Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Aurora
boreal (António Gedeão)
Tenho
quarenta janelas nas paredes do meu
quarto. Sem vidros nem bambinelas, posso ver
através delas o mundo em que me
reparto. Por uma entra a luz do Sol, por
outra a luz do luar, por outra a luz das estrelas que andam no céu a
rolar. Por esta entra a Via Láctea como
um vapor de algodão, por aquela a luz dos homens, pela outra a
escuridão. Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza, pela da frente a beleza que inunda de canto a
canto. Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais, quatro arestas, quatro vértices, quatro pontos
cardeais. Pela redonda entra o sonho, que as
vigias são redondas, e o sonho afaga e embala à semelhança das
ondas. Por além entra a tristeza, por
aquela entra a saudade, e o desejo, e a humildade, e o silêncio, e a
surpresa, e o amor dos homens, e o
tédio, e o medo, e a melancolia, e essa fome sem remédio a que se
chama poesia, e a inocência, e a
bondade, e a dor própria, e a dor alheia, e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade, e o grande
pássaro branco, e o grande pássaro negro que se olham obliquamente,
arrepiados de medo, todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes, tudo alonga a sua sombra nas minhas quatro
paredes.
Oh janelas do meu quarto, quem
vos pudesse rasgar! Com tanta janela aberta,
falta-me a luz e o
ar.
She
came in through the bathroom window (Beatles)
She came in through the bathroom
window Protected by a silver
spoon But now she sucks her thumb and
wanders By the banks of her own
lagoon
Didn't anybody tell
her? Didn't anybody
see? Sunday's on the phone to
Monday, Tuesday's on the phone to
me
She said she'd always been a
dancer She worked at 15 clubs a
day And though she thought I knew the
answer Well I knew what I could not
say.
And so I quit the police
department And got myself a steady
job And though she tried her best to help
me She could steal but she could not
rob
Didn't anybody tell
her? Didn't anybody
see? Sunday's on the phone to
Monday, Tuesday's on the phone to me
Poema
do futuro (António
Gedeão)
Conscientemente escrevo e,
consciente, medito o meu
destino. No declive do tempo os anos
correm, deslizam como a água, até que
um dia um possível leitor pega num
livro e
lê, lê
displicentemente, por mero acaso, sem saber
porquê. Lê, e
sorri. Sorri da construção do verso
que destoa no seu diferente
ouvido; sorri dos termos que o poeta
usou onde os fungos do tempo deixaram cheiro a
mofo; e sorri, quase ri, do íntimo
sentido, do latejar
antigo daquele corpo imóvel,
exhumado da vala do
poema. Na História Natural dos
sentimentos tudo se
transformou. O amor tem outras
falas, a dor outras
arestas, a esperança outros
disfarces, a raiva outros
esgares. Estendido sobre a página, exposto
e descoberto, exemplar curioso de um mundo
ultrapassado, é tudo quanto
fica, é tudo quanto
resta de um ser que entre outros
seres vagueou sobre a
Terra.
The
future (Leonard
Cohen)
Give me back my
broken night / my mirrored room, my secret
life it's lonely here, /
there's no one left to
torture Give me absolute
control / over every living
soul And lie beside me, baby,
/ that's an order!
Give
me crack and anal sex / Take the only tree that's
left stuff it up the hole in
your culture Give me back the
Berlin wall / give me Stalin and St
Paul I've seen the future,
brother: it is
murder.
Things are
going to slide, slide in all
directions Won't be nothing /
Nothing you can measure
anymore The blizzard, the
blizzard of the world / has crossed the
threshold and it has
overturned / the order of the
soul When they said REPENT
REPENT / I wonder what they
meant When they said REPENT
REPENT / I wonder what they
meant When they said REPENT
REPENT / I wonder what they
meant.
You don't know
me from the wind / you never will, you never
did I was the little jew /
who wrote the Bible I've seen
the nations rise and fall / I've heard their stories, heard them
all but love's the only
engine of survival Your
servant here, he has been told / to say it clear, to say it
cold: It's over, it ain't
going any further And now the
wheels of heaven stop / you feel the devil's RIDING
crop Get ready for the
future: it is
murder.
There'll be the
breaking of the ancient / western
code Your private life will
suddenly explode / There'll be
phantoms There'll be fires on
the road / and a white man
dancing You'll see a woman /
hanging upside down her
features covered by her fallen gown / and all the lousy little
poets coming round / tryin'
to sound like Charlie
Manson and the white man
dancin'.
Give me back
the Berlin wall / Give me Stalin and St
Paul Give me Christ or give
me Hiroshima Destroy another
fetus now / We don't like children
anyhow I've seen the future,
baby: it is
murder.
Poema
do alegre desespero (António
Gedeão)
Compreende-se que lá
para o ano três mil e tal ninguém se
lembre de certo Fernão barbudo que plantava
couves em Oliveira do Hospital, ou da minha
virtuosa tia-avó Maria das Dores que tirou
um retrato toda vestida de veludo sentada num
canapé junto de um vaso com
flores. Compreende-se. E
até mesmo que já ninguém se lembre que houve três
impérios no Egipto (o Alto Império, o
Médio Império e o Baixo
Império) com muitos faraós, todos a
caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil, e
o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o
Heraclito, e o desfiladeiro das Termópilas,
e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez
mil, e os reis de barbas encaracoladas que eram
senhores de muitas terras, que conquistavam o
Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o
Lácio, e passavam a vida inteira a fazer
guerras, e quando batiam com o pé no
chão faziam tremer todo o palácio, e o
resto tudo por aí fora, e a Guerra dos Cem
Anos, e a Invencível
Armada, e as campanhas de
Napoleão, e a bomba de
hidrogénio, e os poemas de António
Gedeão. Compreende-se. Mais
império menos império, mais faraó
menos faraó, será tudo um
vastíssimo cemitério, cacos, cinzas e
pó. Compreende-se. Lá
para o ano três mil e tal. E o nosso
sofrimento para que serviu
afinal?
Desperado
(Eagles)
So long -
now. Ohh you're a hard
one. I know that you've got
your reasons. These things
that are pleasin'you Can hurt
you somehow.
Don't you
draw the queen of diamonds
boy She'll beat you if she's
able. You know the queen of
hearts is always your best
bet. Now it seems to me, some
fine things Have been laid
upon your table. But you only
want the ones That you can't
get.
Desperado, Ohhhh
you aint getting no
younger. Your pain and your
hunger, They're driving you
home. And freedom, ohh
freedom. Well that's just
some people talking. Your
prison is walking through this world all
alone.
Don't your feet
get cold in the winter
time? The sky won't snow and
the sun won't shine. It's
hard to tell the night time from the
day. And you're losing all
your highs and lows aint it
funny how the feeling
goes away...
Desperado, Why
don't you come to your
senses? come down from your
fences, open the gate. It may
be rainin', but there's a rainbow above
you. You better let somebody
love you. (let sombody love
you) You better let somebody
love you...ohhh..hooo before
it's too..oooo..
late.
O
Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos,
distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em
suma. O resto é
matéria. Daí,
que este arrepio, este
chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e
defrontá-lo, esta fresta de
nada aberta no vazio, deve ser
um intervalo.
Com
amizade: Davy Spillane, Jerry Goodman, Alchemorph Soundtracks, King Einstein,
Beatles, Leonard Cohen, Eagles, António Gedeão e
José-António
Moreira
Vá lá!
Sejam felizes! E se não puderem, sejam felizes
também!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'