eye for an
eye Fever - the heat of the
night Dreamer - stealer of
sighs One public
face In a private
limousine Flash
photograph It's the only light you
see No secret
life There's no secret you can
steel Your lips are
moving But I will never
know What they
mean Kiss and
tell Money talks - and love, it
burns Kiss and
tell Give and take - we live and
learn Kiss and
tell We never
lie Kiss and
tell Eye for an
eye Kiss and
tell Blood on a
nail Kiss and
tell Kiss me
again
Tabacaria
(excertos) (Álvaro de
Campos)
Não sou
nada. Nunca serei
nada. Não posso querer ser
nada. À parte isso, tenho em mim todos os
sonhos do mundo.
Janelas do meu
quarto, Do meu quarto de um dos milhões do
mundo que ninguém sabe quem é (e se
soubessem quem é, o que saberiam?), Dais
para o mistério de uma rua cruzada constantemente por
gente. Para uma rua inacessível a todos os
pensamentos, Real, impossivelmente real, certa,
desconhecidamente certa, Com o mistério das
coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a
morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos
homens. Com o Destino a conduzir a carroça
de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje
vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje
lúcido, como se estivesse para morrer. E
não tivesse mais irmandade com as
coisas Senão uma despedida, tornando-se
esta casa e este lado da rua A fileira de
carruagens de um comboio, e uma partida
apitada De dentro da minha
cabeça. E uma sacudidela dos meus nervos e
um ranger de ossos na ida.
Estou hoje
perplexo como quem pensou e achou e
esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade
que devo À Tabacaria do outro lado da rua,
como coisa real por fora, E à
sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
(…)
Que sei eu do que serei, eu que
não sei o que sou? Ser o que penso? Mas
penso ser tanta coisa! E há tantos que
pensam ser a mesma coisa que não pode haver
tantos! Génio? Neste
momento Cem mil cérebros se concebem em
sonho génios como eu. E a história
não marcará, quem sabe?, nem
um… Nem haverá senão estrume de
tantas conquistas futuras. Não, não
creio em mim. Em todos os manicómios
há doidos malucos com tantas certezas! Eu,
que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos
certo?
Não, nem em
mim… Em quantas mansardas e
não-mansardas do mundo Não estão
nesta hora génios-para-si-mesmos
sonhando? Quantas aspirações altas e
nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente
altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se
realizáveis, Nunca verão a luz do sol
real nem acharão ouvidos de gente? O mundo
é para quem nasce para o conquistar E
não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
(…)
(Come chocolates,
pequena; Come
chocolates! Olha que não há mais
metafísica no mundo senão
chocolates. Olha que as religiões todas
não ensinam mais que a confeitaria. Come,
pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates
com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso
e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de
estanho, Deito tudo para o chão, como tenho
deitado a vida.)
Mas ao menos fica da
amargura do que nunca serei A caligrafia
rápida destes versos, Pórtico partido
para o
Impossível.
Smoke
gets in your eyes (Nu Colours)
They asked
me how I knew My true love was
true I of course
replied "Something here
inside Cannot be
denied"
They said someday you'll
find All who love are
blind When your heart's on
fire You must
realize Smoke gets in your
eyes
So I chaffed them and I gaily
laughed To think they could doubt my
love Yet today, my love has flown
away I am without my
love
Now laughing friends
deride Tears I cannot
hide So I smile and
say "When a lovely flame
dies Smoke gets in your
eyes" Smoke gets in your
eyes....
Poema
em linha recta (Álvaro de
Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado
porrada. Todos os meus conhecidos têm sido
campeões em tudo.
E eu, tantas vezes
reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu
tantas vezes irrespondivelmente
parasita, Indesculpavelmente
sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido
paciência para tomar banho, Eu, que tantas
vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que
tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das
etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho,
submisso e arrogante, Que tenho sofrido
enxovalhos e calado, Que quando não tenho
calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu,
que tenho sido cómico às criadas de
hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos
dos moços de fretes, Eu, que tenho feito
vergonhas financeiras, pedido emprestado sem
pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me
tenho agachado, Para fora da possibilidade do
soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das
pequenas coisas ridículas, Eu verifico que
não tenho par nisto tudo neste
mundo.
Toda a gente que eu conheço e
que fala comigo Nunca teve um acto
ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi
senão príncipe - todos eles príncipes - na
vida…
Quem me dera ouvir de
alguém a voz humana Que confessasse
não um pecado, mas uma infâmia; Que
contasse, não uma violência, mas uma
cobardia! Não, são todos o Ideal, se
os oiço e me falam. Quem há neste
largo mundo que me confesse que uma vez foi
vil? Ó príncipes, meus
irmãos,
Arre, estou farto de
semideuses! Onde é que há gente nesta
terra?
Poderão as mulheres não
os terem amado, Podem ter sido traídos -
mas ridículos nunca!... E eu, que tenho
sido ridículo sem nunca ter sido
traído, Como posso eu falar com os meus
superiores sem titubear? Eu, que tenho sido vil,
literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e
infame da
vileza.
Behind
the lines (Phil Collins)
I held the book
so tightly in my hands, I saw your picture,
heard you call my name It was strange I could
not look away, I had to be there, I wanted to go
You gave me no
reason you gave me no
warning But I was with
you, right by your
side Give me the strength, so I can help
you And I can be strong now, they don't frighten
me
It's written in the book
The sun is hotter than
before But inside it's cold, I wonder
why But if the fire within your heart can beat
the storm Well I believe we can make it right
It's time
now to show our
feelings Looking through
you your heart's
empty Whatever happened to you, you can't change
it, Nowhere to run to, please, oh please don't
let me down
But wait a minute I don't
understand it's getting stronger, hold my
hand Don't want to leave you I don't want to
go But I'm a' losing all
control Can't you see me I'm slipping
away I can only stay if you've the will to keep
me here Oh Lord
It's written in the book
I held the book so tightly in my
hands Saw your picture, heard you call my
name Oh, and even though we never, never
touched I keep waiting for you just the
same...
Começo
a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo
entre o que desejo ser e os outros me
fizeram, Ou metade desse intervalo, porque
também há vida… Sou isso,
enfim…
Com
amizade: Davy Spillane, Claire Fitch, Rob Costlow, Ed Alleyne Johnson, Bryan
Ferry, Nu Colours, Phil Collins, Álvaro de Campos e José-António
Moreira
Sejam felizes!,
pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos
próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem
capazes!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'