Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
O
voto secreto (José Luís
Peixoto)
Acordou cedo e ligeiramente
indisposto. Não se lembrava com nitidez dos sonhos que tinha tido, mas
sabia que tinha passado a noite a ter sonhos maus. Sentia ainda o peso negro
dessa noite a apertar-lhe o peito. Em cuecas e camisola de alças, agarrou
as costas de uma cadeira com as duas mãos e, em silêncio, pousou-a em
frente à janela do quarto. Sentou-se e ficou durante minutos a pensar, a
sentir e a analisar esse desconforto vago. Lentamente, despertava e encontrava
as diferenças entre a manhã real e aquilo que apenas sentia.
Lentamente, a neblina de incómodo que aquela noite lhe tinha deixado
dissipava-se na luz que entrava pela janela. Levantou-se num impulso. Entrou na
casa de banho. Despiu a camisola de alças, deixou que as cuecas lhe
deslizassem pelas pernas e olhou-se no espelho. O cabelo moldado pela almofada,
a pele vincada pelos lençóis e o corpo magro, desajeitado,
ridículo. Entrou desencantado na banheira. Levantou a cara na
direcção do chuveiro e ficou a sentir a água morna que lhe
escorria por toda a superfície da
pele.
Enrolado na toalha, entrou de novo
no quarto. Viu o telemóvel em cima da cómoda e decidiu não o
ligar ainda. Desligado, era inofensivo. Tinha escolhido na véspera a roupa
que iria usar. Estava pousada sobre o cadeirão da escrivaninha. Engomada e
perfumada. Depois de acertar o nó da gravata, desceu as escadas e encontrou
o pequeno almoço pronto sobre a mesa da sala de jantar. Pousou o guardanapo
sobre o colo e disse as primeiras palavras do dia à empregada que entrava e
saía com tabuleiros de biscoitos, sumo de laranja e leite morno. Fingiu que
comia, mas estava enjoado. Não tinha apetite. Limpou a boca com o
guardanapo e levantou-se. Procurou o motorista por várias divisões e
encontrou-o muito direito, com o boné apertado entre o braço e o peito
no corredor, junto à porta da rua. Fez-lhe sinal e saíram juntos. O ar
fresco da manhã. Os sons calmos da cidade numa manhã de domingo. Foi
já no carro que ligou o telemóvel. Ainda o segurava na palma da
mão quando começou a tocar. Não atendeu. Ao longo do caminho,
passava por cartazes com a sua cara. Naquela manhã, pareciam sozinhos e
tristes. Faltavam alguns metros para chegar à escola secundária onde,
havia tantos anos, tinha sido aluno. Os fotógrafos e os jornalistas
rodearam o carro. Quando saiu, usou o sorriso que era um movimento
automático dos músculos do rosto. Conhecia bem esse sorriso. O som dos
disparos das máquinas fotográficas. Muitas vozes ao mesmo tempo.
Acenou com o braço como se esse fosse um gesto que o protegia. Entrou pelos
corredores da escola a falar com toda a gente e a sorrir. Sempre a sorrir,
mostrou o cartão de eleitor e recebeu o boletim de voto. Entrou para a
cabine e o mundo parou. Encontrou a caneta no bolso. Olhou para o papel. As
palavras, os símbolos. Olhou para o nome do seu partido como se olhasse
para o seu próprio nome e, devagar, fez uma cruz noutro quadradinho. Saiu a
sorrir e, com o braço parado sobre a urna de voto, a segurar o papel
dobrado, ficou suspenso durante um momento longo, a sorrir para as fotografias
que o
cobriam.
One
(hu)man, one vote (Johnny Clegg & Savuka)
Bayeza abafana bancane
wema Bayeza abafana bancane
wema Baphethe iqwasha, baphethe
ibazooka Bathi "Sangena savuma
thina, Lapha abazange bengena abazali
bethu Nabadala, bayasikhalela thina ngoba asina
voti." (The young boys are
coming, the young boys are
coming. They carry homemade weapons and a
bazooka. They say "We have agreed to enter a
place that has never been entered
before by our parents or our
ancestors and they cry for us, for we do not
have the right to
vote.) Hayiyaah! The
west is sleeping in a fragile freedom Forgotten
is the price that was paid Ten thousand years of
marching through a veil of tears To break a few
links in these chains These things come to us by
way of much pain Don't let us slip back into the
dark On a visible but distant shore -- a new
image of man The shape of his own future, now in
his own hands -- he
says: Chorus: One
'man, one vote -- step into the future One 'man,
one vote -- in a unitary state One 'man, one
vote -- tell them when you see them One 'man,
one vote -- it's the only way Bayeza abafana
abancane (The young boys are
coming) Hayiyaah! In
the east a giant is awakening And in the south
we feel the rising tide The soul inside the
spark that gives breath to your life Can no
longer be made to hide These things come to us
by way of much pain Don't let us slip back into
the dark On a visible but distant shore -- a new
image of man The shape of his own future, now in
his own hands -- he
says: Chorus
O
tempo, subitamente solto (José Luís
Peixoto)
o tempo, subitamente solto pelas
ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade
a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei
antes de te conhecer. eram os teus olhos,
labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu
amava quando imaginava que amava. era a tua a
tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu
rosto. era a tua pele. antes de te conhecer,
existias nas árvores e nos montes e nas
nuvens que olhava ao fim da tarde. muito longe
de mim, dentro de mim, eras tu a
claridade.
Time
(Pink Floyd)
Ticking away the moments that
make up a dull day You fritter and waste the
hours in an offhand way Kicking around on a
piece of ground in your home town Waiting for
someone or something to show you the
way
Tired of lying in the sunshine staying
home to watch the rain You are young and life is
long and there is time to kill today And then
one day you find ten years have got behind
you No one told you when to run, you missed the
starting gun
And you run and you run to
catch up with the sun, but it's sinking Racing
around to come up behind you again The sun is
the same in a relative way, but you're
older Shorter of breath and one day closer to
death
Every year is getting shorter, never
seem to find the time Plans that either come to
naught or half a page of scribbled lines Hanging
on in quiet desperation is the English way The
time has gone, the song is over, thought I'd something more to
say
Home, home
again I like to be here when I
can When I come home cold and
tired It’s good to warm my bones beside
the fire Far away across the
field The tolling of the iron
bell Calls the faithful to their
knees To hear the softly spoken magic
spells.
Não
te pergunto de onde chegas (José Luís
Peixoto)
não te pergunto de onde
chegas?, porque sei para onde
vais. hoje é a hora exacta em que até
o vento até os pássaros
desistem. e a noite a teus pés é um
instante e um
destino.
não te pergunto onde
está o teu rosto, tantas vezes ocluso e
pisado sobre os ramos, onde está o teu
rosto? nem te peço que incendeies o teu
nome numa nuvem
nocturna, nem te
procuro.
és tu que me
encontras. ficas no rio que
passa, nada de um tempo que não
existe, nem correntes, nem pedra, nem
musgo, nem
silêncio.
Question
(Moody Blues)
Why do we
never get an answer / When we're knocking at the
door? With a thousand million
questions / About hate and death and
war.
It's where we stop
and look around us / There is nothing that we
need. In a world of persecution
/ That is burning in it's
greed.
Why do we never get
an answer / When we're knocking at the
door? Because the truth is hard
to swallow / That's what the wall of love is
for.
It's not the way that
you say it / When you do those things to
me. It's more the way that you
mean it / When you tell me what will
be.
And when you stop and
think about it / You won't believe it's
true. That all the love you've
been giving / Has all been meant for
you.
I'm looking for
someone to change my life. / I'm looking for a miracle in my
life. And if you could see what
it's done to me / To lose the the love I
knew Could safely lead me
through.
Between the
silence of the mountains / And the crashing of the
sea There lies a land I once
lived in / And she's waiting there for
me.
But in the grey of the
morning / My mind becomes
confused Between the dead and
the sleeping / And the road that I must
choose.
I'm looking for
someone to change my life. / I'm looking for a miracle in my
life. And if you could see what
it's done to me / To lose the the love I
knew Could safely lead me to /
The land that I once knew. To
learn as we grow old / The secrets of our
souls.
It's not the way
that you say it / When you do those things to
me. It's more the way you really
mean it / When you tell me what will
be.
Why do we never get an
answer / When we're knocking at the
door? With a thousand million
questions / About hate and death and
war.
It's where we stop
and look around us / There is nothing that we
need. In a world of persecution
/ That is burning in it's
greed.
Why do we never get
an answer / When we're knocking at the
door?
Genérico
final
Penso que o amor
é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o
absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada,
e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido
absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também
se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas
sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado,
não é fácil de fazer
permanecer.
Com
amizade: Davy Spillane, David Lanz & Paul Speer, Oysten Sevåg &
Lakki Patey, Johnny Clegg & Savuka, Pink Floyd, Moody Blues, José
Luís Peixoto e José-António
Moreira
And in
the end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'