Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Relação
obscura (João Camilo)
Quantos anos
vivemos ignorando saber o que sabíamos? Escondia-se de nós mesmos
— daquela parte de nós que parecia clara, transparente — a
sabedoria. Numa noite de Verão,
inesperadamente, abriu-se a porta para a escuridão do nosso destino. A
escuridão exige, antes de mais nada, ser esclarecida. A cegueira tinha
consistido em agirmos de acordo com o que não sabíamos que
sabíamos; o que é uma forma de ignorância. Por outro lado, que
queremos dizer quando nos interrogamos: «abriu-se a porta para a zona
escura?» Sabemos agora o que não
sabíamos que sabíamos? Existe enfim alguma coisa de que se pode falar,
em que se pode reflectir atribuindo-lhe um nome, nomes, ou de que vemos enfim,
mesmo se são confusas, algumas imagens? A resposta não se sabe qual
seja. Isto é: ignoramos se acedemos enfim ao que, sabendo, ignorávamos
que sabíamos. E por cansaço deixou de interessar-nos o assunto,
pareceu-nos de uma complexidade excessiva para a simplicidade do espírito.
Já não queremos saber. Evidentemente,
deve haver alguma razão para acreditarmos que uma parte do desconhecido do
espírito se deixou entrever como conhecido. Mas o quê, que conhecemos
exactamente? Não sabemos nem pretendemos
sabê-lo. Provavelmente faz parte da
natureza do conhecimento que as coisas (as revelações) mais
importantes permaneçam suspensas, em estado vago, no interior da nossa vida
mais íntima. O que é a vida mais
íntima? Também não sabemos explicar o que é a vida mais
íntima. Se fôssemos filósofos,
provavelmente podíamos explicar isso e tudo o que nos aflige. Mas não
somos filósofos, limitamo-nos a viver a
vida.
Não sentimos
frustração por isso, nem complexos. Já nos dá bastante que
fazer a parte da realidade que é redutível à acção, que
a acção pode modificar. Além disso nada sabemos do amor, embora
nos tenha acontecido, muitas vezes, amar e ser amados. Ou pelo menos iludimo-nos
com as palavras e as aparências. Pode acontecer que nunca o amor tenha sido
um sentimento ao alcance do nosso
entendimento. No exílio deturpa-se
perigosamente a relação com o real; e consequentemente a
relação com a linguagem. É possível, não sei que
responder. Mas a aprendizagem da ignorância tem sido a parte mais frutuosa
da nossa experiência. Longe da pátria, mas ligados à terra,
às raízes. Embrenhados na relação obscura cqm as origens.
Por aí devíamos ir, era isso que devíamos tentar compreender e
explicar. Mas bastaria recordar a infância
sobressaltada, as paisagens desse tempo, os rostos, as
palavras? Difícil de saber. Recordamo-nos,
com frequência recordamo-nos de acontecimentos que tiveram lugar há
muito tempo. Imaginamos que constituem uma parte importante da nossa
personalidade, pois de outro modo talvez os tivéssemos esquecido. Mas quem
sabe se não é aquilo que esquecemos — ou que não
conseguimos recordar verdadeiramente — que explicaria melhor, tanto quanto
possível, em todo o caso, a pessoa que somos, as razões por que
sofremos e nos alegramos, nos abandonamos à melancolia ou nos deixamos
escravizar pelo
entusiasmo? Mistério. Jovens
raparigas que vos sentais perto de nós nas esplanadas dos cafés, com
que graça inimitável ajeitais o cabelo loiro amarrado num nó no
cimo da cabeça. Perfeição da
vida, ilusão passageira do instante. Logo a
seguir voltam as perguntas e a impossibilidade de lhes
responder.
Little
blonde plaits (Chris
Rea)
Sweet September, I
remember Eyes of August deepest
blue While the lazy town was
sleeping Strangest love that I
ever knew Feel the wind blow,
see the shadows Kiss the breeze
of a sudden shore Of my life's
loves and fascinations The only
one who left me wanting
more Little blonde
plaits Drink to you love, drink
to me love Sun burned feet on a
dusty track Evening waves that
turned in twilight Caught
forever those little blonde
plaits
Elogio
do inimigo (João
Camilo)
1 Quem
atentou contra o sentido das palavras, foi contra nós que atentou. Mas
passado o momento da hesitação, de novo avançámos para a
meta inalcançável do desejo: a
sabedoria.
Quem contra nós atentou,
abriu-nos as portas do desconhecido. E por ela nós embrenhámo-nos,
lutando com o medo.
Um dia, novamente,
alcançámos um lugar de habitação. Aí, no sentido
atingido, repousámos. E durante uns instantes reflectimos sobre as
razões do ódio e sobre a fragilidade do sentido. Depois, finalmente,
sorrimos, como se o alívio nos tivesse visitado a seguir à tempestade
que fizera vacilar os alicerces da
casa.
2 Porque
tivemos inimigos não morreremos tão inocentes. Eles quiseram
destruir-nos, mas reforçaram o nosso direito à existência. Por
outras palavras: quiseram negar-nos, negar o que nós éramos e a
maneira como víamos o mundo. Mas nós meditámos. E depois de
termos sofrido e hesitado, erguemos o nosso destino de novo como uma estrela
resplandecente na escuridão
ameaçadora.
Fazer o elogio do
adversário não me repugna neste momento. Quem, sem inimigos, podia
aproximar-se tão empenhadamente da zona árida e selvagem da luz? Quem,
sem oposição, teria progredido no caminho que leva à morte
abrindo os
olhos?
Follow
the light (Travis)
Nobody really
knows Where they're supposed to
go Hiding behind a
wall Afraid that they'll lose it
all But it's
alright Just follow the
light And don't be afraid of the
dark In the
moonlight You'll dance till you
fall And always be here in my
heart But nobody wants to
know 'Cos nobody even
cares Everyone's on the
make Yeah and everyone's out for
themselves Me I'm on the longest
road Where everything's
overload But I've got my heart and
soul So don't throw me
overboard 'Cos it's
alright Just follow the
light And don't be afraid of the
dark In the
moonlight You'll dance till you
fall And always be here in my
heart 'Cos it's
alright Just follow the
light And don't be afraid of the
dark In the
moonlight You'll dance till you
fall And always be here in my
heart 'Cos it's alright, alright
now And you're
alright Yeah we're alright
now
Vistos
do exterior (João Camilo)
Há
aqueles que chegam. Outros caminham
eternamente. A cada um deu a Natureza o sopro
que lhe era necessário. Quem sabe,
porém, o que é chegar? E alguns começam
eternamente. O que é a Natureza senão
o fervor e a maldição recebidos com o sangue e o
destino? Tantas coisas se seguiam, nascia o sol
e punha-se sobre o mar no horizonte.
Os
passos do peregrino da vida soam na calçada — e quem os
ouve?
Um percurso, cada um de nós
caminha ao encontro da revelação. Quantos não atingem nunca a
clareira na floresta e se perdem nas brumas românticas que do lago sobem
até às árvores e as
envolvem?
Obscurecem-se os caminhos ao
longo dos anos abertos na confusão das plantas
rasteiras. E aquele que procura um sol, o seu
sol, fica à deriva no nevoeiro.
Nunca
chegará, ele. Mas o que é chegar? E quem sabe o que acontece no
espírito secreto do homem, quem conhece a profundidade da alma
humana?
Vistos do exterior, os nossos
gestos perdem o sentido que lhes
dávamos. Julgam-nos e nada sabem da
obsessão e da dor que perturbam a carne até ao
desespero. O sentido da viagem, secreto,
única posse, para sempre será apenas
nosso. Ficção inacessível aos
contadores de histórias.
Com a nossa
morte levâmo-lo para o rio do
esquecimento.
And
when I die (Blood, Sweat & Tears)
I'm
not scared of dying, And I don't really
care. If it's peace you find in
dying, Well then let the time be
near. If it's peace you find in
dying, And if dying time is
here, Just bundle up my
coffin 'Cause it's cold way down
there. I hear that its cold way down
there. Yeah, crazy cold way down
there. And when I die, and when I'm
gone, There'll be one child
born In this world to carry
on, to carry
on. Now troubles are many, they're as deep as a
well. I can swear there ain't no heaven but I
pray there ain't no hell. Swear there ain't no
heaven and I pray there ain't no hell, But I'll
never know by living, only my dying will
tell. Yes only my dying will
tell. Yeah, only my dying will
tell. Give me my freedom for as long as I
be. All I ask of living is to have no chains on
me. All I ask of living is to have no chains on
me, And all I ask of dying is to go
naturally. Oh I want to go
naturally. Here I
go, Hey
Hey! Here comes the
devil, Right
Behind. Look out
children, Here he
comes! Here he comes!
Hey... Don't want to go by the
devil. Don't want to go by
demon. Don't want to go by
Satan, Don't want to die
uneasy. Just let me go
naturally. and when I
die, When I'm dead, dead and
gone, There'll be one child born in our world to
carry on, To carry
on.
Indecisão
(João Camilo)
O excesso dos
sentimentos — a perda, o desejo —
é nocivo para o poeta. Por isso ele se
distancia de si mesmo, depois observa-se da
outra margem do rio; tenta então dominar o
fluir das palavras.
As paixões
são necessárias ao surgir da linguagem
e à poesia; mas se queimam a mente e o
coração, perturbam o espírito
do poeta e ele cala-se. Sem medida
nem peso, sem limites marcados,
perdemo-nos na extensão do vazio. Para
aquele que se encontrou consigo mesmo
o amor que já não é, deixa de ser
e não se transforma em nostalgia inutil; e
o amor que ainda não cresceu
imobiliza-se na sua
indecisão.
Sozinho em casa, no
refugio do espírito, o poeta aprende a
respirar. Aguarda a chegada da noite profunda
e recorda-se dos anos em que teve
família e foi feliz, há tanto, tanto
tempo
já.
In
my life (Susan Ashton & Gary
Chapman)
There are places I'll
remember All my life though some have
changed Some forever not for
better Some have gone and some
remain All these places had their
moments With lovers and friends I still can
recall Some are dead and some are
living In my life I've loved them
all
But of all these friends and
lovers There is no one compares with
you And these memories lose their
meaning When I think of love as something
new Though I know I'll never lose
affection For people and things that went
before I know I'll often stop and think about
them In my life I love you
more
Though I know I'll never lose
affection For people and things that went
before I know I'll often stop and think about
them In my life I love you
more In my life I love you
more
Genérico
final
Nem
elegias nem
idílios. Nem
lamentos nem a
consolação do
amor. Nada que
distraia o
olhar que se
fixou num ponto
obscuro da
paisagem e aí parece ter
adormecido, como
se não
devesse prosseguir o
nosso destino.
Com
amizade: Davy Spillane, Jerry Goodman, Chris Rea, Travis, Blood, Sweat &
Tears, Susan Ashton & Gary Chapman, João Camilo e
José-António
Moreira
Sejam felizes!,
pelo menos, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos
próximos dias… no resto das vossas vidas, se forem
capazes!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'