Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Palavras
(Graça Pires)
Em horas escolhidas ao
acaso recordo palavras que me
trazem outras palavras, outros
sons, outras
sombras; palavras redondas como os
seios das meninas, em cujos
olhos se anuncia um brilho
inquietante; palavras que resvalam pela
fala e transformam o
vulto incerto das mãos em
pássaros ébrios de fogo, ou explodindo
de luz como se fossem
astros; palavras sangrando na
boca, ou um desvio, tecido às
cegas, para deixar entrar a
noite.
Palavras
(Maria
Bethânia)
Não
tente me enganar Vejo em seu
olhar Que já não
existe Aquele mesmo amor que
nunca esperou Acabar tão
triste Não tente me
dizer Palavras que
eu Já não
acredito Eu posso
compreender O que restou de um
amor Que foi tão
bonito Eu fiz daquele
amor O meu sonho
maior Minha razão de
tudo Foi pouco o que
restou De tanto que
existiu Recordações e
nada mais Não, não
vá me dizer Palavras que
venham Me fazer chorar
depois Eu sei que vou
viver Por muito tempo
ainda Das lembranças de
nós
dois
Já
não posso olhar as palavras (Graça
Pires)
Já não posso olhar as
palavras como dantes. O tempo apagou-me das
mãos tantos desejos. É possível
que a minha boca se encha de
silêncios, à míngua de
alegria, como se uma noite
inquieta me ardesse nos
ossos e as aves me
segredassem ausências sem
recuo. Porém, já outros
pássaros reiniciam um voo mais que
perfeito, à procura de um
lugar onde,
transfigurados, possam tecer, de novo, as suas
asas.
Outras
palavras (Caetano Veloso)
Nada dessa cica
de palavra triste em mim na boca Travo, trava
mãe e papai, alma buena, dicha louca Neca
desse sono de nunca jamais nem never
more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra
Dedé, pra Dadi e Dó Crista do desejo o
destino deslinda-se em beleza: Outras
palavras
Tudo seu azul, tudo céu,
tudo azul e furta-cor Tudo meu amor, tudo mel,
tudo amor e ouro e sol Na televisão, na
palavra, no átimo, no chão Quero essa
mulher solamente pra mim, mais, muito mais Rima,
pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e
gozo: Outras
palavras
Nem vem que não tem, vem que
tem coração, tamanho trem Como na
palavra, palavra, a palavra estou em mim E fora
de mim quando você parece que não
dá Você diz que diz em silêncio o
que eu não desejo ouvir Tem me feito muito
infeliz mas agora minha filha: Outras
palavras
Quase João, Gil, Ben, muito
bem mas barroco como eu Cérebro,
máquina, palavras, sentidos,
corações Hiperestesia, Buarque,
voilá, tu sais de cor Tinjo-me
romântico mas sou vadio computador Só
que sofri tanto que grita porém daqui pra a
frente: Outras
palavras
Parafins, gatins, alphaluz,
sexonhei da guerrapaz Ouraxé,
palávoras, driz, okê, cris,
espacial Projeitinho, imanso, ciumortevida,
vivavid Lambetelho, frúturo,
orgasmaravalha-me Logun Homenina nel paraís
de felicidadania: Outras
palavras
Volto
à caligrafia da sede (Graça
Pires)
O outono entra-me pela
casa. Ao longo das paredes sublinho a minha
cronologia, num gráfico de sílabas,
susceptível à tristeza. Neste momento,
avalio mal o equívoco do
silêncio frente à disponibilidade das
palavras. Acerto os livros pela lombada e
vejo, nas estantes, as sombras de poetas
românticos, com um imenso rio na
expressão dos olhos. A privação
de rostos, torna violentas todas as
cores. Coloco as palavras sobre a
mesa e volto à caligrafia da
sede. Onde estão os pássaros de olhos
aguados, que sobrevoavam, ainda há pouco,
as minhas
mãos?
Tenho
sede (Gilberto Gil)
Traga-me um copo
d'água, tenho sede E essa sede pode me
matar Minha garganta pede um pouco de
água E os meus olhos pedem teu
olhar A planta pede chuva quando quer
brotar O céu logo escurece quando vai
chover Meu coração só pede o teu
amor Se não mo deres posso até
morrer
A
nitidez do tempo (Graça Pires)
A quem
anunciarei a súbita clareira, onde a lua do
meio-dia anula a morte das aves
nocturnas? Há uma cilada de palavras a
envolver a volúpia, no vértice de um
sexo quase puro. A vigília do poema
acende-se numa linguagem única e a forma
adejante das letras traça ficções de
solidão nas minhas veias, por onde circulam
ódios e paixões. Qualquer eternidade
me aguarda, porque ouço a nitidez do tempo
retocando o meu
olhar.
Canção
do tempo (Fernando Tordo)
Para um tempo
que fica doendo por dentro e passa por fora Para
o tempo do vento que é o contratempo da nossa
demora Passam dias e noites, os meses, os anos,
o segundo e a hora E ao tempo presente é
que a gente pergunta: E agora?, E
agora?
Tempo para pensar cada momento
deste tempo Que cada dia é mais profundo e
é mais tempo Para inventarmos outro tempo
menos lento
Tempo dos nossos filhos
aprenderem com mais tempo A rapidez que tem de
ser o pensamento Para nascer, para viver, para
existir E nunca mais verem o tempo
fugir
Ai o tempo constante que a cada
instante nos passa por fora Este tempo candente
que é como um cometa com laivos de
aurora É o tempo de hoje, é o tempo de
ontem, é o tempo de outrora Mas o tempo da
gente é o tempo presente, é agora, é
agora
Tempo para agarrar cada momento
deste tempo Interminável e absoluto rasgo o
tempo Num temporal com os ponteiros do
minuto
Tempo para o relógio bater
certo com a vida De um homem bom, de um homem
são, de um homem forte Que da chegada
conseguir fazer partida E que desperta adiantado
para a
morte
Genérico
final
Encho os olhos de
mar e abro, de par em
par, os meus
sentidos, para deixar
passar todos os barcos
perdidos..
Com
amizade: Davy Spillane, Blue Earth, Nightnoise, Brian Man, Yanni, Maria
Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fernando Tordo, Graça Pires e
José-António
Moreira
And in
the end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'