Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
Discurso
sobre a cidade (Daniel Filipe)
São
múltiplas as faces da cidade! Matinal ou
nocturna, para a conhecer é indispensável descobrir todos os seus
disfarces. Quem dela se abeira em busca do
rosto único e imutável, busca a simplicidade, que é engano, a
evidência no que é íntimo, misterioso,
oculto. Diversa e contraditória aos
olhos que a percorram com amor, nisso reside a sua maior grandeza e sua
força.
Exterior à cidade,
não a possuirás nunca! É
preciso esquecer, é preciso
aceitá-la, como um menino aceita o seio
de sua mãe. É preciso que lhes
dês um amor novo — um amor feito de conhecimento e de
dádiva. É preciso que as tuas veias
sejam as veias da cidade — e o sangue rubro, vivo, corra cantando nos teus
músculos mortais e aflore de sonho as pedras da
cidade. É preciso, afinal, que
faças parte da
cidade.
Um
homem na cidade (Gil do Carmo)
Agarro
a madrugada como se fosse uma
criança, uma roseira
entrelaçada, uma videira de
esperança. Tal qual o corpo da
cidade que manhã cedo ensaia a
dança de quem, por força da
vontade, de trabalhar nunca se
cansa. Vou pela rua desta
lua que no meu Tejo acendo
cedo, vou por Lisboa, maré
nua que desagua no
Rossio. Eu sou o homem da
cidade que manhã cedo acorda e
canta, e, por amar a
liberdade, com a cidade se
levanta. Vou pela estrada
deslumbrada da lua cheia de
Lisboa até que a lua
apaixonada cresce na vela da
canoa. Sou a gaivota que
derrota tudo o mau tempo no mar
alto. Eu sou o homem que
transporta a maré povo em
sobressalto. E quando agarro a
madrugada, colho a manhã como uma
flor à beira mágoa
desfolhada, um malmequer azul na
cor, o malmequer da
liberdade que bem me quer como
ninguém, o malmequer desta
cidade que me quer bem, que me quer
bem. Nas minhas mãos a
madrugada abriu a flor de Abril
também, a flor sem medo
perfumada com o aroma que o mar
tem, flor de Lisboa bem
amada que mal me quis, que me quer
bem.
Há
mais estrelas no céu (Daniel
Filipe)
Não sei quantas estrelas
tem o céu. Só sei, amigos, que no céu pesado deste inverno
portuense brilham agora mais estrelas. Misteriosamente aladas, vertem a sua luz
verde, vermelha, azul, por sobre a maré-cheia das coisas e pessoas. Quem
passa, ergue os olhos de espanto e maravilha. Só as crianças sabem o
que sabem: que as estrelas, por distantes ou próximas que estejam, são
sempre a porta aberta da revelação
anunciada.
O nome da rua já fala
das coisas do céu: Santa Catarina. É feminino, é doce, como o de
noiva ou irmã. Estrelas em Santa Catarina, vede! Olhos, que levam o ano
presos às contigências humanas, ei-los cheios da cor e da beleza
festivas da rua iluminada. Ah, o milagre inexplicado das coisas simplesmente
verdadeiras!
Anda no ar – o
quê? Mais estrelas, senhores. Mais estrelas para a nossa
imperfeição. A voz íntima diz um novo começo à velha
história: “Era outra vez...”. E somos, de novo, o príncipe
encantado, que só não tem orelhas de burro, porque perdeu com elas a
inocência.
Ah, senhores, amigos,
gente de toda a parte, comerciantes, engenheiros, filhos-família,
operários da construção civil: que bela coisa, as
estrelas! Olhai para elas, pedi por elas,
iluminai com elas o vosso coração e a vossa vida. Mesmo quando é
de tantos centos de vátios a sua luz acariciadora — como estas de
Santa Catarina — que coisa maravilhosa são as
estrelas!
Não
há estrelas no céu (Rui
Veloso)
Não
há estrelas no céu a dourar o meu
caminho, Por mais amigos que
tenha sinto-me sempre
sozinho. De que vale ter a
chave de casa para
entrar, Ter uma nota no bolso
pr'a cigarros e
bilhar?
A primavera da
vida é bonita de
viver, Tão depressa o
sol brilha como a seguir está a
chover. Para mim hoje é
Janeiro, está um frio de
rachar, Parece que o mundo
inteiro se uniu pr'a me
tramar!
Passo horas no
café, sem saber para onde
ir, Tudo à volta é
tão feio, só me apetece
fugir. Vejo-me à noite
ao espelho, o corpo sempre a
mudar, De manhã
ouço o conselho que o velho tem pr'a me
dar.
Vou por aí
às escondidas, a espreitar às
janelas, Perdido nas avenidas
e achado nas
vielas. Mãe, o meu
primeiro amor foi um trapézio sem
rede, Sai da frente por
favor, estou entre a espada e a
parede.
Não
vês como isto é duro, ser jovem não é um
posto, Ter de encarar o
futuro com borbulhas no
rosto. Porque é que tudo
é incerto, não pode ser sempre
assim, Se não fosse o
Rock and Roll, o que seria de
mim?
Não
há-á-á estrelas no
céu...
Um
menino e um cão (Daniel Filipe)
Na
minha rua, mora um menino magro e triste. Tem seis anos, conhece o b-a-ba e diz
que quer ser, quando for homem, maquinista de
combóios. Somo amigos de tu —
amigos verdadeiros, que trocam rebuçados por histórias do colégio
e falam de coisas que as pessoas crescidas não entendem. Porque eu, para o
menino magro e triste da minha rua solitária, não sou, graças a
Deus, uma pessoa crescida.
Quando saio
de casa de manhã cedo, o futuro maquinista de combóios vem à
janela dizer-me adeus. “‘Té
logo” — grita-me a sua vozinha frágil. “Não
t’esqueças dos bonecos”. Os
bonecos são o jornal infantil que lhe ofereço. Aceno-lhe amigavelmente
e vou à minha vida, que a Praça é longe e os
“eléctricos” são
raros.
Ora o meu menino triste estava
hoje mais triste do que nunca. E eu que estou sempre apressado, parei um pouco a
conversar com ele. Pois há lá coisa mais importante, senhores, do que
o sofrimento de um menino? Ao diabo, portanto, o “eléctrico”,
os deveres, o trabalho. Não arranco daqui sem saber a
verdade.
“Que foi
pedrinho?” (Ele não se chama assim, mas não se zanga).
“‘Tás a
chorar?” “Estava , sim
senhor”. “E
porquê?”. “Porque o cão
do Janeco foi apanhado p’la carroça. E agora o Janeco tem de pagar
para o tirar de lá”. Juro-lhes que
nunca o inferno foi mais dramático do que esse “lá” do meu
amigo Pedrinho. Eu, que apesar de toda a minha boa vontade sou um pobre adulto
sem imaginação, perguntei-lhe
desconsoladamente: “E
agora?”
O Pedrinho sorriu. E que
sorriso, Deus! Um raiozinho de sol a justificar o
dia. “A gente lá na escola
resolveu dar cada um cinco escudos. Depois paga e traz o ‘Tejo’ para
casa. Eu pedi ao meu pai que me desse o dinheiro, que eu não lhe peço
mais nada até às
férias”. Calou-se. “Mas
ainda faltam vinte. Sabes, é que há meninos que não podem dar
tanto. É por isso que estou triste. A senhora diz que se não se paga,
matam o
‘Tejo’”...
Ora que
pode um homem que nunca teve o cão da sua infância, perante o
mistério de um desgosto assim? Fiz uma festa ao Pedrinho e desandei rua
abaixo. O ‘Tejo’, a estas horas, já tem coleira nova e brinca
ao esconde-esconde na rua
sossegada.
Os
meninos do Huambo (Paulo de
Carvalho)
Com fios
feitos de lágrimas
passadas Os meninos do Huambo
fazem alegria Constroem
sonhos com os mais velhos de mãos
dadas E no céu descobrem
estrelas de magia Com os
lábios de dizer nova
poesia Soletram as estrelas
como letras E vão
juntando no céu como
pedrinhas Estrelas letras
para fazer novas palavras Os
meninos à volta da
fogueira Vão aprender
coisas de sonho e de
verdade Vão aprender
como se ganha uma
bandeira Vão saber o que
custou a liberdade Com os
sorrisos mais lindos do
planalto Fazem continhas
engraçadas de
somar Somam beijos com flores
e com suor E subtraem
manhã cedo por
luar Dividem a chuva miudinha
pelo milho Multiplicam o
vento pelo mar Soltam ao
céu as estrelas já
escritas Constelações
que brilham sempre sem
parar Os meninos à volta
da fogueira Vão aprender
coisas de sonho e de
verdade Vão aprender
como se ganha uma
bandeira Vão saber o que
custou a liberdade Palavras
sempre novas, sempre
novas Palavras deste tempo
sempre novo Porque os meninos
inventaram coisas novas E
até já dizem que as estrelas são do
povo Assim contentes à
voltinha da fogueira Juntam
palavras deste tempo sempre
novo Porque os meninos
inventaram coisas novas E
até já dizem que as estrelas são do
povo.
Quem
tiver sonhos, guarde-os bem
fechados — com naftalina
— num baú
inútil. Por mim, abdico
desses vãos
cuidados. Deixai-me ser
liricamente
fútil!
Estou
resolvido: Vou abrir
falência. Bandeira rubra
desfraldada ao vento: Hoje,
leilão! — Liquida-se a
existência, por retirada
para o
esquecimento…
Com
amizade: Davy Spillane, Celtas Cortos, Michael Garrison, David Van Thieghem, Gil
do Carmo, Rui Veloso, Paulo de Carvalho, Daniel Filipe e José-António
Moreira
Vá lá!
Sejam felizes! E, se não puderem, sejam felizes
também!
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'