PAZ - PEACE - PAIX

MIA COUTO's Letter to Bush

Lettre au Président BUSH

Carta ao Presidente Bush: MIA COUTO

Senhor Presidente:

Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito.

Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.

Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho ? a África do Sul do "apartheid" ? violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.

Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos.

Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam? Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns:

- Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações;

- O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça;

- Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão;

- O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998);

- Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico;

- Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana: o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992;

- A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";

- O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.

- Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.

- Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel) a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.

- Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.

- Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46), a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba (1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraqu (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)

- Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.

- O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.

Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador. Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.

Senhor Presidente:

O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.

O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam. São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.

Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse sistema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.

Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo).

Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos, precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.

O bispo americano Monsenhor Robert Bowman escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname. Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais ? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."

Senhor Presidente:

Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa. Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.

Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.

O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.

Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

-ENGLISH VERSION

Mr President:

I am a writer from a poor nation, a country which has already been on your black list. Millions of Mozambicans wondered what evil they had ever done to you.

We were small and poor: what threat could we represent? Our weapon of mass destruction was, after all, targeted upon ourselves: it was famine and poverty.

Some of us were surprised at the reasoning which led our name to be besmirched, while other nations basked in your friendship. For example, our neighbour? the South Africa of Apartheid? was perpetrating flagrant violations of human rights. For decades we were the victims of aggression from that regime. But the “apartheid” regime received the favour from you of a much more benign response: the so-called “positive involvement”. The ANC was also on the black list as a “terrorist organization!” A strange criterion which would lead, many years later, to the Taliban and even Bin Laden himself being termed “freedom fighters”by your North-American strategists.

Well I, a poor writer from a poor country, have had a dream. Just like Martin Luther King once dreamed that America was a nation that belonged to all the peoples of America.

For I have dreamed that I was not a man, but a country. Yes, a country that could not sleep. Because my waking life was constantly jolted by terrible facts. A terror that forced me to issue a demand. A demand that has to do with you, my dear Mr President. I demanded that the United States of America should proceed to the elimination of all its weapons of mass destruction. Because of the terrible dangers, I demanded something more: that UN inspectors were sent to your country. What were these terrible dangers that assailed me? What were the fears instilled in me by your country? They were not the result of a dream, unfortunately. It was facts that fed my mistrust. The list is so long, I have chosen only a few:

- The United States is the only nation in the world that has dropped atomic bombs on another nation;

- Your country is the only nation to have been condemned for “illegitimate use of force” by the International Court of Justice;

- American forces have trained and armed the most extremist Islamic fundamentalists (including the terrorist Bin Laden) under the pretext of bringing down the Russian invaders of Afghanistan;

- The regime of Saddam Hussein was sustained by the USA while it carried out the worst atrocities against Iraqi citizens (including the gassing of the Kurds in 1998);

- Like so many other legitimate leaders, the African Patrice Lumumba was assassinated with the help of the CIA. After being captured, tortured and shot in the head, his body was dissolved in hydrochloric acid;

- Like so many other puppet leaders, Mobutu Seseseko was brought to power by your agents and granted special US espionage facilities: the CIA headquarters in Zaire became the largest in Africa. The brutal dictatorship of this man was totally ignored by the USA until he stopped being useful any more, in 1992;

- The invasion of East Timor by the Indonesian military received the compliance of the USA. When the atrocities were discovered, the Clinton Administration’s response was “the matter is the responsibility of the Indonesian government and we do not wish to detract from that responsibility”;

- Your country has harboured criminals like Emmanuel Constant, one of the most bloodthirsty leaders of Tahiti, whose para-military forces massacred thousands of innocent people. Constant was tried in his absence and the new authorities requested his extradition. The American government denied that request;

- In August 1998, the United States Air Force bombed a factory making medicines in Sudan called Al-Shifa. A mistake? No, it was in retaliation for the Nairobi and Dar-es-Saalam bombing attacks;

- In December 1987, the United States was the only country (together with Israel) to vote against a motion condemning international terrorism. Even so, the motion was approved by the votes of one hundred and fifty three countries;

- In 1953, the CIA helped to prepare a coup d’état against Iran subsequent to which thousands of Tudeh communists were massacred. The list of CIA-provoked coups is literally as long as your arm:

- Since the Second World War, the USA has bombed: China (1945-46), Korea and China (1950-53), Guatemala (1954), Indonesia (1958), Cuba (1959-1961), Guatemala (1960), Congo (1964), Peru (1965), Laos (1961-1973), Vietnam (1961-1973), Cambodia (1969-1970), Guatemala (1967-1973), Grenada (1983), Lebanon (1983-1984), Libya (1986), El Salvador (1980), Nicaragua (1980), Iran (1987), Panama (1989), Iraq (1990-2001), Kuwait (1991), Somalia (1993), Bosnia (1994-95), the Sudan (1998), Afghanistan (1998), Yugoslavia (1999)

- Acts of biological and chemical terrorism have been carried out by the USA: Agent Orange and other defoliants in Vietnam, and a plague virus against Cuba which devastated pork production in that country for years;

- The Wall Street Journal published a report announcing that 500,000 Vietnamese children had been born deformed as a consequence of chemical warfare by North-American forces.

Yes, I have awoken from the nightmare of my dream to face the nightmare of reality. The war that you, Mr President, have stubbornly set about initiating may actually liberate us from a dictator. But we shall all be left the poorer. We shall face greater hardships with our already shaky economies and we shall have far less hope of a future based on reason and morality. We shall have a diminished faith in the regulating force of the United Nations and the conventions of international law. We shall, in short, be more alone and more unprotected.

Mr President:

Iraq is not Saddam. It is 22 million mothers with their children and men who work and have a dream, just like any other normal North-Americans. We are worried about the evils of the Saddam Hussein regime which are certainly very real. But you forget the horrors of the first Gulf War in which more than 150,000 men lost their lives.

The mass destruction going on in Iraq is not the result of the weapons of Saddam. It is the sanctions which led to a humanitarian situation so grave that two UN aid coordinators (Dennis Halliday and Hans Von Sponeck) resigned in protest against these very sanctions.

Explaining the reasons behind their resignation, Halliday wrote: “We are destroying a whole society. It is as simple and terrible as that. And it is illegal and immoral”. This system of sanctions has already led to the death of half a million Iraqi children.

But the war against Iraq is not just beginning. It began a long time ago. In the Northern and Southern No-Fly Zones bombardments have been going on for 12 years. It is believed that merely since 1999 a total of 500 Iraqis have been killed. The bombing included the mass use of depleted uranium (300 tonnes, i.e. 30 times more than that used in Kosovo).

We shall rid ourselves of Saddam. But we shall continue to be the prisoners of the logic of war and arrogance. I do not want my children’s lives (nor their children’s) to be dominated by the spectre of fear. Nor for them to think that, in order to live in peace, they have to build themselves a fortress. Nor that they can only be safe by spending a fortune on arms. Just as your own country spends 270,000,000,000 (two hundred and seventy billion) dollars a year maintaining its arsenal of war. You know very well what an amount of money like that could do to change the wretched plight of millions of human beings.

The American bishop, Monsignor Robert Bowman, wrote to you at the end of last year in a letter entitled “Why does the world hate the USA?” The bishop of the Catholic Church in Florida is an ex-combatant from the Vietnam War. He knows what war is like and he wrote: “You claim that the USA is the target of terrorism because we defend democracy, freedom and human rights. How absurd, Mr President! We are the target of terrorism because, in a major part of the world, our government has defended dictatorship, slavery and human exploitation. We are targets for terrorists because we are hated. And we are hated because our government did hateful things. In how many countries have agents of our country deposed popularly elected leaders and substituted them with military dictators, puppets willing to sell their own people to the multinational corporations of America?” The bishop concluded: “The people of Canada enjoy democracy, freedom and human rights, just like the people of Norway and Sweden. Have you ever heard of attacks on Canadian, Norwegian or Swedish embassies? We are hated not because we practise democracy, freedom and human rights. We are hated because our government denies these things to third World countries, whose natural resources are coveted by our multinationals.”

Mr President:

Your Excellency does not seem to require any legitimate international institution to legitimise your right to military intervention. At least let us find some morality and truth in your arguments. I, and millions of other citizens throughout the world, were not convinced when we saw you justify this war. We would prefer you to have signed the Kyoto Convention to arrest the effects of global warming. We would prefer to have seen you in Durban at the International Conference on Racism.

But don’t worry, Mr President. We, the small nations of this world, would never dream of asking for your resignation because of the support which your successive administrations have granted to no less a litany of dictators. The biggest threat posed to America is not the weapons of the rest of the world. It is the universe of lies which have been built around your very own citizens.

The danger is not the regime of Saddam, nor any other regime. But the sense of superiority which seems to inspire your government. Your biggest enemy is not on the outside. It is within the USA. That war can only be won by the Americans themselves.

I should like to be able to celebrate the downfall of Saddam Hussein. Even to celebrate along with the Americans. But without hypocrisy, without argumentation and without having to swallow the consumerised pronouncements of the mentally impaired. Because we, my dear President Bush, we, the people of the smaller countries of this world, have a “Weapon of Mass Construction”: the ability to think.

LETTRE AU PRÉSIDENT BUSH

De Mia Couto, écrivain Mozambicain

Monsieur le Président,

Je suis un écrivain d’une nation pauvre, un pays qui a déjà été inscrit dans votre liste noire. Des millions de mozambicains ne savaient pas quel mal nous vous avions fait. Nous étions petits et pauvres : quelle menace pouvions-nous constituer ? Notre seule arme de destruction massive s’était, en fin de compte, retournée contre nous : c’était la faim et la misère.

Certains parmi nous trouvions étrange le critère qui a conduit à ce que notre nom soit entaché alors que d’autres nations bénéficiaient de votre sympathie. Par exemple notre voisin – l’Afrique du Sud de « l’apartheid » - violait de façon flagrante les droits de l’homme. Pendant des décennies nous avons été victimes des agressions de ce régime. Mais le régime de « l’apartheid » a mérité de votre part une attitude plus complaisante : le dénommé « engagement positif ». L’ANC a été aussi inscrit dans la liste noire comme une « organisation terroriste » ! Etrange critère qui a conduit à ce que, des années plus tard, les talibans et le propre Bin Laden soient considérés comme des « freedom fighters » par les stratèges nord-américains.

Quant à moi, pauvre écrivain d’un pays pauvre, j’ai eu un rêve, comme Martin Luther King a rêvé une fois que l’Amérique était une nation de tous les américains. J’ai rêvé que je n’étais pas un homme mais un pays. Oui, un pays qui n’arrivait pas à dormir. Parce qu’il vivait dans la crainte d’événements terribles. E cette crainte l’a conduit à proclamer une exigence. Une exigence qui avait à voir avec vous, cher président. Et j’exigeais que les Etats Unis d’Amérique procède à l’élimination de leurs armements de destruction massive. Du fait de ces dangers terribles, j’exigeais plus : que les inspecteurs des Nations Unies soient envoyés dans votre pays. Quels terribles dangers m’alertaient ainsi ? Quelles craintes votre pays m’inspiraient ? Ils n’étaient pas le produit de rêve, malheureusement. Ils étaient des faits qui alimentaient ma méfiance. La liste est si grande que j’en ai choisi seulement quelques uns :.

- les Etats Unis ont été la seule nation du monde qui a lancé des bombes atomiques sur d’autres nations,

- Votre pays a été la seule nation à avoir été condamnée pour « usage illégitime de la force » par le Tribunal International de Justice

- Les forces américaines ont entraîné et armé les fondamentalistes islamistes les plus extrémistes (inclus Bin Laden) sous le prétexte de mettre en échec les envahisseurs russes en Afghanistan.

- Le régime de Saddam Hussein a été appuyé par les Etats Unis quand il pratiquait les pires atrocités contre les iraquiens (inclus le gazage des kurdes en 1998) ;

- Comme tant de dirigeants légitimes, l’africain Patrice Lumumba a été assassiné par la CIA. Après avoir été fait prisonnier, torturé et tué d’une balle dans la tête, son corps a été dissout dans l’acide chlorhydrique ;

- Comme tant d’autres fantoches, Mobutu Sesseko a été un de vos agents conduit au pouvoir et a concédé des facilités spéciales à l’espionnage américain : le quartier général de la CIA au Zaire est devenu le plus important d’Afrique. La dictature brutale de ce zaïrois n’a pas mérité la moindre critique des Etats Unis jusqu’à ce qu’elle cesse d’être opportune, en 1992.

- L’invasion de Timor-Est par les militaires indonésiens a mérité l’appui des Etats Unis d’Amérique. Quant les atrocités ont été connues, la réponse de l’administration Clinton a été « l’affaire relève de la responsabilité du gouvernement indonésien et nous ne voulons pas lui retirer cette responsabilité. »

- Votre pays a hébergé des criminels comme Emmanuel Constant, un des leaders les plus sanguinaires de Tahiti dont les forces para-militaires ont massacré des milliers d’innocents. Constant a été jugé par défaut et les autorités nouvelles ont sollicité son extradition. Le gouvernement américain a refusé la demande.

- En août 1998 les forces aériennes des Etats Unis ont bombardé au Soudan une usine de médicaments, dénommée Al-Shifa. Une erreur ? Non. Il s’agissait de représailles des attentats à la bombe de Nairobi et Dar-es-Saalam.

- En décembre 1987, les Etats Unis ont été le seul pays (avec Israël) a voter contre une motion de condamnation du terrorisme international. Même ainsi la résolution a été approuvée par le vote de 153 pays.

- En 1953 la CIA a aidé à préparer le coup d’Etat contre l’Iran suite auquel des milliers de communiste du Tudeh ont été massacrés. La liste des coups d’Etat préparé par la CIA est longue.

- Depuis la deuxième guerre mondiale, les Etats Unis ont bombardé : la Chine (1945-46), la Corée et la Chine (1950-53), le Guatemala (1954), l’Indonésie (1958), Cuba (1959-1961), le Guatemala (1960), le Congo (1964), le Pérou (1958), le Laos (1961-1973), le Vietnam (1961-1973), le Cambodge (1969-1970), le Guatemala (1967-1973), Grenade (1983), le Liban (1983-1984), la Libye (1986), le Salvador (1980), le Nicaragua (1980), l’Iran (1987), le Panama (1989), l’Irak (1990-2001), le Kuweit (1991), la Somalie (1993), la Bosnie (1994-1995), le Soudan (1998), l’Afghanistan (1998), la Yougoslavie (1999).

- Les actions de terrorisme biologique et chimique ont été mis en pratique par les Etats Unis : l’agent organe et les défoliants au Vietnam, le virus de la peste contre Cuba que pendant des années a dévasté la production porcine de ce pays.

- Le journal de Wall Street a publié un rapport qui annonçait que un demi-million d’enfants vietnamiens sont nés déformés en conséquence de la guerre chimique de forces nord-américaines.

Je me suis réveillé du cauchemar du sommeil pour entrer dans le cauchemar de la réalité. La guerre que vous vous êtes entêté à déclencher pourra peut-être nous libérer d’un dictateur. Mais nous serons tous plus pauvres. Nous affronterons les pires difficultés dans nos économies déjà précaires et nous aurons encore moins d’espoir d’un futur gouverné par la raison et la morale. Nous aurons moins de foi dans la force régulatrice des Nations Unies et des conventions du droit international. Nous serons, enfin de compte, plus seuls et désemparés.

Monsieur le Président :

L’Irak n’est pas Saddam. C’est 22 millions de mères, enfants, et d’hommes qui travaillent et rêvent comme le font les communs des mortels nord-américains. Nous sommes préoccupés par les maux du régime de Saddam Hussein qui sont réels. Mais on oublie les horreurs de la première guerre du Golfe dans laquelle plus de 150 000 hommes ont perdu la vie.

Ce qui détruit massivement les irakiens ne sont pas les armes de Saddam. Ce sont les sanctions qui ont conduit à une situation humanitaire si grave que deux coordinateurs pour l’aide des Nations Unies (Dennis Halliday et Hans Von Sponeck) ont donné leur démission pour protester contre ces sanctions.

Expliquant les raisons de leur démission, Halliday a écrit : « nous sommes entrain de détruire toute une société. C’est aussi simple et terrible que cela. Et cela est illégal et immoral ». Ce système de sanction a déjà conduit à la mort un demi-million d’enfants irakiens.

Mais la guerre contre l’Irak ne commence pas maintenant. Elle a déjà commencé il y a longtemps. Dans les zones de restriction aérienne du nord au sud de l’Irak des bombardements se sont produit continuellement pendant 12 ans. On estime que 500 irakiens en ont péri depuis 1999. Le bombardement inclue l’usage massif d’uranium appauvri (300 tonnes, soit 30 fois plus que ce qui a été utilisé au Kosovo).

Nous nous libérerons de Saddam. Mais nous continuerons à être prisonniers de la logique de l’arrogance. Je ne veux pas que mes fils (ni les vôtres) vivent dominés par le fantasme de la peur, qu’ils pensent que, pour vivre tranquilles, ils ont besoin de construire une forteresse et qu’ils se seront en sécurité que quand ils auront dépensé des fortunes en armes, comme votre pays qui dépense 270 milliards de dollars par an pour maintenir son arsenal de guerre. Vous savez pertinemment que cette somme pourrait aider à changer le destin misérable de millions d’êtres humains.

L’évêque américain Monseigneur Robert Bowman vous a écrit à la fin de l’année dernière une lettre intitulée « Pourquoi le monde haït les Etats Unis ? » L’évêque de l’Eglise Catholique de Floride est un ex-combattant de la guerre du Vietnam. Il sait ce qu’est la guerre et a écrit : « Vous affirmez que les Etats Unis sont la cible du terrorisme parce que nous défendons la démocratie, la liberté et les droits de l’homme. Quelle absurdité, M. le Président ! Nous sommes la cible des terroristes parce que, dans la plus grande partie du monde, notre pays a défendu la dictature, l’esclavage et l’exploitation de l’homme. Nous sommes la cible des terroristes parce que nous sommes haïs. Et nous sommes haïs parce que notre gouvernement a fait des choses odieuses. Dans combien de pays les agents de notre gouvernement ont fait tomber des leaders élus par le peuple pour les substituer par des dictatures militaires, des fantoches désireux de vendre leur propre peuple aux corporations multinationales nord-américaines ? ». Et l’évêque conclue : « le peuple du Canada jouit de la démocratie, de la liberté et des droits de l’homme, de même que le peuple de la Norvège et de la Suède. Avez-vous une fois entendu parler d’attaque contre les ambassades canadiennes, norvégiennes ou suédoises ? Nous sommes haïs non parce que nous pratiquons la démocratie, la liberté ou les droits de l’homme. Nous sommes haïs parce que notre gouvernement renie ces choses aux peuples du Tiers Monde, dont les ressources sont pillées par nos multinationales. »

Monsieur le Président,

Votre excellence semble ne pas avoir besoin qu’une institution internationale légitime votre droit d’intervention militaire. A moins que nous puissions, nous, trouver normale et vraie votre argumentation. Moi-même et des millions d’autres citoyens, nous ne sommes pas convaincus quand vous justifiez la guerre. Nous préférerions vous voir signer la Convention de Kyoto pour limiter les effets de serre. Nous aurions préféré vous voir à Durban à la Conférence Internationale contre le Racisme.

Ne vous préoccupez pas, monsieur le Président. A nous, nations petites de ce monde, il ne nous passe pas par la tête d’exiger votre démission à cause de l’appui que vos administrations successives ont concédé à nos successives dictatures. La plus grande menace qui pèse sur l’Amérique ne sont pas les armements des autres. C’est l’univers de mensonges qui s’est créé autour de vos citoyens. Le danger n’est pas le régime de Saddam, ni d’un autre régime. Mais le sentiment de supériorité qui semble animer votre gouvernement. Votre principal ennemi n’est pas au dehors. Il est à l’intérieur même des Etats Unis. Cette guerre ne pourra être vaincue que par les américains eux-mêmes.

J’aimerais pouvoir fêter la chute de Saddam Hussein. Et fêter avec tous les américains. Mais sans hypocrisie, sans argumentations dignes de personnes mentalement diminuées. Parce que nous, cher président Bush, nous, les peuples des petits pays, nous avons une arme de construction massive : la capacité de penser.