Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
O
limpa-palavras (Álvaro de
Magalhães) Limpo-palavras. Recolho-as
à noite, por todo o lado: a palavra
bosque, a palavra casa, a palavra flor. Trato
delas durante o dia enquanto sonho
acordado. A palavra solidão faz-me
companhia. Quase todas as
palavras precisam de ser limpas e
acariciadas: a palavra céu, a palavra
nuvem, a palavra mar. Algumas têm mesmo
de ser lavadas, é preciso raspar-lhes a
sujidade dos dias e do mau
uso. Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas, pelo peso das coisas
que trazem às
costas. A palavra pedra pesa como uma
pedra. A palavra rosa espalha o perfume no
ar. A palavra árvore tem folhas, ramos
altos. Podes descansar à sombra
dela. A palavra gato espeta as unhas no
tapete. A palavra pássaro abre as asas
para voar. A palavra coração
não pára de bater. Ouve-se a
palavra canção. A palavra vento
levanta papéis no ar e é preciso
fechá-la na arrecadação. No
fim de tudo, voltam os olhos para a luz e
vão para longe,leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à
terra, outras vezes nascidas pela minha
mão: a palavra estrela, a palavra ilha,
a palavra pão. A palavra obrigado
agradece-me. As outras
não. A palavra adeus
despede-se. As outras já lá
vão, belas palavras lisas e lavadas como
seixos do rio: a palavra ciúme, a
palavra raiva, a palavra frio. Vão
à procura de quem as queira dizer de
mais palavras e de novos sentidos Basta
estenderes um braço para apanhares a
palavra barco ou a palavra amor. Limpo
palavras. A palavra búzio, a palavra
lua, a palavra palavra. Recolho-me à
noite, trato delas durante o dia. A palavra
fogão cozinha o meu jantar. A palavra
brisa refresca-me A palavra solidão
faz-me
companhia.
Loneliness
is just a word (Chicago Transit Authority)
You don't know how bad it's
been Since you been
gone Let me tell you how bad it's
been Since you been
gone People speak but I don't
hear Things all around seem to be
unclear I don't
know What will become of the love you turned
off What will become of the need you turned
off
Loneliness is just a
word So I’ve been
told Loneliness becomes a
world That's very
cold People stare but they don't
see All of the hurt that's inside
me I don't
know
O
caçador de borboletas (Álvaro
Magalhães)
Sorridente, ao nascer
do dia, ele sai de casa com a sua
rede. Vai caçar borboletas, mas fica
preso à frescura do rio que lhe mata a
sede ou ao encanto das flores do
prado. Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer
lado e antes de caçar já foi
caçado.
À noite, regressa a
casa cansado e estranhamente
feliz porque a sua caixa está
vazia, mas diz sempre,
suspirando: Que grande caçada e que
belo dia!
Antes de entrar, limpa as
botas num tapete de compridos
pêlos e sacode distraído,
as muitas borboletas de mil
cores que lhe pousaram nos ombros, nos
cabelos.
Butterflies
(Natalia Imbruglia)
Swallow purple
terror candy Don't forget to
breathe Sickened by the
wanting And drowning from the
need This dichromatic
vision Of one who does not
care To sipping cocktail
sedatives Two months to hide
somewhere Butterflies,
butterflies Cut the stomach out
and Hand it
over Butterflies,
butterflies My heart will
be The bridge
that You walk
over
The wolf
has Caught the
chicken And now I feel
unsteady Emotions on the blink
again So kick
me When you're
ready Here lies a violet
coffin The death of my
control Along with all my
skeletons They put them in a
hole
Sickened by the
notion I give myself
again Choking on the
bullet The gun that's found a
friend So raise your glass to
sorrow And drink to all the
pain Tie a silver ribbon
around The pieces that
remain
O
brincador (Álvaro
Magalhães)
Quando for grande,
não quero ser médico, engenheiro ou
professor. Não quero trabalhar de
manhã à noite, seja no que for.
Quero brincar de manhã à noite,
seja no que for. Quando for grande, quero
ser um brincador. Ficam, portanto, a saber:
não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um
professor. Tenho mais em que pensar e muito mais que
fazer. Tenho tanto que brincar, como brinca
um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que
imaginar, como imagina um imaginador... A
mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente
crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”.
Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também
foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim.
Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar,
até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca
verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão
escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito
dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as
palavras.”
Jokerman
(Caetano Veloso)
Standing on the waters
casting your bread While the eyes of the idol
with the iron head are glowing. Distant ships
sailing into the mist, You were born with a
snake in both of your fists while a hurricane was blowing.
Freedom just around the corner for
you But with the truth so far off, what good
will it do? Jokerman dance to the nightingale
tune, Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman. So swiftly the sun sets
in the sky, You rise up and say goodbye to no
one. Fools rush in where angels fear to
tread, Both of their futures, so full of
dread, you don't show one. Shedding off one
more layer of skin, Keeping one step ahead of
the persecutor within. You're a man of the
mountains, you can walk on the
clouds, Manipulator of crowds, you're a dream
twister. You're going to Sodom and
Gomorrah But what do you care? Ain't nobody
there would want to marry your sister. Friend
to the martyr, a friend to the woman of
shame, You look into the fiery furnace, see
the rich man without any name. Well, the Book
of Leviticus and Deuteronomy, The law of the
jungle and the sea are your only teachers. In
the smoke of the twilight on a milk-white
steed, Michelangelo indeed could've carved
out your features. Resting in the fields, far
from the turbulent space, Half asleep near
the stars with a small dog licking your
face. Well, the rifleman's stalking the sick
and the lame, Preacherman seeks the same,
who'll get there first is
uncertain. Nightsticks and water cannons,
tear gas, padlocks, Molotov cocktails and
rocks behind every curtain, False-hearted
judges dying in the webs that they spin, Only
a matter of time 'til night comes steppin'
in. It's a shadowy world, skies are slippery
gray, A woman just gave birth to a prince
today and dressed him in scarlet. He'll put
the priest in his pocket, put the blade to the
heat, Take the motherless children off the
street And place them at the feet of a
harlot. Oh, Jokerman, you know what he
wants, Oh, Jokerman, you don't show any
response.
Estamos
no inverno, entristece a luz e
eu levo as pequenas coisas do
dia para dentro da casa e da
página muito branca onde
brilha agora o Sol. O gato
adormeceu junto ao
fogão, está a sonhar
com a primeira serradura; a
mãe espreita da velha
fotografia e parece ensaiar um
passo mas continua parada; no
tecto, sobre a cabeça, a
lâmpada vigia-me, como olho
de um insecto. Enquanto lá
fora passa o vento que leva
para longe o nosso tempo e não traz de
volta, tento abrir , com a chave
de palavras, a porta fechada do
meu reino perdido.
Com
amizade: David Spillane, Dan Gibson, Chicago Transit Authority, Natalia
Imbruglia, Caetano Veloso, Edite Morujão, Álvaro Magalhães e
José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'