Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
Epílogo
(José-António
Moreira)
Desgraçadamente, temos
muito para esquecer e, apenas, uma ou duas coisas para
lembrar.
Entre o esquecer e o lembrar,
vamo-nos abandonando na espera de um momento capital de que acreditamos ser
possível nascer uma vez mais, ao mesmo tempo que nos deixamos esgotar na
memória do que parece já
irremediável.
Reivindico, com
Arrabal, a memória, mesmo que seja uma causa perdida. Afinal, recordo, mas
não compreendo. Por isso me espantam as cicatrizes da memória, de uma
memória sempre convalescente que se revela no húmido desespero do
claro dos meus olhos
escuros.
Não!, não sou uma
figura histórica; sou apenas um vocábulo da minha própria
aflição, da solidão que me persegue e que sigo por entre o
fantástico e a tremura do amor, um dia, outro dia e, no final, uma vida
– tudo entre o quase tudo e o quase
nada.
Gates
of delirium (Yes)
Soon, oh soon the
light, Pass within and soothe this endless
night And wait here for
you, Our reason to be
here.
Soon, oh soon the
time, All we move to gain will reach and
calm; Our heart is
open, Our reason to be
here.
Long ago, set into
rhyme.
Soon, oh soon the
light, Ours to shape for all time, ours the
right; The sun will lead
us, Our reason to be
here.
As
mãos (Hugo Santos) adapt.
A trigo
me soube a tua mão nascente. Com ela circunvaguei rios, suspendi
silêncios. De trémulas asas se fez
o meu vento sul: a mesa aí está e, sobre o pão, a tua mão
poente.
Diria que nas tuas mãos
fundearam as macias harpas da
ternura.
Toca, pois. Recolhe com elas o
trémulo jeito das minhas. Com elas, retomarás o fugidio perfume duma
pergunta que tenteou
distâncias.
Toma, então, nos
teus braços, o peso de um pássaro que hesitou no
azul. Aconchegada aí, recolhida entre
eles como qualquer filho pródigo que regressa, a alegria terá a
espessura duma nave que recusou partir.
Nada, em tuas mãos, será gratuito,
ouve. O mínimo gesto, o mais breve adeus terá sempre a dimensão
da palavra que ficou por dizer. Perguntarás: para quê querer
mais?
Vê agora: nas minhas, as
tuas mãos adormeceram. Recordo, sobre a
minha pele, os dez navios dos teus dedos. Lentos caminham, alheios,
clandestinos, seguramente recolhendo as suas diásporas de
fogo. Tomo-os entre os dedos, deles me dobo,
eu, operário de todos os silêncios, aprendiz de
ventos.
As grandes verdades serão
sempre feitas de minúsculas palavras, de transparentes diálogos, de
silêncios. Respira-me apenas com a doce e incerta serenidade de quem todo
se deve e dá. As mãos recolherão depois o seu casulo de
névoa.
Já ergueram muros,
desenharam paisagens, talharam os seus ritos. São, por isso, duas mãos
carregadas de presságios. Podem, seguramente, ensinar e aprender ou,
recolhendo a última areia dos despojos, tactear tempestades ou iludir
marés. Agora estão a recolher os últimos grãos da poeira da
tarde.
Apenas te lembro que nunca
é tarde para iludirmos as flexíveis varas da
solidão.
Fingertips
(Camel)
In the time it takes to
laugh, love can turn the
key. Crystal clear the future
lies and what will be will
be.
Don't hold it
back, take the chance you
missed. Don't hold it
back, fill the
emptiness.
Soon the time to say
farewell, will come with no
return. Older now but wiser
from lessons we have
learned.
Don't hold it
back, take the chance you
missed. Don't hold it
back, fill the
emptiness.
Slip through your
fingertips, Speak from your heart don't let
it Slip through your
fingertips, Search for the feeling in
it. Don't let it
- Slip through your
fingertips, Lost if you leave too
late. All at your
fingertips, Gone if you
hesitate.
Os
seios (Hugo Santos) adapt.
O subtil
acorde das mãos amadurando deu
fruto. Paradas, estão, agora, as
mãos, sobre as dunas que mal parecem
respirar.
Como doem, de esquecidos, os
silêncios! Levemente o polegar tenteou o seu fruto, cresceu com ele como se
fosse o seu alibi. De quantos mundos, se faz
a concha ávida e surpresa do meu primeiro punho? Quantos rios,
entrelaçados, disputando? Que palavra achada, aqui, nesta memória dos
dedos tecendo o seu casulo, sob o
sangue?
Sob o rocio da manhã, as
minhas mãos catalogaram o rosto e perguntaram as longas avenidas dos teus
cílios. Desdobram-se agora no seu persistente dobar sobre as amêndoas
dos teus seios, até aflorarem o vale recamado de nenúfares, do
ventre. Vão, inquietas, suspender-se
aí. Há já, no mudo diálogo dos meus dedos e na tua inquieta
aceitação deles, a incerta promessa de qualquer milagre a acontecer,
inesperado.
Como é bom acariciar
os fios do teu tear. A cabeça tombou sobre o aroma da terra. Entreabro as
narinas; apetece-me cantar, desafiar a meiga harmonia das palavras que me
chegam. Mas apenas a língua, açodada de mil sedes, se reparte ao que
(nos) vem.
Sal. Sal e trigo e asas
sobrevoando as colinas do teu peito. Ensinou-me o meu pai as azuis ogivas de
todos os vôos e o napalm dos ventos que viriam do norte. Eis o que sei da
terra: a magoada colheita dos nenúfares sob a resignada voz de minha
mãe e este incêndio das mãos degladiando o restolho onde se
acoitam os últimos bagos duma outra colheita que
findou.
Dream
now (All About Eve)
The sun is low and
the grass is tall We're butterflies on a
garden wall I am she as you are
he And nowhere will they find us
now.
Dream now, dream
now, And find you're not dreaming at
all
Reality can cast his
net Come fly away
! We can't let him catch us
yet We're fireflies heading for the
clouds To where they'll never find us
now... Dream now...I'm calling your
name Can you hear me... Can you hear
me... So far away... from
you... Far from
home...?
As
pernas (Hugo Santos) adapt.
Subiste com
as minhas pernas todos os degraus da planície e com elas aprendeste o ritmo
de quem partia. Foi teu o chão dos meus pés e a fresca pegada dos meus
sentidos. Foste, assim, um dos meus
ventos. Então, as pernas —
jugulando o tempo, aprendendo as
ervas…
As mãos
tentearão, ainda, o círculo dos joelhos; sobre eles pesará a
espera, o espelho adiado dos gemidos, as palavras percutindo,
solidárias. Cantámos até onde
a voz do dia foi possível, sem sequer premeditarmos as febris línguas
dos incêndios sob as ravinas do
ventre. Aí deponho, agora, mansamente
deitado, os meus cabelos.
«Com as
tuas pernas», disse o meu pai, «aprenderás o tempo. Nenhum mundo
será interdito ao rumor dos teus passos. Quando voltares, recolherás,
uma a uma, as pegadas que ficaram. Com elas ser-te-á possível que
todos os longes se fazem sempre de minúsculos
atalhos».
Deitado agora sobre o
teu corpo lembro como foram pequenos os oceanos, para todos os rios que nos
chegaram. Colhi todos os gemidos para que, pura e transparente, se levedasse a
revolta.
Caminha, pois. Circunda, poro
a poro, o verde coração da planície. Já construímos a
casa, habitámos ventos, decifrámos marés. Já
partilhámos todos os regressos, escrevemos cartas, aprendemos as
dúcteis sombras de todas as memórias. Sejamos o barro desta
ânfora e recolhamos nela a sede que nos
cabe.
Nada, nunca, será gratuito,
repito-te. Mas tudo é possível na catedral imensa das tuas pernas,
circundando o sol. E tudo tão simples como um filho, um rio ou uma mão
clandestinamente
solidária.
Fall
at your feet (Crowded House)
I'm really
close tonight And I feel like I'm moving
inside her Lying in the
dark I think that I'm beginning to know
her Let it
go I'll be there when you
call Whenever I fall at your
feet And you let your tears rain down on
me Whenever I touch your slow turning
pain
You're hiding from me
now There's something in the way that you're
talking The words don't sound
right But I hear them all moving inside
you Go, I'll be waiting when you
call
Whenever I fall at your
feet And you let your tears rain down on
me Whenever I touch your slow turning
pain
The finger of blame has turned
upon itself And I'm more than willing to
offer myself Do you want my presence or need
my help Who knows where that might
lead
I fall at your
feet And you let your tears rain down on
me Whenever I
fall
A
última terra (Hugo Santos)
adapt.
Cúmplice de ventos fui e,
por isso, lego-te o silente rumor de todas as
asas. Do húmido barro desta terra,
moldei a ânfora, a sede, multipliquei lábios e deixo-te, assim, a
solidária respiração de quem veio tanger uma harpa de
distâncias e consigo trouxe o inesperado diálogo de outros
rios.
Lego-te uma inquieta mão
surpreendida, uma boca ávida de todas as vozes e o adubo de um gesto entre
as persianas da manhã.
Calei!
Calei até onde é possível um homem esquecer ou silenciar e, no
entanto, ao meu lado, alguém gritou. Fui eu! Sim, fui
eu!
Breve me foi o medo e a coragem.
Mais breve, ainda, o ódio. Recordo, sempre, um rosto para lá do vidro
e o duelo das mãos decepando lenços, quando as lágrimas
partiam. Lego-te, por isso, gestos. De raiva
uns, de magoada espera, outros. Com eles afagarás a casa, reaprenderás
distâncias.
Os ventos permanecem.
Nada perguntes. Tudo está aí, tão sensível e explicável
que só as mãos, cingindo a sua broa de silêncio, entenderão
a cor, o som, a exacta espessura do
olhar.
Exilada se escreverá a
última terra. Hão-de ser as mãos, depois, a catalogar os
despojos. Nada esperes de definitivo. As pernas marcarão, ainda, o compasso
doutras esperanças.
Lego-te,
assim, a mais verde palavra desta enternecida colheita de memórias.
Semeia-a, pois, do lado esquerdo, lugar onde os ventos lentamente se cumprem e
os rios reaprendem as nascentes e levantam as pontes levadiças de todos os
oceanos.
Talvez já amanhã ou
depois. Mas não deixes que amanhã seja nunca
mais!
I
will find you (Clannad)
Hope is your
survival A captive path I lead
No matter where you go
I will find you
If it takes a long long time
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
Nachgochema
Anetaha
Anachemowagan
No matter where you go
I will find you
In the place with no frontiers
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
Hale wú yu ga I sv
Do na dio sv I
Wi ja lo sv
Ha le wú yu
Do na dlo sv
No matter where you go
I will find you
If it takes a long long time
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
No matter where you go
I will find you
In the place with no frontiers
No matter where you go
I will find you
If it takes a thousand years
No matter where you go
I will find
you
Estás
a ver?, passaram mais alguns minutos da tua
vida! Não queres dizer
nada?! Está bem! Mas faz-me
um favor – sê feliz! Pelo menos sê feliz nos próximos
minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida,
se puderes, se fores
capaz!
Com amizade: David
Spillane, Eddie Jobson, Yes, Nightnoise, Camel, Oystein Sevag & Lakki Patey,
All About Eve, Crowded House, Lito Vitale, Clannad, Hugo Santos e
José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'