Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Calçada
de Carriche (António
Gedeão)
Luísa sobe, sobe a
calçada, sobe e não pode que vai
cansada. Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. Saiu de casa de madrugada; regressa a casa
é já noite fechada. Na mão grosseira, de pele queimada, leva a
lancheira desengonçada. Anda,
Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a
calçada. Luísa é nova,
desenxovalhada, tem perna gorda, bem torneada. Ferve-lhe o sangue de afogueada;
saltam-lhe os peitos na caminhada. Anda,
Luísa. Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a
calçada. Passam magalas, rapaziada,
palpam-lhe as coxas, não dá por
nada. Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada. Chegou a
casa, não disse nada. Pegou na filha, deu-lhe a mamada; bebeu da sopa numa
golada; lavou a loiça, varreu a escada; deu jeito à casa desarranjada;
coseu a roupa já remendada; despiu-se à pressa, desinteressada; caiu
na cama de uma assentada; chegou o homem, viu-a deitada; serviu-se dela,
não deu por nada. Anda, Luísa.
Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a
calçada. Na manhã débil, sem
alvorada, salta da cama, desembestada; puxa da filha, dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa, desengonçada; anda, ciranda, desaustinada; range o
soalho a cada passada; salta para a rua, corre açodada, galga o passeio,
desce a calçada, chega à oficina à hora marcada, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa, larga que larga,
puxa que puxa, larga que larga; toca a sineta na hora aprazada, corre à
cantina, volta à toada, puxa que puxa, larga que larga, puxa que puxa,
larga que larga, puxa que puxa, larga que
larga. Regressa a casa é já noite
fechada. Luísa arqueja pela
calçada. Anda, Luísa, Luísa,
sobe, sobe que sobe, sobe a calçada, sobe que sobe, sobe a calçada,
sobe que sobe, sobe a calçada. Anda,
Luísa, Luísa, sobe, sobe que sobe, sobe a
calçada.
Sick
and tired (Cardigans)
sick, tired and
homeless with no one here to sing
for tired of being
weightless for all these looking good
boys
you can always say my attic has
its charm you can always say you did no major
harm you can always say that summer had its
charm and that you did no major
harm oh, spare me if you
please
sick, tired an
sleepless with no one else to shine
for sick of all my
distress but I won't show I'm still
poor
you can always say my attic has
its charm you can always say you did no major
harm you can always say that summer had its
charm and that you did no major
harm oh, spare me if you
please
symptoms are so
deep something here's so
wrong nothing is complete
nowhere to
belong symptoms are so
deep I think I'd better
stay here on my
own so spare me if you please
Poema
da terra adubada (António
Gedeão)
Por detrás das
árvores não se escondem faunos,
não. Por detrás das árvores
escondem-se os soldados com granadas de
mão. As árvores são belas com os
troncos dourados. São boas e largas para
esconder soldados. Não é o vento que
rumoreja nas folhas, não é o vento,
não. São os corpos dos soldados
rastejando no chão. O brilho súbito
não é do limbo das folhas verdes
reluzentes. É das lâminas das facas
que os soldados apertam entre os dentes. As
rubras flores vermelhas não são papoilas,
não. É o sangue dos soldados que
está vertido no chão. Não
são vespas, nem besoiros, nem pássaros a
assobiar. São os silvos das balas cortando
a espessura do ar. Depois os
lavradores rasgarão a terra com a
lâmina aguda dos arados, e a terra
dará vinho e pão e flores adubada com
os corpos dos
soldados.
Peace
on Earth (U2)
Heaven on
Earth, we need it now I'm
sick of all of this hanging around
Sick of sorrow, sick of the
pain I'm sick of hearing
again and again That there's
gonna be peace on Earth
Where I grew up there
weren't many trees Where
there was we'd tear them down
And use them on our enemies
They say that what you mock
Will surely overtake you
And you become a
monster So the monster will
not break you And it's
already gone too far You say
that if you go in hard You
won't get hurt
Jesus
can you take the time / To throw a drowning man a line / Peace on Earth
Tell the ones who hear no
sound / Whose sons are living in the ground
Peace on Earth
No whos or whys / No one
cries like a mother cries / For peace on Earth
She never got to say goodbye
/ To see the colour in his eyes
Now he's in the dirt / Peace
on Earth They're reading
names out over the radio / All the folks the rest of us won't get to know
Sean and Julia, Gareth, Ann,
and Breda / Their lives are bigger than any big idea
Jesus can you take the time
/ To throw a drowning man a line / Peace on Earth
Tell the ones who hear no
sound / Whose sons are living in the ground
Peace on Earth
Jesus and the song you wrote
/ The words are sticking in my throat
Peace on Earth
Hear it every
Christmas time But hope and
history won't rhyme So
what's it worth This peace
on Earth Peace on Earth
Peace on
Earth
Poema
para Galileo (António
Gedeão)
Estou olhando o teu retrato,
meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela
cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria
dos Ofícios.) Aquele retrato da Galeria dos
Ofícios da requintada Florença. Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia,
a Piazza della Signoria... Eu sei...Eu sei... As Margens doces do Arno às
horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileo Galilei!
Olha. Sabes? Lá em Florença está
guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra
que está! As voltas que o mundo dá! Se
calhar até há gente que pensa que entraste no
calendário. Eu queria agradecer-te,
Galileo, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhões
de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar — que disparate,
Galileo! — e jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a
menor hesitação — que os corpos caem tanto mais depressa quanto
mais pesados são. Pois não é
evidente, Galileo? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um
botão de camisa ou que um seixo de
praia? Esta era a inteligência que Deus nos
deu. Estava agora a lembrar-me, Galileo, daquela
cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua
frente um friso de homens doutos, hirtos, de
toga e de capelo a olharem-te
severamente. Estavam todos a ralhar contigo, que
parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo para a Humanidade e para a
Civilização. Tu, embaraçado e
comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios, e percorrias, cheio
de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de
sábios. Teus olhos habituados à
observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das
suas alturas e poisaram, como aves aturdidas — parece-me que estou a
vê-las -—, nas faces grávidas daquelas reverendíssimas
criaturas. E tu foste dizendo a tudo que sim,
que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências
desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a
Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia-noite louvores
à harmonia universal. E juraste que nunca
mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento,
livre e calma, aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias para eterna perdição da tua
alma. Ai,
Galileo! Mal sabiam os teus doutos juízes,
grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus
cadeirões de braços, andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por
segundo. Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração
cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens
ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade. Por isso estoicamente,
mansamente, resististe a todas as torturas, a todas as angústias, a todos
os contratempos, enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, foram
caindo, caindo, caindo, caindo, caindo sempre, e sempre, ininterruptamente, na
razão directa dos quadrados dos
tempos.
Bohemian
rhapsody (Queen)
Is
this the real life? Is this
just fantasy? Caught in a
landslide No escape from
reality Open your
eyes Look up to the skies and
see I'm just a poor boy, I
need no sympathy Because I'm
easy come, easy go little
high, little low Anyway the
wind blows, doesn't really matter to me, to
me
Mama, just killed a
man Put a gun against his
head Pulled my trigger, now
he's dead Mama, life had just
begun But now I've gone and
thrown it all away Mama,
ooo Didn't mean to make you
cry If I'm not back again
this time tomorrow Carry on,
carry on, as if nothing really
matters
Too late, my
time has come Sends shivers
down my spine Body's aching
all the time Goodbye
everybody — I've got to
go Gotta leave you all behind
and face the truth Mama, ooo
— (anyway the wind
blows) I don't want to
die I sometimes wish I'd
never been born at
all
I see a little
silhouetto of a
man Scaramouche, scaramouche,
will you do the
fandango? Thunderbolts and
lightning — very very frightening
me Galileo, Galileo, Galileo,
Galileo, Galileo Figaro —
magnifico
But I'm just
a poor boy nobody loves
me He's just a poor boy from
a poor family Spare him his
life from this
monstrosity Easy come easy go
— will you let me
go Bismillah! No — we
will not let you go — let him
go Bismillah! We will not let
you go — let him
go Bismillah! We will not let
you go — let me go Will
not let you go — let me go
(never) Never let you go
— let me go Never let
me go — ooo No, no, no,
no, no, no, no Oh mama mia,
mama mia, mama mia let me
go Beelzebub has the devil
put aside for me for
me for
me for
me
So you think you can
stone me and spit in my
eye? So you think you can
love me and leave me to
die? Oh baby - can't do this
to me baby Just gotta get out
- just gotta get right outta
here
Ooh yeah, ooh
yeah Nothing really
matters Anyone can
see Nothing really matters -
nothing really matters to
me Anyway the wind
blows...
Eu,
quando choro, não choro
eu. Chora aquilo que nos
homens em todo o tempo
sofreu. As lágrimas
são as minhas mas o choro
não é
meu.
Com amizade:
Davy Spillane, Nando Lauria, Michael Nyman, David Garrido, Cardigans, U2, Queen,
António Gedeão e José-António
Moreira
Vá lá!
Sejam felizes! E se não puderem, sejam felizes
também!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'