Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
A
casa do ferreiro (Arsélio
Martins)
1. A minha vontade naquele dia
de inverno era fugir. Mas a minha mãe é quem decide quando é que
as foicinhas precisam de ser afiadas no ferreiro. E para mandar um filho a casa
do ferreiro são precisas palavras cortantes. De modo a que se vá
até lá num pé e se volte noutro. De modo a que se voe. De modo a
que a bicicleta vá tão depressa como se se evaporasse e voasse como a
poeira voa quando se solta, partícula a partícula, sob os cascos das
bestas aladas. Ela disse quase meigamente: Vai lá! O gado pode
esperar. Só me lembro de ter trepado
para a encosta da bicicleta e, com um impulso vigoroso do pé no pedal,
arrancar dali para o lameiro, seguido pelo aplauso das poeiras
estremunhadas. Ainda hoje me pergunto o que
terá acontecido. Mas esqueci-me de todas as chaves que abrem a porta da
aldeia.
2. Outras vezes, a memória
é assaltada pelas pedras da forja. Vejo-as a bater asas incandescentes e
a voar porta fora. E ouço ainda o uivo negro, o silvo do sopro mineral
sobrevoando o largo do ferreiro, quando se molda o malho do guerreiro e se
amolam as navalhas para o combate que sangra o campo de batalha esventrado por
uma mágoa que cresce até ser mais que
dor. Vejo nitidamente os olhos criminosos
que brilham na escuridão e nem em sonhos quero saber de quem são,
raiados de golfadas de sangue. Há mortos frescos a dormir na minha
infância. Talvez antigos animais
domésticos.
Sledgehammer
(Peter Gabriel)
you could have a steam
train if you'd just lay down your tracks you
could have an aeroplane flying if you bring your blue sky
back all you do is call me, I'll be anything
you need you could have a big dipper going up
and down, all around the bends you could have
a bumper car, bumping this amusement never
ends I want to be your sledgehammer, why
don't you call my name oh let me be your
sledgehammer, this will be my testimony show
me round your fruitcage 'cos I will be your honey
bee open up your fruitcage where the fruit is
as sweet as can be I want to be your
sledgehammer, why don't you call my
name you'd better call the sledgehammer put
your mind at rest I'm going to be-the
sledgehammer this can be my testimony I'm
your sledgehammer, let there be no doubt about
it sledge sledge
sledgehammer I've kicked the habit, shed my
skin this is the new stuff I go dancing in,
we go dancing in oh won't you show for me and
I will show for you show for me, I will show
for you yea, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, I
do mean you, only you you've been coming
through going to build that
power build, build up that power,
hey I've been feeding the
rhythm going to feel that power, build in
you come on, come on, help me
do yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah,
yeah, you I've been feeding the
rhythm it's what we're doing,
doing all day and
night
A
casa do ferreiro (Arsélio
Martins)
3. À chuva e ao vento, a
vida corre numa estrumeira nevoenta que a criação debica,
infatigável, como se fosse algodão doce este nevoeiro
sólido. Na casa do ferreiro o
pátio é um poço fundo e escuro, as paredes negras de
carvão. A luz é ateada pelo vento.
Dirás que é réstea solar um resto da labareda da fogueira
avivada pelo fole ofegante na tentativa vã de moldar e soldar a asa de
cobre nas costas do santo, de costas em seu nicho de glória. Polida
até dar luz; a asa de cobre cega o santo e a senha e abre uma
nesga. Uma filha asmática busca ali o
consolo de ver o ar suspenso em suas gotículas de
luz.
Light
of hope (Chris Rea)
This is the garden
that I know Ten thousand summers wait me
here You lead and I will
follow Your heart is mine
tomorrow Into your womb I fade
away
And while she
laughs Your pride is turning into
snow And melting on the face of this light of
hope Shine on, light of
hope Light of
hope
And while she
laughs Your pride is turning into
snow And dancing on the graves of what you
thought you used to know And in this garden I
will burn my callous robes And forever love
my darling Light of
hope
A
casa do ferreiro (Arsélio
Martins)
4. Eu vi como a família
do ferreiro adora todos os seus bichos, quase todos aleijados ou com maleita que
não podem esconder. Mais que todas, a
família do ferreiro adora os seus animais domésticos. Como noutras
casas, também a prole do ferreiro cata pulgas e piolhos, limpa e escova.
Acaricia mansamente os animais tão docemente como os mata para a festa
canibal. Matam a fome das crianças sem memória com a carne dos
amigos. Em casa do ferreiro, as bestas
são mais úteis e, por isso, mais amadas. Nelas, o ferreiro
experimenta a eficácia das ferramentas: Aguilhões supliciais que
sangram nos costados domésticos como bandarilhas na arena da casa. Aquelas
facas curvas de poda que desbastam os cascos até que cada pegada na
estrumeira se encha de sangue. Cheio de medo
e repugnância, vejo a gratidão animalesca nos olhos postos na
manjedoura que cheira a milho verde e a sal
grosso.
Pigs
- 3 different ones (Pink Floyd)
Big man,
pig man, ha ha charade you are. You well heeled
big wheel, ha ha charade you are. And when your
hand is on your heart, You're nearly a good
laugh, Almost a
joker, With your head down in the pig
bin, Saying "Keep on
digging." Pig stain on your fat
chin. What do you hope to
find. When you're down in the pig
mine. You're nearly a
laugh, You're nearly a
laugh But you're really a
cry.
Bus stop rat bag, ha ha charade you
are. You fucked up old hag, ha ha charade you
are. You radiate cold shafts of broken
glass. You're nearly a good
laugh, Almost worth a quick
grin. You like the feel of
steel, You're hot stuff with a
hatpin, And good fun with a hand
gun. You're nearly a
laugh, You're nearly a
laugh But you're really a
cry.
Hey you
Whitehouse, Ha ha charade you
are. You house proud town
mouse, Ha ha charade you
are You're trying to keep our feelings off the
street. You're nearly a real
treat, All tight lips and cold
feet And do you feel
abused? You gotta stem the evil
tide, And keep it all on the
inside. Mary you're nearly a
treat, Mary you're nearly a
treat But you're really a
cry.
Genérico
final 5. Eu vi a pá de
bicos aguçados da forquilha marcada na barriga de uma cadela meio cega
como ordem de expulsão de uma estrangeira. Em casa do
ferreiro. Não
tínhamos ensinado o horror e ter piedade e compaixão é coisa
que não se ensina. Bastará compreender, com medo, o pavor que vai nos
olhos da besta? Uivando e
batendo pés em roda a família cega lapida em vida um céu de
pó. Muito tempo passado e no chão sangrado ainda sobra um lombo de
sangue seco. Entretanto, os bravos guerreiros voltaram a zurzir os tambores de
cobre martelado.
Com
amizade: Davy Spillane, Suzanne Ciani, Peter Gabriel, Chris Rea, Pink Floyd,
Arsélio Martins e José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'