Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Opiário
(excertos) (Álvaro de Campos)
É
antes do ópio que a minh'alma é
doente. Sentir a vida convalescente e
estiola E eu vou buscar ao ópio que
consola Um Oriente ao oriente do
Oriente.
Esta vida de bordo há-de
matar-me. São dias só de febre na
cabeça E, por mais que procure até que
adoeça, Já não encontro a mola
para adaptar-me. (…)
Eu acho que
não vale a pena ter Ido ao oriente e visto
a Índia e a China. A terra é
semelhante e pequenina E há só uma
maneira de viver.
Por isso eu tomo
ópio. É um remédio. Sou um
convalescente do Momento. Moro no
rés-do-chão do pensamento E ver passar
a Vida faz-me tédio.
Fumo. Canso. Ah
uma terra aonde, enfim, Muito a leste não
fosse o oeste já! Pra que fui visitar a
Índia que há Se não há
Índia senão a alma em mim?
(…)
Ah quanta alma viverá, que
ande metida Assim como eu na Linha, e como eu
mística! Quantos sob a casaca
característica Não terão como eu
o horror à vida?
Se ao menos eu por
fora fosse tão Interessante como sou por
dentro! Vou no Maelstrom, cada vez mais pró
centro, Não fazer nada é a minha
perdição.
Um inútil. Mas
é tão justo sê-lo! Pudesse a
gente desprezar os outros E, ainda que co'os
cotovelos rotos, Ser herói, doido,
amaldiçoado ou belo!
Tenho vontade de
levar as mãos À boca e morder nelas
fundo e a mal. Era uma ocupação
original E distraía os outros, os tais
sãos.
O absurdo, como uma flor da tal
Índia Que não vim encontrar na
Índia, nasce No meu cérebro farto de
cansar-se. A minha vida mude-a Deus ou
finde-a…
Deixe-me estar aqui nesta
cadeira, Até virem meter-me no
caixão. Nasci pra mandarim de
condição, Mas falta-me o sossego, o
chá e a esteira.
Ah que bom que era
ir daqui de caída Prà cova por um
alçapão de estouro! A vida sabe-me a
tabaco louro. Nunca fiz mais do que fumar a
vida.
E afinal o que quero é fé,
é calma, E não ter estas
sensações confusas. Deus que acabe com
isto! Abra as eclusas - E basta de comédias
na
minh'alma!
Cocaine
(J. J. Cale)
If you wanna hang out you've
got to break it out; cocaine. If you wanna get
down, get down on the ground; cocaine. She don't
lie, she don't lie, she don't lie;
cocaine.
If you got bad news, you wanna
kick them blues; cocaine. When your day is done
and you wanna run 'round; cocaine. She don't
lie, she don't lie, she don't lie;
cocaine.
If your thing is gone and you
wanna ride on; cocaine. Don't forget this fact,
you can't get it back; cocaine. She don't lie,
she don't lie, she don't lie; cocaine.
She
don't lie, she don't lie, she don't lie;
cocaine.
Ode
triunfal (excertos) Álvaro de
Campos
À dolorosa luz das grandes
Lâmpadas eléctricas da
fábrica Tenho febre e
escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a
beleza disto, Para a beleza disto totalmente
desconhecida dos antigos.
Ó rodas,
ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte
espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em
fúria fora e dentro de mim, Por todos os
meus nervos dissecados fora, Por todas as
papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os
lábios secos, ó grandes ruídos
modernos, De vos ouvir demasiadamente de
perto, E arde-me a cabeça de vos querer
cantar com um excesso De expressão de todas
as minhas sensações, Com um excesso
contemporâneo de vós, ó
máquinas!
Em febre e olhando os
motores como a uma Natureza tropical - Grandes
trópicos humanos de ferro e fogo e força
- Canto, e canto o presente, e também o
passado e o futuro. Porque o presente é
todo o passado e todo o futuro E há
Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes
eléctricas Só porque houve outrora e
foram humanos Virgílio e Platão. E
pedaços do Alexandre Magno do século talvez
cinquenta, Átomos que hão-de ir ter
febre para o cérebro do Ésquilo do século
cem. Andam por estas correias de
transmissão e por estas êmbolos e por estes
volantes, Rugindo, rangendo, ciciando,
estrugindo, ferreando, Fazendo-me um excesso de
carícias ao corpo numa só carícia à
alma.
(…)
Ó
fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos
figurinos! Ó artigos inúteis que toda
a gente quer comprar! Olá grandes
armazéns com várias
secções! Olá anúncios
eléctricos que vêm e estão e
desaparecem! Olá tudo com que hoje se
constrói, com que hoje se é diferente de
ontem! Eh, cimento armado, beton de cimento,
novos processos! Progressos dos armamentos
gloriosamente mortíferos! Couraças,
canhões, metralhadoras, submarinos,
aeroplanos! Amo-vos a todos, a tudo, como uma
fera. Amo-vos
carnivoramente, Pervertidamente e enroscando a
minha vista Em vós, ó coisas grandes,
banais, úteis, inúteis, ó coisas todas
modernas, Ó minhas contemporâneas,
forma actual e próxima Do sistema imediato
do Universo! Nova Revelação
metálica e dinâmica de
Deus!
Ó fábricas, ó
laboratórios, ó music-halls, ó
Luna-Parks, Ó couraçados, ó
pontes, ó docas flutuantes - Na minha mente
turbulenta e encandescida Possuo-vos como a uma
mulher bela, Completamente vos possuo como a uma
mulher bela que não se ama. Que se encontra
casualmente e se acha
interessantíssima.
Eh-lá-hô
fachadas das grandes lojas! Eh-la-hô
elevadores dos grandes
edifícios! Eh-la-hô
recomposições
ministeriais! Parlamentos, políticas,
relatores de orçamentos. Orçamentos
falsificados! (Um orçamento é tão
natural como uma árvore E um parlamento
tão belo como uma
borboleta).
Butterfly
(Take that)
Once in my life / I couldn't
deny I thought I found my everything / Lover, a
friend The hours we'd spend / Just doing nothing
at all
Shorly / To lead / Is yours / Alone
/ Break free, let go
Butterfly / Fly, fly
away, from here Go and try / Try, through the
laughter And the tears / You'll always be a part
of me And in my heart you'll always
be Butterfly / Fly, fly away / Fly
away
Deep in your eyes / It's there that I
find All that I really ever need / Whatever I
do You know that it's you / Girl, in every face
I see yeah
Your last / Goodbye / Was yours
/ Alone / Break free, let go
To the place
/ You belong Hope you hear and feel this
song Hope that you can find the freedom in your
life / In your life Ah sweet butterfly / Just
fly away Hmmmm / Just fly
away
Go and try / Try, through the
laughter And the tears / You'll always be a part
of me And in my heart you'll always
be Butterfly / Fly, fly away / Fly away / Ooooh,
Fly away
For once in my life / I couldn't
deny I thought that I'd found my everything /
Lover, a friend The hours we'd spend / Just
doing nothing at all For once in my life / I
couldn't deny I thought that I'd found my
everything / For once in my life I couldn't deny
/ I thought that I'd found my
everything
Ode
marítima (excerto) (Álvaro de
Campos)
Sozinho, no cais deserto, a esta
manhã de Verão, Olho pró lado da
barra, olho pró Indefinido, Olho e
contenta-me ver, Pequeno, negro e claro, um
paquete entrando. Vem muito longe, nítido,
clássico à sua maneira. Deixa no ar
distante atrás de si a orla vã do seu
fumo. Vem entrando, e a manhã entra com
ele, e no rio, Aqui, acolá, acorda a vida
marítima, Erguem-se velas, avançam
rebocadores, Surgem barcos pequenos detrás
dos navios que estão no porto. Há uma
vaga brisa. Mas a minh'alma está com o que
vejo menos. Com o paquete que
entra, Porque ele está com a
Distância, com a Manhã, Com o sentido
marítimo desta Hora, Com a doçura
dolorosa que sobe em mim como uma
náusea, Como um começar a enjoar, mas
no espírito. Olho de longe o paquete, com
uma grande independência de alma, E dentro
de mim um volante começa a girar,
lentamente.
Os paquetes que entram de
manhã na barra Trazem aos meus olhos
consigo O mistério alegre e triste de quem
chega e parte. Trazem memórias de cais
afastados e de outros momentos Doutro modo da
mesma humanidade noutros pontos. Todo o atracar,
todo o largar do navio, É - sinto-o em mim
como o meu sangue . Inconscientemente
simbólico, terrivelmente Ameaçador de
significações metafísicas Que
perturbam em mim quem eu fui…
Ah,
todo o cais é uma saudade de pedra! E
quando o navio larga do cais E se repara de
repente que se abriu um espaço Entre o cais
e o navio, Vem-me, não sei porquê, uma
angústia recente, Uma névoa de
sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das
minhas angústias relvadas Como a primeira
janela onde a madrugada bate, E me envolve com
uma recordação duma outra pessoa Que
fosse misteriosamente
minha.
Spirit
of the seas (Blackmore’s Night)
I
took a walk along the shore To clear my mind
about the day, I saw a man I'd seen
before As I approached, he slipped
away... I knew his face from years
ago, His smile stays with me ever
more His eyes, they guide me through the
haze And give me shelter from the
storm... As I walk I can feel
him, Always watching over
me... His voice surrounds
me, My Spirit of the
Sea... He went away so long
ago, On a maiden voyage far
away A young man then I did not
know, His life was taken that same
day... And it was almost like he
knew He wouldn't see me
anymore He looked so deeply in my eyes, and
said "Wait for me along the
shore..." And so I come most every
day, To watch the waves rise and
fall, And as I sit here on the
sand, This ocean makes me feel so
small... But I feel my lover by my
side, And he makes me follow my own
heart We'll be together some sweet
day When that day comes we'll never
part... When that day comes we'll never
part... Wait for me along the
shore...
Parte-se
em mim qualquer coisa. O vermelho
anoiteceu. Senti demais para poder continuar a
sentir. Esgotou-se-me a alma, ficou só um
eco dentro de mim. Decresce sensivelmente a
velocidade do
volante.
Com
amizade: Davy Spillane, Jami Sieber, Tangerine Dream, Vangelis Papathanasious,
J. J. Cale, Take That, Blackmore’s Night, Álvaro de Campos e
José-António
Moreira
Sejam felizes!,
pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos
próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem
capazes!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'