Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
O
amor em visita 1 (Herberto
Helder)
Dai-me uma jovem mulher com a
sua harpa de sombra e o seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Os seus ombros beijarei, a pedra
pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com a gravidade de
dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Os seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar, uma mulher com quem beber e
morrer. Quando fora se abrir o instinto da
noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão
for invadido pelas ondas, o seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos
palpitantes, ele — imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor. O seu corpo
arderá para mimssobre um lençol mordido por flores com água. Ah!
em cada mulher existe uma morte silenciosa; e enquanto o dorso imagina, sob os
nossos dedos, os bordões da melodia, a morte sobe pelos dedos, navega o
sangue, desfaz-se em embriaguez dentro do coração
faminto. — Ó cabra no vento e na
urze, mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal
põe o espírito, mulher de pés no branco, transportadora da morte
e da alegria. Dai-me uma mulher tão
nova como a resina e o cheiro da terra. Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar da minha carne uma videira de sangue, cantarei o seu sorriso
ardendo, as suas mamas de pura substância, a curva quente dos cabelos.
Beberei a sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um
ligeiro pescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas, dentro da sua face
estará a pedra da noite. — Então cantarei a exaltante alegria da
morte. Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada da
sua órbita viva. — Porém, tu sempre me
incendeias. Esqueço o arbusto impregnado
de silêncio diurno, a noite, imagem pungente com o seu deus esmagado e
ascendido. — Porém, não te esquecem meus corações de
sal e de brandura. Entontece meu hálito com a sombra, a tua boca penetra a
minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe na sua
distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se
desfibra — invento para ti a música, a loucura e o mar. Toco o peso
da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E eu sei que
cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta, o
corpo iluminado pelas luzes longas. Digo: eu sou a beleza, oseu rosto e o seu
durar. Os teus olhos transfiguram-se, as tuas mãos descobrem a sombra da
minha face. Agarro a tua cabeça, áspera e luminosa, e digo: ouves, meu
amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo — eu sou a
beleza inteira, a tua vida o deseja. Para mim erguem-se os teus olhos de longe.
Tu própria me duras em minha velada
beleza. Então sento-me à tua mesa,
porque é de ti que me vem o fogo. Não há gesto ou verdade onde
não dormissem a tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador. — Digo: olha,
é o mar e a ilha dos mitos originais. Tu dás-me a tua mesa, descerras
na vastidão da terra a carne transcendente. E em ti, principiam o mar e o
mundo.
From
the beginning (Emerson, Lake & Palmer)
There might have been things I missed
But don't be unkind
It don't mean I'm blind
Perhaps there's a thing or two
I think of lying in bed
I shouldn't have said
But there it is
You see it's all clear
You were meant to be here
From the beginning
Maybe I might have changed
And not been so cruel
Not been such a fool
Whatever was done is done
I just can't recall
It doesn't matter at all
You see it's all clear
You were meant to be here
From the
beginning
O
amor em visita 2 (Herberto Helder)
A
minha memória perde na sua espuma o sinal e a vinha. Plantas, bichos,
águas cresceram como religião sobre a vida — e eu nisso demorei
o meu frágil instante. Porém, o teu silêncio de fogo e leite
repõe a força maternal, e tudo circula entre o teu sopro e o teu amor.
As coisas nascem de ti como as luas nascem dos campos fecundos, os instantes
começam da tua oferenda como as guitarras tiram o seu início da
música nocturna. Mais inocente que as
árvores, mais vasta que a pedra e a morte, a carne cresce no seu
espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre, insiste de violência
a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em luz sobre as casas, a
cidade arrebata-se, os bichos erguem seus olhos dementes, arde a madeira —
para que tudo cante pelo teu poder fechado. Com minha face cheia de teu espanto
e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor e a água inicial de
outros sentidos. Começa o tempo onde a
mulher começa, é a sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve
à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com
uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de
silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos
puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra
canta baixo. Começa o tempo onde a boca
se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se
quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo. — Para
consagração da noite erguerei um violino, beijarei as tuas mãos
fecundas e, à madrugada, darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de
inocência, taça para beber junto à perturbada intimidade em que
me acolhes. Começa o tempo na
insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde a vária dor
envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração engasta o seu contorno
de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa
será a nossa carne presa e morosa. Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve. Estás
profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada na
sua força e pungência. E o que se perde de ti, como espírito de
música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo, a erva
incendiada que se derrama na íntima noite — o que se perde de ti,
minha voz o renova num estilo de prata
viva. Quando o fruto empolga um instante a
eternidade inteira, eu estou no fruto como sol e desfeita pedra, e tu és o
silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto. E as aves morrem para
nós, os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a
estrela, o aroma distancia o barro vermelho da
manhã. E estás em mim como a flor
na ideia e o livro no espaço
triste.
Book
of days (Enya)
One day, one night, one
moment, my dreams could be,
tomorrow. One step, one fall, one
falter, east or west, over earth or by
ocean. One way to be my
journey, this way could be my Book of Days.
Ó lá go lá, mo
thuras, an bealach fada
romham. Ó oíche go hoíche, mo
thuras, na scéalta nach mbeidh a
choích.
No day, no night, no
moment, can hold me back from
trying. I'll flag, I'll fall, I'll
falter, I'll find my day may be, Far and
Away. Far and
Away. One day, one night, one
moment, with a dream to believe
in. One step, one fall, one
falter, and a new earth across a wide
ocean. This way became my
journey, this day ends together, Far and
Away. This day ends together, Far and
Away. Far and
Away.
O
amor em visita 3 (Herberto Helder)
Se
te apreendessem minhas mãos, forma do vento na cevada pura, de ti viriam
cheias as minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisse sem a minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? — No entanto és tu que
te moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela
esperança. Ver no aro de fogo de uma entrega a tua carne de vinho
roçada pelo espírito de Deus, será criar-te para luz dos meus
pulsos e instante do meu perpétuo instante. Eu devo rasgar minha face para
que a tua face se encha de um minuto sobrenatural, devo murmurar cada coisa do
mundo até que sejas o incêndio da minha
voz. As águas que um dia nasceram, onde
marcaste o peso jovem da carne, aspiram longamente a nossa vida. As sombras que
rodeiam o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto o seu bárbaro
fulgor, o rosto divino impresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o
mar, os centauros do crepúsculo — aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no
peixe, no cubo, no linho, no mosto aberto — no amor mais terrível do
que a vida. Beijo o degrau e o espaço. O
meu desejo traz o perfume da tua noite. Murmuro os teus cabelos e o teu ventre,
ó mais nua e branca das mulheres. Correm em mim o lacree a cânfora,
descubro as tuas mãos, ergue-se a tua boca ao círculo de meu ardente
pensamento. Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam sobre o teu
sorriso imenso. Em cada espasmo, morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a
luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra; traz da montanha um
pássaro de resina, uma lua vermelha. Oh amados cavalos com flor de giesta
nos olhos novos, casa de madeira do planalto, rios imaginados, espadas,
danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da
noite. Ó meu amor, em cada espasmo, morrerei
contigo. Do meu recente coração a
vida inteira sobe, o povo renasce, o tempo ganha a alma. O meu desejo devora a
flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a
fome encanta pela noite equilibrada, imponderável —em cada espasmo,
morrerei contigo. E à alegria diurna
descerro as mãos. Perde-se, entre a nuvem e o arbusto, o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se para dentro do sono, levantam-se rosas
respirando contra o ar. A tua voz canta o horto e a água — e eu
caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu
corpo. Beijarei em ti a vida enorme, e, em
cada espasmo, eu morrerei
contigo.
Love
of my life (Queen)
Love of my life -
you've hurt me You've broken my heart and now
you leave me Love of my life can't you
see Bring it back, bring it
back Don't take it away from
me Because you don't know
- What it means to
me
Love of my life - don't leave
me You've stolen my love and now desert
me Love of my life can't you
see Bring it back, bring it
back Don't take it away from
me Because you don't know
- What it means to
me
You will remember
- When this is blown
over And everything's all by the way
- (Oooh
yeah) When I grow
older I will be there at your side to remind
you How I still love you - I still love
you
hurry Back - hurry
back dont take it away from
me Because you don't
know What it means to
me
Love of my
life Love of my life
... Oooh,
oooh...
Um
poema cresce inseguramente na confusão da carne. Sobe ainda sem palavras,
só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais
do ser. Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as
raízes minúsculas do
sol. Fora, os corpos
genuínos e inalteráveis do nosso amor, rios, a grande paz exterior das
coisas, folhas dormindo o silêncio a hora teatral da
posse. E o poema cresce tomando
tudo em seu regaço. E
já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único,
invade as casas deitadas nas noites e as luzes e as trevas em volta da mesa e a
força sustida das cisas e a redonda e livre harmonia do
mundo. Em baixo o instrumento
perplexo ignora a espinha do
mistério E o poema faz-se
contra a carne e o
tempo.
Com amizade: Davy
Spillane, Lito Vitale, Emerson, Lake & Palmer, Enya, Queen, Herberto Helder
e José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'