Sons da Escrita 141
 Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira. Discurso
da águas (Arsélio Martins)E
a ti, que foste o companheiro do companheiro, apontarei o poente do infinito, ou
apenas a luz da tarde em que brilham a rosa e o ouro, ou apenas a solidão
junto ao mar, ou apenas a notícia do amor entre as pequeníssimas
folhas dos choupos.A ti, que foste
companheiro do companheiro, apontarei o dia seguinte, um nascente vermelho, uma
nascente, ou apenas o cheiro da água corrente, ou apenas o lugar do novo
primeiro e original encontro para outra sagração da primavera, outro
início de luta.A ti, que foste
companheiro do companheiro, lerei a sina. Do passado ao futuro, acácia
batida pelo vento ou rasto de fragrância de louro colhido, vai devagar,
para que, o menino que também és, te possa
seguir.Isto não é um
discurso, mas eu sou aquele que fala. Olhem para mim. se puderem, vejam como eu
estou aqui entre outros, um entre
outros.Não vim fazer um discurso,
mas dar palavra às águas que nos atravessam, quando a emoção
galga das nuvens do peito para se sumirem como as ondas se somem nos areais
ressequidos em que nos esculpiram os
rostos.Não vim fazer um discurso.
Vim dar a um mar de palavras de água e são as líquidas palavras
por dizer que não me deixam
calar.Amanhã, o nosso rio retoma
o seu curso e, com ele, partem as palavras em que nos afogámos
hoje.Um homem com consciência,
que abandonou este nosso mundo para abraçar a loucura, colecciona palavras
na foz deste rio. Ele guarda-as porque guarda a areia em que foram escritas
pelos dedos da água nos bolsos do seu passado sem
futuro.E eu vim aqui para defender a
felicidade sem futuro: a felicidade de
hoje.Quem tudo faz em nome da
felicidade do futuro, sacrifica a felicidade de cada momento. Em nome da
felicidade do futuro, se forjam todas as tiranias do presente que tentam ser
tiranias de todos os hojes daqui até ao
futuro.Apresentam-nos a felicidade
como uma linha do horizonte e a linha do horizonte afasta-se à medida que
dela nos aproximamos.Eu vim aqui para
defender que a nossa felicidade de hoje é uma parte imprescindível da
felicidade do futuro. Pode não
ser, mas a escola em cada dia de hoje deve ser escola de pessoas felizes e (que)
é essa a escola que pode construir algum futuro que importe. Uma escola que
se faz em nome do futuro sem ter um presente, que valha a pena lembrar, é
uma velha tirana a estragar o presente em nome do futuro que está a
envenenar com um presente
envenenado.Eu quero viajar de hoje
até amanhã voando. A linha do meu voo é uma estaladura que
atravessa a chávena. Como um morcego fendendo a porcelana da noitinha,
assim eu quero sair do seio, do ninho de
hoje.Quem é que assim nos virou,
de tal forma que, em tudo o que façamos, estamos sempre na atitude de
alguém que parte?Eu quero viajar
pela noite entre os dias, sentindo o ar como quem atravessa as águas,
modulando todos os lados do corpo. como o peixe fusiforme atravessa desde
profundidade até à
luz.Sabemos das tuas partidas, mas
não sabemos que partido tomas: nem és peixe nem és carne,
dizem-me. Professor ou aluno? De que lado da vida te perdes?
Eu sou peixe e sou carne! Sou a carne
do peixe e sei que vivo para ser comido. Não há angústia nisto,
é o que vos digo. Quem é que me quer
pescar?Minha mãe pescou-me das
suas águas, olhou as minhas escamas brilhantes ao sol, limpou-me
cuidadosamente e educou-me para o ar. Só por isso não voltei para as
águas, neblinas do limbo. Foi a minha fraqueza que me inibiu as asas para
os vôos que ela planeou para
mim.Não usem anzóis
afiados!Podem usar palavras afiadas,
na escola (e não será assim nas
outras?).As pessoas usam as palavras,
sussuram palavras, segredam palavras, disparam palavras. Há palavras para
amar, para animar, para repreender, para replicar, para censurar; há
palavras para abraçar e há palavras para esmurrar; para esfaquear o
vento, as ondas mais altas, o mar. Há palavras para explicar as cores, os
odores.A escola é, antes de mais,
a galáxia das palavras e das imagens que as palavras desbotam. Usam-se
palavras como calhaus afiados. Há navalhas e palavras para ferir. Há
quem as dispare dos bolsos, onde as teve sempre
escondidas.Eu uso as palavras nas
palmas das mãos abertas, como calhaus rolados pelas águas de mil
marés vivas, palavras lavadas pela água, expostas para corar, ao sol
destas luzes.É a água do mar
que escorre pelas linhas da minha mão ou do rosto ou do corpo. Pela linha
da vida, pela linha da morte, pela linha do coração correm e morrem as
águas que galgaram as margens dos
olhos.E eu? Que faço
eu?Na escola, como peixe na água,
deixem-me respirar esta água, este
ar!Por estas águas troquei o meu
passado e o meu presente anunciado na palma da mão de minha mãe nos
gestos de me educar para o ar!Onde
estão os meus amigos? Quase como sombras longínquas, postais de Lisboa
e Porto, escritos apressadamente com tinta de água – Como vais?, que
é feito de ti?Que resposta tenho para
este passado?Mãe! Minha Mãe,
que quero eu senão voltar ao princípio para que tudo recomece e possa
acariciar os meus sonhos, os meus amigos que se perderam e são uma sombra
espelhada nestas águas em que me movo em vez de tudo o
resto?Mas os caminhos de regresso
estão todos fechados e é por isso que a escola é um mundo em que
me tenho de reconstruir e reconstruir os catelos no ar! Nem que sejam outros os
arquitectos, outros os alcaides, outros os
actores.Os estudantes que brilham no
escuro e me reflectem no que vale a pena ou valeu a pena, é aqui, Mãe,
entre as ruínas deste presente que, das águas desta escola, pescamos
os filhos da escola, os educamos para o ar e, que nos dera, Mãe, que lhes
pudéssemos dar as asas!Está
descansada, Mãe! Já ninguém se ri do teu filho, porque ele
envelheceu demais no discurso das águas e porque ele deixou, por momentos,
de ser quem era – o outro, aquele que não está no
espectáculo. Olham para ele e não o vêem, as palavras que ele
disse eram água pelos dedos
abertos.Amanhã, à luz do dia,
não haverá lembrança deste gesto insensato e todos viverão,
como antes, em nome do
futuro! Genérico
finalCom amizade: Davy
Spillane, Arsélio Martins e José-António
MoreiraAnd in the
endthe love you'll
takeis equal to the love you
make
Posted: Ter - Novembro 13, 2007 at 07:56 PM
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| 149
| 150
| Palavras que não foram ditas
| 105
| José-António Moreira
| 100
| José-António Moreira
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| Palavras que não foram ditas
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Ecos dos Sons da Escrita
Antes do Podcasting, já existia o Sons da Escrita. Artigo publicado por Ana Ferreira [1 de Setembro de 2005].
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
ScreenShots dos Tops do agregador iTunes [6 de Janeiro de 2006].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Anúncio do Encontro de Podcasters no Festival Black & White, na Universidade Católica do Porto [30 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
Entrevista conduzida por João Paulo Meneses aos Sons da Escrita, que foi para o ar na TSF, no programa 'rádio.com' [22 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Texto publicado no Blog 'A nossa rádio' — ouvintes com opinião, por Álvaro José Ferreira [19 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita foram destacados como Podcast da Semana pelo 'Podcasting sapo.pt' [13 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes em 30 de Setembro [30 de Setembro de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes em 31 de Outubro [1 de Novembro de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes em 30 de Novembro [1 de Dezembro de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast, qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
Os SONS da ESCRITA são um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' (sites que acolhem listagens de Podcasts) a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Depois, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
Agregadores
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a coleção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'
É o directório português de Podcasts de língua portuguesa (essencialmente, portugueses e brasileiros). Permite, além de ouvir os Podcasts, directamente, fazer a assinatura de cada um deles através do iTunes ou de outros agregadores para os quais tem links. Tem, também, um 'Top'.
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Published On: fev 21, 2008 08:11 PM
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