Sons da Escrita 167





Compasso a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da escrita.

Quando um homem interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens entre o quase tudo e o quase nada.

Então, da raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no silêncio dos sons da escrita.

Sons da Escrita – à volta de uma ideia de José-António Moreira.



Apatia (Vieira da Silva)

vi
lá muito ao longe
o sol
de cansado
enterrar-se todo
nas águas do mar
e deixei-o ir-se
sem o tentar salvar





Canção do dia imaginado (Vieira da Silva)

no sangue do sonho
força viva do cantar
vem toda a gente
que se cansou de esperar
no fogo do vento
raiz vulcão tempestade
vêm os homens
libertar a liberdade
na sede do gesto
garra vingança semente
vêm os vivos
fartos da morte existente
na nova cidade
fonte alicerce embrião
ergue-se o dia
ferro pedra furacão.



Desilusão (Vieira da Silva)

gritei
mas ninguém
me ouviu
chamei
ninguém
respondeu

chorei
e enterrei
o sonho que me morreu





Canção para uma manhã diferente (Vieira da Silva)

somos andorinhas negras
à procura dum país
onde exista primavera
e o povo seja feliz
trazemos a guerra urgente
contra tudo o que é bonança
para acordar quem se fica
na morte de ter esperança
quebrem-se as pontes dos homens
falsas canções de ternura
gritemos o desespero
com a raiva da loucura
queimem-se as noites de lua
com o rubro de alvorada
que nós faremos o sol
da manhã nunca encontrada



Amargura (Vieira da Silva)

tens razão
dentro de mim
ainda existe a criança
cheia de medos
que chora
quando a noite se adivinha
e esta amargura louca
não sei se é ela que a sofre
ou se sou eu que a invento
e a sinto toda minha





Este país (Vieira da Silva)

não podemos esperar
as madrugadas
prometidas
em discursos de euforia
que esta noite já vai longa
e as palavras
não acendem a fogueira de outro dia
não podemos descansar
nesta saudade
de não sei que paraísos inventados
que a batalha é aqui mesmo
que se faz
com os braços firmemente entrelaçados
não podemos amarrar
este país
na esperança de um abril que há-de chegar
já são horas de sairmos deste medo
e fazermos este barco navegar.





Genérico final

além
além
mais além
e no fim
o pesadelo
de ficar só
sem ninguém




Com amizade: Davy Spillane, Alchemorphe Soundtracks, Vieira da Silva e José-António Moreira

Sejam felizes!, pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem capazes!

And in the end
the love you'll take
is equal to the love you make

Posted: Sex - Abril 25, 2008 at 12:00 AM          


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