“Três mulheres e garoto” de Reynaldo Fonseca
Ludoterapia Comportamental
Laura dos Santos Gomes Coelho – CRP 5665-0
A ludoterapia é uma forma de psicoterapia cuja meta é promover ou restabelecer o bem estar psicológico do indivíduo através de atividades lúdicas; no contexto de desenvolvimento social da criança a atividade lúdica é parte do repertório infantil e integra dimensões da interação humana necessárias na análise psicológica (regras, cadeias comportamentais, simulações ou faz-de-conta, aprendizagem observacional e modelagem); esta possibilidade de uso integrado de diversas técnicas talvez explique a aplicação da ludoterapia a diversas questões relativas ao comportamento de crianças (traumas psíquicos, abuso sexual, retardo, adoção, orientação a filhos de dependentes químicos) e de adultos (Schaefer,1994; Silvares, 2001). Nas décadas de sessenta e setenta, o atendimento comumente realizado em terapia comportamental para criancas era realizado via implementação de um programa que previa a administração de reforço positivo, punição, extinção, biofeedback e contrato de contingência dentre outras intervenções. Em alguns casos, as intervenções eram implementadas pelos pais com o mínimo de contato entre terapeuta e criança (Azrin e Foxx, 1974; Knell, 1993). Segundo Knell 1993), intervenções nas quais há pouco contato entre terapeuta e criança negligenciam a participação ativa da criança no atendimento e são pouco eficazes nos casos onde há conflitos entre a criança e os responsáveis pelas implementações de intervenções (em geral, os pais). O seguimento das orientações por parte dos pais é fundamental para o atendimento. Os principais fatores que afetam a adesão ao atendimento são o nível educacional dos pais, a empatia da terapeuta face aos sentimentos ou reações emocionais dos pais e interação terapeuta-cliente. O modelo de atendimento em ludoterapia apresentado a seguir foi elaborado a partir da especificação de alguns fatores que podem afetar a relação terapeuta-cliente (Mettel, 1986).
Avaliação em ludoterapia comportamental
A avaliação tem duração a proximada de três semanas e segue a seguinte ordem: entrevistas com os pais, visita à escola e sessões lúdicas com a criança. Nesta etapa, é solicitado aos pais registros sobre 1) o comportamento do filho, 2) a frequência de ocorrência do comportamento e 3) verbalizações do filho relacionadas à queixa principal; 4) escalas de temperamento; 5) questionário das atividades de vida diária, seguimento de regra, alimentação, atividades lúdicas e relacionamento social da criança (Windholz, 1988) e 6) um questionário específico sobre a queixa.
Visita à escola da Criança
Realiza-se visita à escola com o objetivo de observar e registrar a interação da crianca com os colegas assim como contactar os técnicos da escola, como são realizadas as atividades solicitadas pela professora, brincadeiras com os colegas, autonomia nas atividades escolares e de vida diária exigidas pela escola (guardar os brinquedos com os quais brinca por exemplo).
Visita à casa da criança
É realizada uma visita à casa com o objetivo de observar o comportamento da criança e o local da casa reservado às atividades lúdicas; a relação entre as regras da casa e o comportamento da criança e realização das atividades de vida diárias. A visita à casa permite observarcomo a criança explora os brinquedos nos espaços disponíveis para brincar; e a sequência de eventos que antecedem a ocorrência dos comportamentos inadequados. Em alguns casos é realizada intervenção no momento em que ocorre o comportamento (cf. exemplo em Gomes, 1998).
Sessões lúdicas de psicodiagnóstico
São realizadas sessões lúdicas com o objetivo avaliar o comportamento lúdico da criança. Nas sessões lúdicas, realizadas com a presença da mãe ou do pai conforme o nível de habituação e sensibilização da criança ao consultório, são registrados o tipo de brinquedo, número de brinquedos com os quais a criança brinca, preferência por brinquedos, qualidade do brinquedo, o uso funcional e o tempo de permanência em cada brinquedo (Windholz, 1988; Bomtempo, 1992). A avaliação das sessões lúdicas indicam 1) se e como a crianca reproduz nas sessões lúdicas acontecimentos do cotidiano (separação dos pais, a rotina diária e o padrão alimentação), 2) alteração no padrão lúdico (tempo de permanência nas atividades lúdicas comparativamente às crianças da mesma faixa etária), 3) comportamento assertivo e seguimento das regras estabelecidas na situação lúdica e 4) as informações fornecidas pela mãe sobre autonomia nas atividades de vida diária e relacionamento social foram corroboradas. O papel da terapeuta é reforcar as situações de autonomia da criança nas situações de escolha de brinquedos ou de autonomia (realizar a atividade sem auxílio).
Laudo
A partir dos dados fornecidos pelos pais, observações nas sessões lúdicas no consultório, na escola e na casa da criança é elaborado e entregue aos pais um laudo por escrito que relaciona aspectos do ambiente físico (por exemplo, mudança de residência) e social (e.g., regras sociais), e a reação psicológica da criança.
Sensibilização é uma das formas mais elementares de aprendizagem e é definida como um aumento na força da resposta reflexa resultante da ocorrência de um estímulo novo e aversivo. Aprendizagem ocorre quando, gradualmente, o organismo se habitua à resposta sensibilizada, isto é, a resposta sensibilizada diminui após repetições do estímulo (Sato, 1995).
Recentemente, a relação entre habituação e temperamento tem sido estabelecida através de estudos longitudinais (Smith, Dixon, Jankowski, Sanscrainte, Davidson e Loboschefski, 1997); tais estudos mostram que a taxa de habituação de bebês (tempo de observação total, número de tentativas para atingir o critério de habituação e tempo de fixação de estímulos novos) é significativamente associada com cinco dentre nove dimensões de temperamento (adaptabilidade, nível de atividade, humor, distratibilidade, força da resposta e persitência).
Tais estudos podem ser relacionados aos trabalhos clássicos de Pavlov, Strelau e Eysenck sobre o papel do temperamento na adaptação do indivíduo ao ambiente; tenho sugerido em trabalhos prévios (Gomes, 1998; Coelho, 2000) que algumas dimensões de temperamento (e.g., adaptabilidade, nível de atividade, humor, distratibilidade, força da resposta e persitência) sejam agrupadas em dois fatores: habituação e sensibilização .
Intervenções
As sessões lúdicas têm como objetivo de 1) habituar a criança às atividades lúdicas e, através de tais atividades, promover ou restabelecer o bem estar da criança enfatizando parte de uma cadeia de atividades de vida diária; e 2) reforçar positivamente a criança nos contextos de autonomia e assertividade. Os pais são orientados sobre aprendizagens inadequadas que podem ocorrer ao longo do desenvolvimento da criança. São discutidas crenças comuns aos pais (a aplicação do termo “culpa”, por exemplo, é aplicado de modo inadequado em casos de encoprese) e os pais são orientados acerca das reações sobre as quais a criança ainda aprendeu a exercer controle. As atividades lúdicas são escolhidas pela criança. A biblioterapia, uso de livros para abordar temas específicos relacionados ao tratamento, é uma forma de intervenção utilizada para alcançar os objetivos estabelecidos (Coelho, 2000; Knell, 1993; 1994).
Conclusão
As intervenções psicológicas realizadas no contexto da ludoterapia (habituação e dessensibilização ao ambiente, biblioterapia, orientação aos pais e seguimento das instruções) possibilitam o restabelecimento do bem estar do indivíduo. A participação dos pais no atendimento é essencial para que 1) as crianças avaliem o consultório como um ambiente agradável e de confiança.
Matheny (1991) e Gomes (1998) sugerem que sensibilização e habituação em situações lúdicas e no comportamento exploratório sejam interpretados como medidas de temperamento infantil. Por exemplo, as escalas de temperamento de Presley e Martin (1994) procuram especificar reações mais frequentes das crianças diante de mudanças nas condições do ambiente físico e social sensibilização.
Referências bibliográficas
Azrin, N.H. e Foxx, R.M. (1974) Toilet training in less than a day . New York: Simon and Schuster.
Bomtempo, E. (1992) Brinquedoteca: espaço de observação da criança e do brinquedo. Em O Direito de Brincar: A Brinquedoteca . São Paulo: Scritta Editorial.
Bosa, C. A. e Piccinini, C.A. (1994) temperamento infantil e apego mãe-criança: considerações teóricas, Psicologia: Teoria e Pesquisa, 10, 193-212.
Gomes, L.S. (1998) Um estudo de caso de encoprese em ludoterapia comportamental. Psicologia: Ciência e Profissão, 3 , 54-61.
Coelho, L.S.G (2000) Encoprese e constipação em gêmeos: um estudo de caso em ludoterapia comportamental. Psicologia: Ciência e Profissão , 5, 56-64.
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Knell, S.M.(1995) Cognitive Behavioral Play Therapy. New Jersey: Aronson.
Neri, A.L. (1987) Modificação do comportamento infantil. São Paulo: Papirus.
Mettel, T.P.L. (1986) A relação terapeuta-cliente sob o enfoque comportamental: algumas considerações. Em J.L.O. Bueno (Org.) O estudo do comportamento: pesquisa e prática no Brasil. Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto.
Sato, T. (1995) Habituação e sensibilização comportamental, Psicologia USP, 6, 231-276
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Silvares, E.S. (2001) Ludoterapia cognitivo-comportamental com crianças agressivas. Em H. J. Guilhardi; M. B. B. P. Madi; P. P. Queiroz e M.C. Scoz (Orgs.). Sobre Comportamento e Cognição vol 7. 1 ed. Santo Andre, p. 189-199.
Smith, P.H; Dixon, W.E.; Jankowski, J.J.; Sanscrainte, M.M; Davidson, B.K.; Loboschefski, T. (1997) Longitudinal relationships between habituation and temperament in infancy, Merrill-Palmer Quarterly, 43, 2, 291-304.
Walten, F.N. (1979) Habituation model of systematic desensitization, Psychological Bulletin, 86, 3, 627-637.
Windholz, M. H. (1988) Passo a Passo, seu caminho. Sao Paulo: Edicon.