Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira.
O
mito de Sísifo.1 (Albert Camus)
Os
deuses tinham condenado Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até
ao cume de uma montanha, de onde ele caía de novo, em consequência do
seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo
mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.
A acreditar em Homero, Sísifo era o
mais ajuizado e o mais prudente dos mortais. No entanto, segundo outra
tradição, tinha tendências para a profissão de bandido.
Não vejo nisto a menor contradição. As opiniões diferem
sobre os motivos que lhe valeram ser o trabalhador Inútil dos Infernos.
Censura-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deuses, pois
revelou os segredos deles. Egina, filha de Ásopo, foi raptada por
Júpiter. O pai espantou-se com esse desaparecimento e queixou-se dele a
Sísifo. Este, que estava ao corrente do rapto, propôs a Ásopo
contar-lhe o que sabia, com a condição de ele dar água à
cidadela de Carinto. Aos raios celestes, preferiu a bênção da
água. Por tal, foi castigado nos Infernos. Homero conta-nos também que
Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde suportar o
espectáculo do seu Império deserto e silencioso e enviou o deus da
guerra, que soltou a Morte das mãos do seu
vencedor. Diz-se ainda que, estando
Sísifo quase a morrer, quis, imprudentemente, pôr à prova o amor
da sua mulher. Ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepultura, para o
meio da praça pública. Sísifo encontrou-se nos infernos. E
aí, irritado com uma obediência tão contrária ao amor
humano, obteve de Plutão licença para voltar à terra e castigar a
mulher. Mas, quando viu de novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a
água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regressar à
sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os avisos de nada serviram.
Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos
sorrisos da terra. Foi necessário uma ordem dos deuses. Mercúrio veio
pegar no audacioso pela gola e, roubando-o às alegrias, levou-o à
força para os infernos, onde o seu rochedo já estava
pronto. Todos compreendem, que Sísifo
é o herói absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo
seu tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua
paixão pela vida valeram-lhe esse suplício indizível em que o seu
ser se emprega em nada terminar. É o preço que é necessário
pagar pelas paixões desta terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo
nos Infernos. Os mitos são feitos para que a imaginação os anime.
Neste, vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, que se
esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e ajudá-la a levar a
cabo uma subida cem vezes recomeçada; vê-se o rosto crispado, a face
colada à pedra, o socorro de um ombro que recebe o choque dessa massa
coberta de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo
empurram, a segurança bem humana de duas mãos cheias de terra. No
termo desse longo esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo
tempo sem profundidade, a finalidade está atingida e Sísifo vê
então a pedra resvalar em poucos instantes para esse mundo inferior de onde
será preciso trazê-la de novo para os cimos. E, então, desce
outra vez à planície. É
durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que
sofre tão perto das pedras já é, ele próprio, pedra! Vejo
esse homem descer outra vez, com um andar pesado mais igual para o tormento,
cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma
respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça,
essa hora é a hora da consciência. Nesses instantes em que ele
abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo
é superior ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo. E se
este mito é trágico, é porque o seu herói é consciente.
Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a cada passo a esperança de
conseguir o ajudasse? O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida
nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só
é trágico nos raros momentos em que ele se torna consciente.
Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a
extensão da sua miserável condição: é nela que ele
pensa durante a sua descida. A clarividência que devia fazer o seu tormento
consome, ao mesmo tempo, a sua vitória. Não há destino que
não se transcenda pelo desprezo.
The
climb (No Doubt)
Step by step I come
closer to reaching the top Every step must be
placed so that I don't fall off Looking down to
see about how much higher I am Another cool
wind comes through, brushes my skin The harder
I pust the tension does grow I gather my
thoughts the further and further I go With some
luck I just might keep on climbing So better to
climb than to face a fall
So high the
climb Can't turn back
now Must keep climbing up to the
clouds So high the
climb Can't turn back
now Must keep climbing up to the
clouds
Pulling myself up by a rop I
better my view The only thing in sight is what
I must do As I turned I could see myself
falling Which in return gave me strength for
the climb
Although many
failed I must now prevail with no
question Have no time to
stop Onward to the top of the
mountain And I can't turn back
now It's so very high but I can't turn back
now If I keep it up, I'm gonna make
it I'm so very close can't you
see
O
mito de Sísifo.2 (Albert Camus)
Se
a descida se faz assim na dor, em certos dias, pode também fazer-se na
alegria e esta palavra não é demais. Ainda imagino Sísifo
voltando para o seu rochedo, e a dor estava no começo. Quando as imagens da
terra se apegam de mais à lembrança, quando o chamamento da felicidade
se torna demasiado premente, acontece que a tristeza se ergue no
coração do homem: é a vitória do rochedo, é o
próprio rochedo. O imenso infortúnio é pesado de mais para se
poder carregar. São as nossas noites de Gethsemani. Mas as verdades
esmagadoras morrem quando são reconhecidas. Assim, Édipo obedece de
início ao destino, sem o saber. A partir do momento em que sabe, a sua
tragédia começa. Mas no mesmo instante, cego e desesperado, ele
reconhece que o único elo que o prende ao mundo é a mão fresca de
uma jovem. Uma frase desmedida ressoa então: “Apesar de tantas
provações, a minha idade avançada e a grandeza da minha alma
fazem-me achar que tudo está bem”. O Édipo de Sófocles,
como o Kirilov de Dostoievsky, dá assim a fórmula da vitória
absurda. A sabedoria antiga identifica-se com o heroísmo
moderno.
Não descobrimos o absurdo
sem nos sentirmos tentados a escrever um manual qualquer da
felicidade. “O quê, por caminhos
tão estreitos?...”. Mas só
há um mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra.
São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce
forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento
do absurdo nasça da
felicidade. “Acho que tudo está
bem”, diz Édipo, e essa frase é sagrada. Ressoa no universo
altivo e limitado do homem, ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo
foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a
insatisfação e o gosto das dores Inúteis. Faz do destino uma
questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria
silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo
é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu
tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao
seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhadas da terra. Chamamentos
inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso
necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombras
e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e o seu esforço
nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino
superior ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e
desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Neste
instante subtil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo,
regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de acções
sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua
memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem
humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite
não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda
rola.
I
missed again (Phil Collins)
So you
finally came right out and said it girl What
took you so long It was in your eyes, that
look's been there for far too long
I'm
waiting in line Would you say if I was
wasting my time Did I miss
again? I think I missed
again, I think about it from time to
time When I'm lonely and on my
own I try to forget and yet,
still rush to the
telephone
And I'm waiting in
line But would you say if I was wasting my
time Or did I miss
again I think I missed
again, Ohh I miss
again, I think I missed
again.
Well it feels like something you
want so bad And then you think you've got it,
but it's somethin’ you already had And
you can feel it all around you, but it's somethin’ you just can't
touch, And I can feel it coming at
me Yes I can feel it coming at
me
Aaw, did I miss
again? I think I missed
again, Ohh I missed
again I think I missed
again,
Seems I’m waiting in line,
but would you say if I was wasting my
time Did I miss
again? I think I missed
again Ohh I missed
again I think I missed
again,
Ohh I missed
again I think I missed
again, Ohh I missed
again I think I missed
again.
O
mito de Sísifo.3 (Albert
Camus)
Deixo Sísifo no sopé
da montanha! Encontramos sempre o nosso
fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta
os rochedos. Ele também julga que tudo está
bem. Esse universo, enfim, sem dono, não
lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada
estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um
mundo. A própria luta para atingir os píncaros, basta para encher o
coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo
feliz.
A miséria impediu-me de
acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a
história não é tudo e que não há vergonha alguma em
querer ser
feliz.
The
long and winding road (John Berry)
The
long and winding road That leads to your
door Will never
disappear I've seen that road
before It always leads me
here leads me to your
door.
The wild and windy
night That the rain washed
away Has left a pool of
tears Crying for the
day. Why leave me standing
here? Let me know the
way.
Many times I've been
alone And many times I've
cried, Anyway you'll never
know The many ways I've
tried.
But still they lead me
back To the long, winding
road You left me standing
here A long, long time
ago Don't leave me waiting
here Lead me to your
door.
But still they lead me
back To the long winding
road You left me standing
here A long, long time ago
(ohhh) Don't keep me waiting
here Lead me to your
door.
Eu
amo a vida, eis a minha verdadeira
fraqueza. Amo-a tanto, que
não tenho nenhuma imaginação para o que não for
vida.
Com amizade:
David Spillane, Klauz Schulte, No Doubt, Phil Collins, John Berry, Albert Camus
e José-António
Moreira.
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'