Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Fresco
era o dia (Pedro Tamen)
Fresco era o dia,
plantado na chuva, jovens os relógios tocando
Mozart... Os carros corriam, os passos passavam
e os velhos sentados dormiam no tempo regressos perdidos de todas as
sombras. Pássaro poisado na alma da tarde,
era todo o sol natural inverno... O mar estava
perto nos olhos da gente, um barco chegava em cada minuto e o segredo bailava
nas mãos da criança. Recordo uma paz
sob as gabardinas, recordo humidade nas rodas dos carros... (Tão solta no
ar corria a memória que as folhas tão verdes marcavam os
anos). A chuva nascia da terra para o ar e ria
na cara da gente perpétua — cada riso dela era a rua inteira e era o
cão vadio cheirando esta terra gerada no vento pelo grande
gesto. Rua colocada por amor das formigas,
pequeno brinquedo achado no bosque, eras mão aberta para todos os sons,
para cada assobio de vapor de água, para a bela frescura da brisa
salgada. Ligeiros, os céus brincavam
escondidos com a tarde criança presente no ar, jogavam às pedras ao
pé dos passeios e corriam juntos fugindo do
vento... Passavam pessoas de faces vermelhas, de
um sono pequeno agora acordadas, seus passos miúdos de nada sabiam —
nada estava feito e tinham dez anos. A branca
neblina sentada no sol sorria de perto a tudo o que era e tudo saltava na sua
presença. Escorregavam horas do berço
dos ramos ficando caladas, respirando fumo... E, leves, cheirosas, perpassavam
mãos, tão estreitas e fortes, do primeiro
mundo... Algo se esperava, algo estava perto,
algo era preciso, faltava a resposta, o rio que fosse a cama da chuva, a sombra
final para o sol se deitar, a torre perfeita com todos os olhos, a mão que
apertasse as coisas dispersas... E eis que o rio
vem, a sombra e a torre, e se estendem dedos com a tua
chegada. Saltaram coelhos de todas as tocas e a
fonte da serra sorriu-se no musgo. Manaram os beijos no ar respirado e as malas
abertas mostraram o fundo. Fugiram cavalos de pernas de espuma levando no
pêlo notícias em branco. E o vento corria em busca da lua e a tarde e
os céus calavam os gritos... Silêncio
se fez, e a erva cresceu mais verde e mais fresca, segura certeza. Espreitaram
os sinos, riram-se as escadas, tudo estava pronto e de novo
erguido... Tão bela que vinhas como que de
infância, tão pura e tão simples, tão gesto benigno,
tão nova palavra rasgada no
mar… Menina dos anos, dos anos perdidos,
sombra de outras noites, noiva de outros dias, perfeita miragem, pele das
próprias mãos, eis que então chegavas e eis que eu te via, e as
horas sorriam, felizes, completas... Teu rosto era a concha dos quatro oceanos,
teu corpo era a praia de areia molhada, teus olhos erguiam o toldo do céu e
enchiam os mastros de verdes bandeiras. Tu eras o vento, tu eras a força,
dançavam secretas tuas mãos de
aragem... Nasceste presença na tarde de
bronze e agora já nada seria indeciso. Agora eras tu a essência dos
nomes, os galos cantavam, era bom respirar... Os prados distantes ficavam
tranquilos, esperando os teus pés, berlindes pequenos. A chuva e a brisa, a
jovem frescura, ganhavam certeza, seguras estavam — morena lembrança,
segundo natal. Nunca mais a noite mordida no
escuro, nunca mais o dia manchado de cuspo, nunca mais o véu tapando-me
tudo, nunca mais os dedos procurando flores... A estátua plantada na nudez
do largo devolvia a calma aos olhos fechados e enchia de sombra as pedras
queimadas. Agora eu sabia que em cada manhã
nasceria o sol atrás dos teus
ombros.
Se
eu quiser falar com Deus (Gilberto
Gil)
Se eu quiser falar
com Deus Tenho que ficar a
sós Tenho que apagar a
luz Tenho que calar a
voz Tenho que encontrar a
paz Tenho que folgar os
nós Dos sapatos, da
gravata Dos desejos, dos
receios Tenho que esquecer a
data Tenho que perder a
conta Tenho que ter mãos
vazias Ter a alma e o corpo
nus Se eu quiser falar com
Deus Tenho que aceitar a
dor Tenho que comer o
pão Que o diabo
amassou Tenho que virar um
cão Tenho que lamber o
chão Dos palácios, dos
castelos Suntuosos do meu
sonho Tenho que me ver
tristonho Tenho que me achar
medonho E apesar de um mal
tamanho Alegrar meu
coração Se eu quiser
falar com Deus Tenho que me
aventurar Tenho que subir aos
céus Sem cordas pra
segurar Tenho que dizer
adeus Dar as costas,
caminhar Decidido, pela
estrada Que ao findar vai dar em
nada Nada, nada, nada,
nada Nada, nada, nada,
nada Nada, nada, nada,
nada Do que eu pensava
encontrar
Natal,
e não Dezembro (David-Mourão
Ferreira)
Entremos, apressados,
friorentos, numa gruta, no bojo de um
navio, num presépio, num prédio, num
presídio, no prédio que amanhã
for demolido...
Entremos, inseguros, mas
entremos. Entremos, e depressa, em qualquer
sítio, porque esta noite chama-se
Dezembro, porque sofremos, porque temos
frio.
Entremos, dois a dois: somos
duzentos, duzentos mil, doze milhões de
nada. Procuremos o rastro de uma
casa, a cave, a gruta, o sulco de uma
nave...
Entremos, despojados, mas
entremos. Das mãos dadas talvez o fogo
nasça, talvez seja Natal e não
Dezembro, talvez universal a
consoada.
Jesus
to a child (George Michael)
Kindness In
your eyes I guess You heard me
cry You smiled at me like Jesus to a
child I'm blessed I know
Heaven sent And Heaven
stole You smiled at me like Jesus to a
child And what have I learned
From all this
pain I thought I'd never feel the same
About anyone Or
anything again But now I know when you find love
When you know that it
exists Then the lover that you miss
Will come to you on those cold, cold
nights When you've been loved
When you know it holds such
bliss Then the lover that you kissed
Will comfort you when there's no hope in
sight Sadness in my eyes no one guessed or no
one tried You smiled at me like Jesus to a
child Loveless and
cold With your last breath you saved my soul
You smiled at me like Jesus to a
child And what have I learned from all these
tears I've waited for you all those years
And just when it began he took your love
away But I still say when you find
love When you know that it exists then the lover
that you miss Will come to you on those cold,
cold nights When you've been loved
When you know it holds such
bliss Then the lover that you kissed
Will comfort you when there's no hope in
sight So the words you could not say I'll sing
them for you And the love we would have made
I'll make it for two For every single memory has
become a part of me You will always be My
love Well I've been loved so I know just what
love is And the lover that I kissed is always by
my side Oh the lover I still miss was Jesus to a
child
Quando
um homem quiser (José Carlos Ary dos
Santos)
Tu que dormes a noite na
calçada de relento Numa cama de chuva com
lençóis feitos de vento Tu que tens o
Natal da solidão, do sofrimento És meu
irmão amigo És meu
irmão E tu que dormes só no pesadelo
do ciúme Numa cama de raiva com
lençóis feitos de lume E sofres o
Natal da solidão sem um queixume És
meu irmão amigo És meu
irmão
Tu que inventas ternura e
brinquedos para dar Tu que inventas bonecas e
combóios de luar E mentes ao teu filho por
não os poderes comprar És meu
irmão amigo És meu
irmão E tu que vês na montra a tua
fome que eu não sei Fatias de tristeza em
cada alegre bolo-rei Pões um sabor amargo
em cada doce que eu comprei És meu
irmão amigo És meu
irmão Natal é em
Dezembro Mas em Maio pode
ser Natal é em
Setembro É quando um homem
quiser Natal é quando nasce uma vida a
amanhecer Natal é sempre o fruto que
há no ventre da
Mulher.
Jesus
is just alright (Byrds)
Jesus is just all
right with me Jesus is just all right, Oh
yeah Jesus is just all right with
me Jesus is just all
right
I don't care what they may
know I don't care where they may
go I don't care what they may
know Jesus is just all right, oh
yeah Jesus is just all
right
I don't care what they may
say I don't care what they may
do I don't care what they may
say Jesus is just all right, oh
yeah Jesus is just all
right
Do, do,
do
Jesus is just all right with
me Jesus is just all right, Oh
yeah Jesus is just all right with
me Jesus is just all
right
Jesus is just all right with
me Jesus is just all right, Oh
yeah Jesus is just all right with
me Jesus is just all
right
White
Christmas (Diana Krall)
I'm dreaming of a
white Christmas Just like the ones I used to
know Where the treetops
glisten and children
listen To hear sleigh bells in the
snow
I'm dreaming of a white
Christmas With every Christmas card I
write May your days be merry and
bright And may all your Christmases be
white
I'm dreaming of a white
Christmas With every Christmas card I
write May your days be merry and
bright
Genérico
final
Tristeza, vai-te
embora Tristeza, pequena
morte Chega a noite, vai-se o
dia e assim há-de
desaparecer este pobre diabo
que eu sou, com calças
rotas e camisola
cosida Esperavas um milagre
nesta noite de Natal? A camisola
não recebeste As
calças não tas
deram Bem feito, para não
acreditares em
anjos.
Com amizade:
Davy Spillane, Kostia, Schönherz & Scott, David Arkenstone, George
Michael, Byrds, Gilberto Gil, Dianna Krall, Pedro Tamen, David-Mourão
Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, Mário e José-António
Moreira
Sejam felizes!,
pelo menos neste Natal e no resto dos Natais das vossas
vidas!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'