Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Arte
poética (José Luís
Peixoto)
o poema não tem mais que o
som do seu sentido, a letra p não é a
primeira letra da palavra poema, o poema é
esculpido de sentidos e essa é a sua
forma, poema não se lê poema,
lê-se pão ou flor, lê-se
erva fresca e os teus lábios, lê-se
sorriso estendido em mil árvores ou
céu de punhais, ameaça, lê-se medo e
procura de cegos, lê-se mão de
criança ou tu, mãe, que dormes e me
fizeste nascer de ti para ser palavras que
não se escrevem, lê-se país e mar
e céu esquecido e memória, lê-se
silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio, lugar que
não se diz e que significa, silêncio do
teu olhar de doce menina, silêncio ao
domingo entre as conversas, silêncio depois de um beijo ou de uma flor
desmedida, silêncio de ti, pai, que morreste em tudo para só existires
nesse poema calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem. o poema não
é esta caneta de tinta preta, não é esta
voz, a letra p não é a primeira letra
da palavra poema, o poema é quando eu podia
dormir até tarde nas férias do
verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde
eu fui feliz e onde eu morri tanto, o poema
é quando eu não conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia
a letra p e comia torradas feitas no lume da
cozinha do quintal, o poema é aqui, quando
levanto o olhar do papel e deixo as minhas
mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas e
sem metáforas, que te amo, o poema será quando as
crianças e os pássaros se rebelarem e,
até lá, irá sendo sempre e
tudo. o poema sabe, o poema conhece-se e, a si
próprio, nunca se chama poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o
poema dentro de si é perfume e é fumo, é um menino que corre num
pomar para abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida,
é tudo o que quero aprender se o que quero
aprender é tudo, é o teu olhar e o que
imagino dele, é solidão e arrependimento, não são
bibliotecas a arder de versos contados porque isso são bibliotecas a arder
de versos contados e não é o poema, não é a raiz de uma
palavra que julgamos conhecer porque só podemos conhecer o que
possuímos e não possuímos nada, não é um torrão de
terra a cantar hinos e a estender muralhas
entre os versos e o mundo, o poema não
é a palavra poema porque a palavra poema
é uma palavra, o poema é a carne
salgada por dentro, é um olhar perdido na noite
sobre os telhados na hora em que todos dormem,
é a ultima lembrança de um afogado,
é um pesadelo, uma angustia, esperança. o poema não tem estrofes,
tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve
com letras, escreve-se com grãos de areia e
beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p não é
a primeira letra da palavra poema, a palavra
poema existe para não ser escrita como eu
existo para não ser escrito, para não
ser entendido, nem sequer por mim próprio,
ainda que o meu sentido esteja em todos os
lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas
mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que
existe porque me olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever
a palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu
sentido.
A
fábrica do poema (Adriana Calcanhoto)
Sonho o poema de arquitetura
ideal Cuja própria nata de
cimento Encaixa palavra por palavra, tornei-me
perito em extrair Faíscas das britas e
leite das
pedras. Acordo; E
o poema todo se esfarrapa, fiapo por
fiapo. Acordo; O
prédio, pedra e cal, esvoaça Como um
leve papel solto à mercê do vento e
evola-se, Cinza de um corpo esvaído de
qualquer sentido Acordo, e o poema-miragem se
desfaz Desconstruído como se nunca houvera
sido. Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das
almas E os ouvidos
moucos, Assim é que saio dos sucessivos
sonos: Vão-se os anéis de fumo de
ópio E ficam-me os dedos
estarrecidos. Metonímias,
aliterações, metáforas,
oxímoros Sumidos no
sorvedouro. Não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita No topo fantasma da
torre de vigia Nem a simulação de se
afundar no sono. Nem dormir
deveras. Pois a questão-chave
é: Sob que máscara retornará o
recalcado?
Ainda
que tu estejas aí (José Luís
Peixoto)
ainda que tu estejas aí e tu
estejas aí e eu esteja aqui estaremos sempre no mesmo sítio se
fecharmos os olhos serás sempre tu e tu que me ensinarás a nadar
seremos sempre nós sob o sol morno de julho
e o véu ténue do nosso silêncio será sempre
o teu e o teu e o meu sorriso a
cair
e a gritar de alegria ao mergulhar na
água ao procurar um abraço que não precisa de ser dado serão
sempre os teus e os teus e os meus cabelos molhados na respiração
suave das parreiras sempre as tuas e as tuas e
as minhas mãos que não precisam de se dar para se sentir ainda que tu
estejas aí e tu estejas aí e eu esteja aqui estaremos sempre juntos
nesta tarde de sol de julho a nadarmos sob o
planar sereno dos pombos no tanque pouco fundo da nossa horta sempre no tanque
fresco da horta que construíram para
nós para que na vida pudéssemos ser
mana e mana e mano
sempre
Here,
there and everywhere (George Martin/Celine
Dion)
To lead a better life I need my love
to be here...
Here, making each day of the
year Changing my life with a wave of her
hand Nobody can deny that there's something
there
There, running my hands through her
hair Both of us thinking how good it can
be Someone is speaking but she doesn't know he's
there
I want her everywhere and if she's
beside me I know I need never
care But to love her is to need her
everywhere Knowing that love is to
share
Each one believing that love never
dies Watching her eyes and hoping I'm always
there
I want her everywhere and if she's
beside me I know I need never
care But to love her is to need her
everywhere Knowing that love is to
share
Each one believing that love never
dies Watching her eyes and hoping I'm always
there
To be there and
everywhere Here, there and
everywhere
Quando
nasci (José Luís Peixoto)
quando
nasci. esperava que a vida. me trouxesse. a
terra. quando nasci. esperava que a vida. me
trouxesse. as árvores. e os pássaros.
e as crianças. quando nasci. tinha o mundo.
todo. depois dos olhos. depois dos
dedos. e não percebi. não percebi.
nada. nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão. em que estava.
quando
nasci.
Beware
of darkness (George
Harrison)
Watch out now,
take care Beware of falling
swingers Dropping all around
you The pain that often
mingles In your
fingertips Beware of
darkness
Watch out now,
take care Beware of the thoughts
that linger Winding up inside
your head The hopelessness
around you In the dead of
night
Beware of
sadness It can hit
you It can hurt
you Make you sore and what is
more That is not what you are
here for
Watch out now,
take care Beware of soft shoe
shufflers Dancing down the
sidewalks As each unconscious
sufferer Wanders
aimlessly Beware of
Maya
Watch out now, take
care Beware of greedy
leaders They take you where you
should not go While Weeping
Atlas Cedars They just want to
grow, grow and grow Beware of
darkness
Genérico
final
Há muitas
coisas que percebo que não sou, mas dizer exactamente o que sou não
consigo. Tento, dia-a-dia, ganhar o título de ser uma pessoa. E já
não é
pouco…
Com
amizade: Davy Spillane, Satori, Sky, Yanni, Adriana Calcanhoto, George
Martin/Celine Dion, George Harrison, José Luís Peixoto e
José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'