Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
Fonte
(Herberto Helder)
Ela é a fonte.
Eu posso saber que é a grande fonte em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio se esperava a noite, ou se ouvia
algures na paz da terra o urdir do tempo — cada um pensava na fonte. Era
um manar secreto e pacífico. Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente. Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam como a teta. Como o odre. Algo sorria dentro de
nós. Minhas irmãs faziam-se
mulheres suavemente. Meu pai lia. Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta. Era a
fonte. Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se com uma ponta subtil de ferocidade, e a maçã tomava
um princípio de esplendor. Hoje o sexo
desenhou-se. O pensamento perdeu-se e renasceu. Hoje sei permanentemente que ela
é a
fonte.
At
the forest fountain (Andreas Vollenweider, Mindy Joscyn)
Deixarei
os jardins a brilhar com seus olhos (Herberto
Helder)
Deixarei os jardins a brilhar
com seus olhos detidos: hei-de partir quando as flores chegarem à sua
imagem. Este verão concentrado em cada espelho. O próprio movimento o
entenebrece. Mas chamejam os lábios dos animais. Deixarei as
constelações panorâmicas destes dias
internos. Vou morrer assim, arfando entre o
mar fotográfico e côncavo e as paredes com as pérolas afundadas.
E a lua desencadeia nas grutas o sangue que se
agrava. Está cheio de candeias, o
verão de onde se parte, ígneo nessa criança contemplada. Eu
abandono estes jardins ferozes, o génio que soprou nos estúdios
cavados. É a cólera que me leva aos precipícios de agosto, e a
mansidão traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas. Cada
dia é um abismo atómico. E o leite
faz-se tenro durante os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro que talha
no calcário a rosa congenital. A carne, asfixiam-na os astros profundos nos
casulos. O verão é de azulejo. É em nós que se encurva o
nervo do arco contra a flecha. Deus ataca-me na candura. Fica, fria, esta rede
de jardins diante dos incêndios. E uma criança dá a volta à
noite, acesa completamente pelas
mãos.
Inner
garden (King Crimson)
autumn has come
to rest in her garden come to paint the
trees with emptiness and no pardon so many
things have come undone like the leaves on
the ground and suddenly she begins to cry
but she doesn't know why
heavy are the words that fall through the
air to burden her shoulders
caught up in the trees
her soliloguy,
"don't leave me alone"
Rome now comes to sit in her garden
mingling the breeze with memories
of a time when there was a room in pale
yellow hues her room with a view
where love made a bed of happiness
in muslin and lace
sweet is the voice from far away
that speaks sotto voce and
is lingering there in the golden air
to quiet the
day.
A
carta da paixão (Herberto
Helder)
Esta mão que escreve a
ardente melancolia da idade é a mesma que se move entre as nascenças
da cabeça, que à imagem do mundo aberta de têmpora a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra a sua
queimadura desde os seus recessos negros onde se formam as estações
até ao cimo, nas sedas que se escoam com a largura fluvial da luz e a
espuma, ou da noite e as nebulosas e o silêncio todo
branco. A montanha desloca-se sobre o
coração que se alumia: a língua alumia-se: O mel escurece dentro
da veia jugular talhando a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se a
lua, e de alto a baixo, em tuas grutas obscuras, essa lua tece as ramas de um
sangue mais salgado e profundo. E o marfim amadurece na terra como uma
constelação. O dia leva-o, a noite traz para junto da cabeça:
essa raiz de osso vivo. A idade que escrevo escreve-se num braço fincado em
ti, uma veia dentro da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada no espelho. Ou ainda a fenda na fronte por onde começa a
estrela animal. Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti o suspiro do sangue curvo,
um alimento violento cheio da luz entrançada na terra. As mãos
carregam a força desde a raiz dos braços a força manobra os dedos
ao escrever da idade, uma labareda fechada, a límpida ferida que me
atravessa desde essa tua leveza sombria como uma dança até ao poder
com que te toco. A mudança. Nenhuma estação é lenta quando
te acrescentas na desordem, nenhum astro é tão feroz agarrando toda a
cama. Os poros do teu vestido. As palavras
que escrevo correndo entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial. E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol
lavrado. A paixão é voraz, o
silêncio alimenta-se fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te toda no
cometa que te envolve as ancas como um beijo. Os dias côncavos, os quartos
alagados, as noites que crescem nos
quartos. É de ouro a paisagem que nasce:
eu torço-a entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras um pouco loucas engolfadas,
entre as mãos sumptuosas. A doçura
mata. A luz salta às golfadas. A terra é alta. Tu és o nó de
sangue que me sufoca. Dormes na minha insónia como o aroma entre os
tendões da madeira fria. És uma faca cravada na minha vida secreta. E
como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas
trevas.
The
letters (Leonard Cohen)
You never liked
to get The letters that I
sent. But now you've got the
gist Of what my letters
meant. You're reading them
again, The ones you didn't
burn. You press them to your
lips, My pages of
concern. I said there'd been a
flood. I said there's nothing
left. I hoped that you would
come. I gave you my
address. Your story was so
long, The plot was so
intense, It took you years to
cross The lines of
self-defense. The wounded forms
appear: The loss, the full
extent; And simple kindness
here, The solitude of
strength. You walk into my
room. You stand there at my
desk, Begin your letter
to The one who's coming
next.
Das
artes do mundo escolho a de ver cometas despenharem-se das grandes massas de
água: depois, as brasas pelos recantos, charcos entre
elas. Quero na escuridão
revolvida pelas luzes ganhar baptismo,
ofício. Queimado nas orlas
de fogo das poças. O meu
nome é esse. E os dias
atravessam as noites até aos outros dias, as noites caem dentro dos dias
— e eu estudo astros desmoronados, mananciais, o
segredo.
Com amizade: Davy
Spillane, Vangelis Papathanasious, Andreas Vollenweider, Mindy
Joscyn King Crimson, Leonard
Cohen, Herberto Helder e José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'