Compasso
a compasso, palavra a palavra, alinham-se, rigorosos, os sons da
escrita.
Quando um homem
interroga a água pura dos sentidos e ousa caminhar, serenamente, os
esquecidos atalhos de todas as memórias, acontecem viagens — viagens
entre o quase tudo e o quase
nada.
Então, da
raíz dos nervos da memória surge a planta de uma vida escutada no
silêncio dos sons da
escrita.
Sons da Escrita
– à volta de uma ideia de José-António
Moreira
Primavera
(Arsélio Martins)
De ontem para
hoje, uma noite foi jovem e teve a sua
despedida. A noite não é pretexto
para a claridade. E as palavras também
não são a claridade. O
equinócio é um bom pretexto para anunciar outros pretextos. Este ponto
vernal anuncia a primavera e, apesar de não termos visto o inverno em parte
alguma deste tempo em que devia ter vivido, saudamos a ressurreição
da primavera.
De ontem para hoje, a
noite foi igual ao dia em todo o planeta azul e é este e outros
equilíbrios, ou a falta deles, que nos vão servir de pretexto para
falar.
Afinal o movimento do sol
é aparente e somos nós que nos aproximamos ou afastamos dele. Aqui se
encontra outra fonte de equilíbrio. O equilíbrio, e, com ele, a vida e
o amor, não reside em estar próximo todo o tempo, porque gostamos do
calor, ou em estar todo o tempo longe quando gostamos do frio. O equilíbrio
reside em estar ora perto ora longe do
sol.
Primavera
(Carlos Santana)
Lluvia de
sol Como Una
Bendicion La vida renace con su
luz La primavera ya
llego
Todo es
asi Regreso a la
raiz Tiempo de inquieta
juventud En primavera
ya
La tierra negra se vuelve
verde Y las montanas y el
desierto Un bello
jardin
Como la
semilla Lleva nueva
vida Hay en esta primavera una nueva
era
En el aire de este nuevo
universo Hoy se respira
libertad En primavera
ya
La tierra negra se vuelve
verde Y las montanas y el
desierto Un bello
jardin
Como la
semilla Leeva nueva
vida Hay en esta primavera una nueva
era
A
casa – 1 (Hugo Santos) adapt.
Com
os rios da casa, ensinou-me minha mãe o lento e paciente ondular das
palavras. Um imensurável adeus me coube
sempre, entre o olhar e o longe. Lembro-me dos barcos carregados de pólen e
do contrabando de asas dos açores
vagabundos. Quando os barcos voltaram, a
minha mãe pintou o quarto de lilás. «Não tardam aí as
andorinhas», disse ela. E nos seus olhos brilhavam já as primeiras
chuvas de Abril. Da casa, guardo,
imóvel, o teu corpo. (De tantos ventos fiz outros
silêncios…) Da mesa, a
memória do pão e os dedos habitando a
terra. De azuis voos se encheram as paredes,
se adubou a palavra. Aí estão na
memória, intactas, as mãos, sobre o teu corpo, refazendo a espera,
recuperando vozes, reconstruindo a casa, tão devagar dobando, que se
doem. Estás parada a meio da casa e nas
janelas abertas para o sol, pássaros e gestos, mutuamente, se respiram.
Há, nas paredes, o sinal breve dum olhar que abarcou o mundo e a
doçura de quem, sem se cansar, aguardou a colheita de todos os
regressos. Meu pai — domador de ventos,
furtivo caçador de astros — aí estendeu a sua rede de
presságios. As grandes verdades couberam assim numa ampulheta de terra,
enquanto os dialogados silêncios
persistiam. A casa fez-se, pois, das fugidias
sombras de todos os ausentes. Com eles,
conversámos de mil viagens interrompidas, enquanto, de fora, nos chegava o
ruído das bicicletas que corriam para longe e consigo levavam um cabaz de
sonhos, uma mala de incertezas, um coração subitamente tangível e
surpreso. Passaram por aí, sob os teus
pés, os rios da nossa casa. Nas suas margens, cultivou minha mãe
nenúfares, com a paciente resignação de quem sabe, há muito,
dos dispersos fios com que se tece a
esperança. Lembro-me das gralhas que
corriam para sul, montadas nos seus trapézios de nuvens, e do sibilino
vôo dos açores, vigiando a planície, como se fossem
interlocutores de astros, malabaristas de azul. Com eles aprendi a eloquente voz
da terra, quando as chuvas tardavam e bichos, homens e sonhos se entreolhavam.
Tantas vezes troquei as minhas palavras pelas suas asas. Tanto azul me sobrou
entre as janelas da manhã. Foi nosso, da
terra, o seu rumor de estevas, o canto dos ralos e a inesperada
germinação duma asa nas ravinas da
noite.
Our
house (Crosby, Stills, Nash &
Young)
I'll light the
fire You place the flowers in the
vase That you bought
today
Staring at the
fire For hours and
hours While I listen to
you Play your love
songs All night long for
me Only for
me
Come to me
now And rest your head for just five
minutes Everything is
good Such a cosy
room The windows are
illuminated By the sunshine through
them Fiery gems for
you Only for
you
Our house is a very, very fine
house With two cats in the
yard Life used to be so
hard Now everything is
easy 'Cause of
you
And our la,la,la,
la,la
I'll light the
fire And you place the flowers in the
vase That you bought
today
A
casa – 2 (Hugo Santos)
adapt.
Aprendemos, dos dias, os matizes
vários com que se lavram os longes, se adubam espaços e, em serenidade
e temor, se conquista a broa de trigo que nos foi indisfarçavelmente
alheia. Talvez por isso, as bicicletas
continuassem a partir, enquanto, pela noite, os combóios silvavam por
dentro do magoado coração da planície e nos traziam novas dos
amigos que construíam cidades, entre os muros das palavras
amordaçadas. Tanto a dizer, de tudo! Os
nomes aí estão, emboscados de espera, na parede sobre a tua
cabeça. Dir-te-ei: pássaros. Ei-los
viajando lentos, sobrevoando a clara peregrinação dos meus olhos.
Sabem, eles, da construção da casa, do sabor da cal, dos andaimes
erguidos entre as mãos que se davam e escutaram o breve diálogo de
quem, voltado para sul, sopesou a ternura que lhe bastava e soube que, com ela,
as paredes cresceriam sobre as suas próprias
raízes. Olhava-os o meu pai, quando
sobre o restolho caçavam a luz das últimas espigas e decifravam, os
olhos do homem que deles aprendia todas as razões pelas quais, por dentro
da manhã, se reiventavam os longes de que as bicicletas precisavam para
partir. Aí, sob o círculo dos teus
passos, se pôs a mesa. Minha irmã, lembro, cuidava do vôo das
andorinhas que haviam alugado casa na segunda trave do nosso sotão. Dos
seus longos diálogos pouco sei. Recordo-a sentada defronte do plátano,
esperando que as chuvas retrocedessem e as luminosas névoas de Março
viessem anunciar a chegada da Primavera. Era o tempo em que um homem amargamente
se deitava sobre o linho de certas palavras e esperava que a manhã viesse
clarificar os despojos. Nas pupilas de algas
dos olhos da minha mãe, as naves partiam e chegavam quotidianamente,
buscando longe o adubo doutros ventos, enquanto a minha irmã carregava um
cabaz de tílias e tuteava deuses e
pássaros. Quando vieram buscá-la,
fizemos a colheita do silêncio. Meu pai, serenamente, pegou na espingarda e
desceu à rua. E, mais serenamente ainda, disparou. Disparou três
vezes, lembro. Três vezes contra o claro rosto do dia que
passava. Não sei se os rios de minha
mãe se incendiaram. Quando o meu pai partiu, ainda não tínhamos
plantado os cravos. Os dedos da minha mãe tactearam o vento, compuseram os
meus cabelos. Não inventou grandes palavras. Olhou-me, apenas,
profundamente e disse: —
Filho. Foi a altura em que as primeiras
águas de Abril correram para o
sul.
Homesick
(Kings of Convenience)
I'll lose some
sales and my boss won't be happy but I can't
stop listening to the sound of two soft
voices blended in perfection from the reels
of this record that I've found
every
day there's a boy in the mirror asking me:
what are you doing here?
finding all my previous
motives growing increasingly unclear
I've traveled far and I've burned all
the bridges I believed as soon as I hit land
all the other options held before me
would wither in the light of my plan
so I'll lose some sales and my boss
won't be happy but there's only one thing on
my mind searching boxes underneath the
counter on a chance that on a tape I'd find
a song for someone who needs somewhere
to long for homesick because I no longer
know where home
is
A
casa – 3 (Hugo Santos)
adapt.
Mãe de ventos, terra. Deixo
aqui o meu nome, entre as diluídas sombras das ervas de
Março. As corças de água
estão aí, no tenso e resguardado coração da colina. Tão
úbere irá ser esta colheita da
memória! Sobre a húmida face das
pedras descansarão os dedos a sua inquieta (amargurada às
vezes…) peregrinação. Falo de quem veio tanger o seu acorde de
longes, a sua harpa de incertezas. De quem, enternecidamente, sopesou todas as
distâncias e recolheu na sua voz o mosto dos grandes
silêncios. «Aqui tens a
pedra», disse o meu pai. «Aduba-a de vento, para que as paredes
resistam». De frágeis mãos te
ergo, terra. À altura dos meus olhos te respiro, humilhada mãe de
tão indecisos passos. Pouco sei das súbitas gradações do teu
corpo, quando os quentes potros do suão sobre ti caminham, vindos do sul.
Digo apenas dos olhos da casa esperando a súbita revolta do teu sémen
e do estranho vôo dos pássaros, circularmente vigiando as tuas
líquidas veias indecisas. Caminho sobre
ti com a certeza de que todas as viagens são possíveis ainda. Sinto-me
intruso, às vezes, como se a distância fosse longe para a memória
que trago em cada olhar. Aqui semeio a minha magoada vara de aloendro. A sua
sombra aportará aos gerânios; sob ela descansarão os morenos
vagabundos, fiando a sua roca de
silêncios. Peço em troca, apenas, a
cúmplice adivinhação de pássaros e
ventos. Sei que no rumor das suas vozes
germinará o pão de que preciso e o solitário ritual da palavra,
repartindo a sua ânfora de vinho e a serenidade dos seus
frutos. Aqui deixarei a primeira pedra da
casa: o mais virgem sinal das mãos. A casa, de vento adubada, como disse
meu pai, para que, mesmo sob a argamassa do silêncio, as paredes
resistam.
Terra
(Caetano Veloso)
Quando eu me
encontrava preso, na cela de uma cadeia Foi
que eu vi pela primeira vez, as tais
fotografias Em que apareces inteira,
porém lá não estavas nua E sim
coberta de nuvens Terra,
terra, Por mais distante o errante
navegante Quem jamais te
esqueceria
Ninguém supõe a
morena, dentro da estrela azulada Na vertigem
do cinema, mando um abraço pra
ti Pequenina como se eu fosse o saudoso
poeta E fosses a
Paraíba
Eu estou apaixonado, por
uma menina terra Signo de elemento terra, do
mar se diz terra à vista Terra para o
pé firmeza, terra para a mão
carícia Outros astros lhe são
guia
Eu sou um leão de fogo, sem
tigre consumiria A mim mesmo eternamente, e
de nada valeria Acontecer de eu ser gente e
gente é outra alegria Diferente das
estrelas
De onde nem tempo e nem
espaço, que a força mãe de
coragem Pra gente te dar carinho, durante
toda a viagem Que realizas do
nada,através do qual carregas O nome da
tua carne
Nas sacadas do sobrado, das
cenas do salvador Há lembranças de
donzelas, do tempo do Imperador Tudo, tudo na
Bahia faz a gente querer bem A Bahia tem um
jeito
Estás
a ver?, passaram mais alguns minutos da tua
vida! Não queres dizer
nada?! Está bem! Mas faz-me
um favor – sê feliz! Pelo menos sê feliz nos próximos
minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da tua vida,
se puderes!
Com amizade:
David Spillane, George Harrison, Carlos Santana, Andreas Vollenweider, Crosby,
Stills, Nash & Young, Kings of Convenience, Caetano Veloso; Arsélio
Martins, Hugo Santos e José-António
Moreira
And in the
end the love you'll
take is equal to the love you
make
A TSF, João Paulo Meneses e João Dias iniciaram a edição de uma série de programas — 'radio.com' — sobre o fenómeno Podcasting. Logo no primeiro programa, foi referido o Sons da Escrita [24 de Outubro de 2005].
Duas ou três notas de balanço e quem vai estar presente no Encontro de Podcasters, a realizar durante o Festival Black & White, da Universidade Católica do Porto [21 de Março de 2006].
Resumo editado do que a TSF, no programa 'radio.com', transmitiu a partir do Encontro de Podcasters, realizado durante o Festival Black & White, organizado pela Universidade Católica do Porto [7 de Abril de 2006].
Resumo editado do que Duarte Velez Grilo e David Rodrigues, responsáveis pelo Podcast 'ptPodcast', publicaram a partir do registo que o Duarte teve a ideia (brilhante, digo eu!) de fazer para a posteridade do que aconteceu na Sessão-Debate, organizada durante o Festival Black & White [8 de Abril de 2006].
O primeiro inquérito feito aos Podcasters portugueses foi objecto do 'radio.com' (TSF), programa de João Paulo Meneses. Mais uma vez é feita uma referência aos Sons da Escrita, que pode ser ouvida num curto resumo editado. O programa completo pode ser ouvido nos arquivos da TSF e diz respeito à edição de 13 de Maio de 2006. O estudo foi realizado por Luís Bonixe, professor da Escola Superior de Educação de Portalegre.
[13 de Maio de 2006].
Os Sons da Escrita foram objecto da atenção do Podcaster Brasileiro, Alexandre Sena, que fez uma incursão sobre o trabalho de Podcasting que se faz em Portugal [22 de Maio de 2006].
No último 'radio.com', programa sobre Podcasting da TSF, João Paulo Meneses passou em revista o que se passou em 8 meses de programas. [3 de Junho de 2006].
Os Sons da Escrita participaram em várias acções de promoção do Podcasting. Depois das Fnac de Santa Catarina, Norte Shopping e Gaia Shopping, foi a vez de Coimbra. Esteve lá a Leonor Fernandes, que escreveu o artigo [21 de Junho de 2006].
Para que conste, ficam registados os tops do iTunes nesta data:
1.º lugar na Categoria 'Artes'
1.º lugar na Categoria 'Literatura'
20.º lugar absoluto.
Podcast? | O que é isso?!
Chegaram aos SONS da ESCRITA, um Podcast – qualquer coisa parecida com um programa de rádio, que se pode ouvir a partir dos computadores.
O SONS da ESCRITA é um AudioBlog ou, para quem preferir, um Podcast. Significa isto que aqui há áudio (Podcast), mas também há texto (Blog). O texto corresponde ao que se pode ouvir em cada programa dos SONS da ESCRITA.
Os 'agregadores' são sites que acolhem listagens de Podcasts, a partir dos quais podem fazer o download dos programas estão listados abaixo. Escolham o que vos aprouver. Basta um click e qualquer um vos levará aos SONS da ESCRITA, na versão áudio.
Os textos de cada emissão, bem como as 'letras' das músicas podem ser encontrados neste Blog na opção 'Ler' correspondente a cada programa.
Qualquer comentário (sempre bem aceite e, mesmo, desejado!) deve ser feito através da opção 'Comentar' correspondente a cada emissão ou por Email, através da opção 'Feedback'. Ninguém ficará sem resposta. A isto poderá chamar-se interacção, que é algo que falta na rádio. Sugestões, críticas arrasadoras e outras indulgências, podem e devem ser feitas!
Recomenda-se que os programas sejam ouvidos por Ciclos, já que há um tema que enquadra cada três programas. Os programas têm edição semanal e serão colocados 'ON AIR' às sextas-feiras.
Os critérios editoriais regem-se por ideias simples. O tema de cada ciclo pode ter origem num texto ou na música de um autor, havendo o cuidado de relacionar os textos com os textos das músicas escolhidas. Algumas vezes, porém, pode acontecer que seja só o ambiente sonoro a ligar as palavras, criando-lhes o contexto julgado mais adequado.
Para maior comodidade, aconselha-se, vivamente, a subscrição do serviço da 'NotifyList.com' (mais abaixo, nesta coluna). A simples inscrição do endereço de email no campo respectivo, produzirá uma mensagem de aviso sobre alterações que acontecerem no Blog SONS da ESCRITA, nomeadamente, a disponibilidade de novos programas. Garantida está a protecção da identidade dos assinantes, a completa ausência de publicidade e o envio de 'emails' mínimo, ou seja, só quando houver alterações significativas no Blog ou quando for disponibilizado um novo programa.
Agora, é só pedir que sejam felizes, nos próximos minutos, nas próximas horas, nos próximos dias, no resto da vossa vida, se forem capazes.
Lembrem-se, apenas, que 'in the end, the love you'll take is equal to the love you make'.
É necessário ter o iTunes instalado. O iTunes, para além de ser absolutamente gratuito, permite não só aceder aos Podcasts ali listados, como, também, organizar a colecção de música de cada um. Tem tantas possibilidades que só uma exploração mais longa pode desvendar. Depois se abrir o iTunes é necessário seleccionar, na coluna da esquerda, 'Music Store'. Abrir-se-á, então, uma nova janela a partir da qual podem fazer compras, mas, também, aceder aos Podcasts (Choose genre - Podcasts). Chega-se, assim, aos conteúdos em formato Podcast e, para aceder aos Sons da Escrita, basta escolher nas Categorias - 'Arts'. Os Sons da Escrita aparecerão, certamente, na nova janela que se abrirá. Ou, então, basta fazer uma pesquisa por Sons da Escrita. Depois é só subscrever (absolutamente gratuito e não exige qualquer identificação). Podem consultar os 'Tops' nas diversas categorias. Os Sons da Escrita estão incluídos nas categorias 'Arts' e 'Literature'