Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
Carta
de Milfontes (Al Berto) Foi em 1978, no
Verão, que te conheci. Nesse ano, num dos poemas de «doze moradas de
silêncio» citei Rilke: «Uma só coisa é necessária:
a solidão, a grande solidão interior. Caminhar em si próprio e,
durante horas, não encontrar ninguém — é a isto que é
preciso chegar.» Depois, a paisagem onde
nos encontrámos desapareceu, a pouco e pouco, num desfocado adeus. Eu
escrevia, fechado num quarto de pensão, e tu retiravas-te do meu
quotidiano. Morrias longe de mim. O corpo que
hoje regressa a Milfontes já não é o corpo esplêndido que
conheceste. Se há coisas na vida que contam com o tempo, são a amizade
e a velhice. (O tempo fez-me perder a primeira, enquanto acentuava a
segunda.) O olhar embaciou-se para o que me
rodeia. Hoje, sem ti, já não consigo pressentir a sombra
magnífica da noite sobre o rio. Nada se acende em mim ao escrever-te esta
carta. Só a foz do rio parece guardar a
memória duma fotografia há muito rasgada. O vento, esse, persegue a
melancolia dos passos pelas dunas. É
possível que os verões ainda sejam o que eram... com os corpos
estendidos ao sol, e a oferenda de um sorriso malicioso a confundir-se com o
marulhar das águas. Mas ninguém
possui verdadeiramente alguma coisa. As coisas do mundo pertencem a todos e,
sobretudo, a quem aprendeu a nomeá-las. E eu já não consigo
nomear nada. Não me lembro sequer de um nome que resuma o movimento
desastroso dos dias. O teu rosto deixou de se
acender na ilusão de te possuir mais uma
noite. Nada evoca esse tempo de frémitos
de asas sobre a pele. Nenhum rumor do rio sobe até mim. Nenhuma ferida
ficou por sarar. Deixei que os ventos e as
chuvas apagassem o desejo no rastro dos répteis incandescentes. Sinto-me
como a haste quebrada da urze ao abandono nas areias varridas pelo
oceano. Contemplo as dunas, o casario contra
a noite que se fecha, as luzes, o rio, as sombras das pessoas, o mar como uma
lâmina sob a lua — e a ausência alastra em mim,
cortante. Sento-me onde, dantes, me sentava
contigo, perto do farol. O que me rodeia move-se no interior surdo das suas
próprias sombras. É um movimento invisível através de
territórios que o olhar mal assinala. Concentro a minha atenção
nesses lugares que a luz não pode alcançar. Lugares escuros onde se
escondem receios antigos e
desilusões. Mantenho-me imóvel,
tacteio o teu rosto diluído na salina claridade do
entardecer. Adormeço ou começo a
subir o rio para fugir à imensa noite do
mar. ... Escreve-me,
peço-te, enquanto a tua imagem permanece nítida perto de
mim.... Vou prosseguir viagem assim que o dia
despontar e o som do teu nome, gota a gota, se insinue junto ao
coração.
Love
letters (Alyson Moyet)
Love letters
straight From your
heart Keep us so
near While
apart
I'm not alone in the
night When I can have all the
love That you
write I memorize every
line And I kiss the
name That you
sign And darling
then I read
again Right from the
start Love letters
straight From your
heart
I memorize every
line And I kiss the
name That you
sign And darling
then I read
again Right from the
start Love letters
straight From your
heart
Aprendiz
de viajante (Al Berto)
Um dia li num
livro: «Viajar cura a
melancolia». Creio que, na altura,
acreditei no que lia. Estava doente, tinha quinze anos. Não me lembro da
doença que me levara à cama, recordo apenas a impressão que me
causara, então, o que acabara de ler. Os
anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes — e, ainda hoje,
não sei se viajar cura a melancolia. No entanto, persiste em mim aquela
estranha impressão de que lera uma
predestinação. A verdade é que
desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades
inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro
vezes e conheci corpos que deambulavam pela vasta noite... Avancei sempre, sem
destino certo. Tudo começou a seguir
àquela doença. Era ainda noite
fechada. Levantei-me e parti. Fui em direcção ao mar. Segui a
rebentação das ondas, apanhei conchas, contornei falésias;
afastei-me de casa o mais que pude. Vi a manhã erguer-se, branca, e
envolver uma ilha; vi crepúsculos e noites sobre um rio, amei a
existência. Dormia onde calhava: no meio
das dunas, enroscado no tojo, como um animal; dormia num pinhal ou onde me
dessem abrigo» em celeiros, garagens abandonadas, uma
cama... E quando regressei, regressei com a
ânsia do eterno viajante dentro de
mim. Hoje sei que o viajante ideal é
aquele que, no decorrer da vida, se despojou das coisas materiais e das tarefas
quotidianas. Aprendeu a viver sem possuir nada, sem um modo de vida. Caminha,
assim, com a leveza de quem abandonou tudo. Deixa o coração
apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma, no puro sopro da madrugada, se
recompõe das aflições da
cidade. A pouco e pouco, aprendi que nenhum
viajante vê o que outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares,
vêem. O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo, é único,
não se confunde com nenhum
outro. Viajar, se não cura a melancolia,
pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e
inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a
terra. O viajante aprendeu, assim, a cantar a
terra, a noite e a luz, os astros, as águas e a treva, os peixes, os
pássaros e as plantas. Aprendeu a nomear o
mundo. Separou com uma linha de água o
que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem
não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o,
seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma — estagna o
pensamento. Por tudo isto, o viajante
escolheu o lado nómada da linha de água. Vive ali, e canta —
sabendo que a vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu
canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao
Universo.
Melancholy
man (Moody Blues)
I'm a melancholy man,
that's what I am, All the world surrounds me,
and my feet are on the ground. I'm a very
lonely man, doing what I can, All the world
astounds me and I think I understand That
we're going to keep growing, wait and
see.
When all the stars are falling
down Into the sea and on the
ground, And angry voices carry on the
wind, A beam of light will fill your
head And you'll remember what's been
said By all the good men this world's ever
known. Another man is what you'll
see, Who looks like you and looks like
me, And yet somehow he will not feel the
same, His life caught up in misery, he
doesn't think like you and me, 'Cause he
can't see what you and I can
see.
Escrevo-te
a sentir (Al Berto)
escrevo-te a sentir
tudo isto e num instante de maior lucidez
poderia ser o rio as cabras escondendo o
delicado tilintar dos guizos nos sais de prata
da fotografia poderia
erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados
junto ao
fogo e deambular trémulo com as
aves ou acompanhar a sulfúrica borboleta
revelando-se na saliva do lábios poderia
imitar aquele pastor ou confundir-me com o
sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua
imobilidade
habito neste país de
água por engano são-me
necessárias imagens radiografias de
ossos rostos
desfocados mãos sobre corpos impressos
no papel e nos
espelhos repara nada
mais possuo a não ser este recado que
hoje segue manchado de finos bagos de
romã repara como
o coração de papel amareleceu no esquecimento de te
amar
I've
got a feeling (Barclay James
Harvest)
And though I think of you
tonight I cannot hope to hold you
tight But I've got this feeling in my heart
And when tomorrow I'll be
gone How can I hope to carry
on? I've got a feeling in my heart
I can no longer
see What's making things go
wrong You've stayed away
before It always seems so long
But wherever you
go Whatever you
do You know I'll always be with
you 'Cause I've got this feeling deep in my
heart
I can no longer
see What's making things go
wrong You've stayed away
before It always seems so long
But wherever you
go Whatever you
do You know I'll always be with
you 'Cause I've got this feeling deep in my
heart
Baby, you're in my
heart
Sento-me
à mesa de trabalho. Inclino a cabeça para a memória dos livros
que li e amei. Com um gesto de
ave pouso a mão sobre o papel. E no interior da sombra da mão,
começo a escrever: era uma
vez...
Com amizade:
David Spillane, Air, Alyson Moyet, Moody Blues, Barclay James Harvest, Al Berto
e José-António
Moreira And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'